Luiz Geraldo Mazza
Dilúvio como salvação
Lula e seus seguidores só têm um aliado forte: o caos. Isso ficou claro quando, num ato falho, revelador no entanto de pulsões íntimas, disse que ainda bem que Deus não tinha sido privatizado e a taxa de desemprego seguia crescente. Como, porém, a sinistrose relativa ao desemprego não emplacou (e está aí o último Ibope marcando 46% a 22%), fizeram manobra ainda mais radical, aspirando simplesmente que a fúria das bolsas atingisse o Brasil e que a forma de o governo suavizá-la seria trocar a equipe econômica. Enfim o primarismo mal disfarçando, o grito primal.
Se essa suposta esquerda - que afrontaria qualquer socialista ou marxista verdadeiro como um Hobbsbaw com seu apego a utopias regressivas e agrárias que horrorizavam Marx - se agarra no imponderável com a mesma ânsia que religiosos esperam a volta de Jesus é porque está prestes a atrelar-se às bruxarias para salvar um credo tido como materialista e seus seguidores. Que a esquerda, mesmo a séria, que obviamente não é essa, bastante próxima do fascismo, tenha dificuldades para rever seus tabus e colocar uma proposta alternativa ao que há de terrível no determinismo (e por isso circunstancial) neoliberal, dá para entender. Sabe-se, no entanto, que jamais será pela via nacionalista, reserva de mercado, figurinos de substituição de importações, aquele receituário que era cabível e até necessário em certas circunstâncias históricas.
O que se poderia admitir, caso tivéssemos no centro da economia o que fustiga a sua periferia (e esta é a dos tigres asiáticos, México, Rússia e também o Brasil), seria a hipótese de um retorno às saídas keynesianas, como se deu com o crack da Bolsa de Nova York e que também lançou mais do que a sua baba sobre o nosso território e especialmente à sua comodity mais significativa, o café.
Um ‘‘New Deal’’ rooseveltiano, algo que se poderia imaginar, para reciclar a ordem violada, seria uma saída, e a crise em si a punição para os que olham o neoliberalismo cosmopolita como um determinismo, fatalidade irremovível, que aí está com seu caráter confessional e até por isso abominável.

AXIOMA
Aníbal Khury está aceitando apostas em Lerner dando nada menos de 1 milhão de votos de vantagem para Requião. Aníbal dixit, verum est. Já dizia o seu xará, montado nos seus elefantes, antes de ser derrotado. Mas com 17 pontos de vantagem sobre Requião, como o Ibope apontava ontem, não é preciso ser guru para acertar as coisas com relativa precisão


GLOSA Em turfe existe a expressão ‘‘páreo de jóquei’’, aquele em que o resultado é prévio porque não pode dar outro. É o caso de Álvaro Dias, que aparecia no Ibope de ontem com 60% das preferências. Em descompensação, a sua fuga da eleição governamental mata a representação proporcional do PSDB que nesse aspecto, em que pese a votação senatorial, vai ser ‘‘nanica’’.
BIZARRICE No Bar do Zico, em Alto Paraná, o pessoal bate papo sobre futebol e política e de repente alguém diz ‘‘me passa o Corninho’’. Mais um pouco e outro pergunta: ‘‘Quem está com o Corninho?’’. Uma pessoa de fora, perplexa, pergunta quem é esse tal de ‘‘Corninho’’. Era um jornal da região, chamado de ‘‘Corninho’’, denominação caricata, mas também afetiva, porque no entender da turma, bem maldosa, ele é ‘‘o último a saber das coisas’’.
SPRAY Não apenas a temperatura de Lerner subiu nos últimos dias e sim também os registros de todos os institutos de pesquisas. No Ibope (ontem, Globo) ele saltou de 43 pontos para 48, enquanto Requião caía de 34 para 31. - Diferença que era de nove pontos subiu para 17, praticamente o dobro. - Subiu em outros indicadores como na espontânea, onde a situação era apertada, e na expectativa de vitória. - A notícia, antes de passar na tevê, chegava aos dois comitês: festa no de Lerner, silêncio no de Requião. No Curtume 2, o foguetório ficou para a hora da televisão, mas no QG oposicionista, havia uma divisão rígida: os que defendiam uma campanha mais ‘‘hard’’ para reverter o quadro pareciam se impor aos defensores da manutenção da postura ‘‘soft’’. - Marquetólogo, que já trabalhou com Requião e que com ele rompeu, lembrava que mesmo no pleito de 90, jamais o hoje senador se valeu da contundência. A parte crítica ficava para a banda cítrica, laranja. Hoje há gente demais querendo fazer o papel e com mais disposição do que o próprio candidato. - A vinda de FHC, em cima dos números robustos de anteontem (46 a 22), mais os de Lerner, criou as condições para um clima de euforia, no qual ninguém lembrava da crise das bolsas. - A diferença de FHC e Lula no Paraná, que tende a ser a maior do País, quanto mais se intensifica a chamada marcha das colunas e ainda por cima a aceleração das invasões, é outro fator que estava sendo analisado pela oposição: o oportunismo deve ser usado a todo o vapor, como se faz com Nedson Micheleti, que mal ataca Álvaro Dias para não prejudicar Requião. Excesso de cautelas e pasteurização confundem a cabeça de militantes mais ativos e autênticos. - Um dos argumentos de consolo na área oposicionista era o de que o Ibope seria muito vulnerável por prestar serviços ao governo. - O fato é que o menor número era justamente o do Ibope. Tanto o Datafolha como o ‘‘Vox Populi’’ tinham registros bem mais robustos. Se a tendência não for cortada, adeus.
FOLCLORE Nos anos 70 houve duas boatarias, uma sobre o goleiro Mazurkievicz, da Seleção Uruguaia, que teria nascido em São Mateus do Sul, nas barrancas do Rio Iguaçu, e outra que um dos astronautas que tinham ido à Lua era catarinense. Como havia mais catarinas por metro quadrado na sede da Folha de Londrina, a começar pelo João Milanez, passando por todos os Macarini, do Valmor ao Carlos, do Walter ao Antoninho, não resisti e lasquei ‘‘catarinauta’’ para o mais novo herói do espaço. Quanto a São Mateus do Sul, nada procedia, pois lá não havia nem a mazurca, gênero musical, nem o baita goleiro.
CROMO Tantas vezes mergulho em seus olhos, mas não me sinto mergulhado: seu corpo me parece vivo como o mar; o meu, cada vez mais árido, como a areia.
EPIGRAMA Menino de pintinho duro é pecado? Mas na hora do xixi fica bem mais funcional quando voltado para o alto.
AFORÍSTICO Aí aquele senhor sábio, que costuma dizer sobre futebol que o jogo só acaba quando termina, faz a advertência solene: ‘‘A pesquisa verdadeira dessas eleições será no dia 4 de outubro!’’

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