Luiz Geraldo Mazza
Horário gratuito e Ibope
É possível que amanhã estejamos diante de um fato novo com a divulgação do Ibope-Globo já abrangendo o período da campanha eleitoral propriamente dita. De qualquer forma, o flagrante será precário, pois, ao que se sabe, o índice de audiência tem sido desprezível, embora o impacto da denúncia oposicionista relativa aos gastos com propaganda, este o primeiro e forte ‘‘Exocet’’ de toda a arenga do horário gratuito.
É o fato novo, marcante, que está a exigir uma resposta menos técnica e mais política do que o arrazoado do ex-chefe da Casa Civil, Cândido Martins de Oliveira, que foi apenas um ‘‘jab’’ diante de um golpe capaz de levar, na sequência, ao nocaute, uma espécie de efeito retardado. Se a TV não está sendo assistida, o assunto acaba ganhando capilaridade nas discussões caseiras e de rua, que é outra das instâncias fortíssimas na formação de opinião.
Em São Paulo, percebeu o Ibope-Globo-Estadão que Paulo Maluf reduziu de 5 para 2 pontos percentuais a distância de Francisco Rossi, do PDT. Como o período pesquisado abrangeu a campanha gratuita, percebe-se que, embora em seu início, ela tem tudo para, de fato, decidir a parada, ainda mais diante da apatia do público. Lá a eleição não escapa do segundo turno, já que o quadro mostra Rossi com 26%, Maluf com 24%, Covas com 13%, Marta Suplicy com 12% e Quércia com 7%. É possível gerar maior quantidade de fatos políticos daqui para a frente, daí a insistência do candidato oposicionista no Paraná manter o foco na questão da propaganda, deixando outras munições como a do pedágio, a violência fora de controle e a perda de espaço das empresas paranaenses no atual processo de desenvolvimento para ocasião mais oportuna.
Mesmo assim, até agora pelo menos, não há sinais de que Requião consiga reduzir de forma drástica a distância que o separa de Lerner, embora num pleito polarizado, plebiscitário, como este, dificilmente teremos uma diferença significativa, além de 5 ou 6 pontos. Há mais combustível para Requião subir do que condições objetivas para Lerner chegar aos 50 pontos. O que não afasta a hipótese de traumas, fatos de última hora, especialmente trucagens, em que o PMDB é pós-graduado e o PFL, em que pese a fama e o convívio com o poder, é meio principiante. Há ainda as baixarias que derrubam quem as usa, mas detonam os que não sabem respondê-las com eficiência.


AFORÍSTICO
Imaginem se houvesse um elixir da verdade na campanha eleitoral e os candidatos revelassem o que pretendem de fato. Seria uma catarse coletiva.



AXIOMA Ponta Grossa é um termômetro político, pelo menos relativamente ao Paraná meridional. Afiniza com Curitiba: votou em Afif Domingos em 89 e também em Plínio Salgado, em 55. Agora, na pesquisa Diário/Perfil, Lerner aparece naquela cidade com quase 52% perto do registro, portanto, da Capital. A subida de Lerner foi ascensional: pulou de 39% (ano passado) para 40,5%, 42%, 44.6%, 49% e agora 51.9%. Requião oscilou muito: de 23% para 28%, depois 17%, 19%, 21%, 34% e 33%. Ponta Grossa é assim na vitória ou na derrota. Em 65, sufragou Munhoz da Rocha junto com Curitiba, mas perdeu para Paulo Pimentel.
GLOSA O assessor econômico de Lula, o economista Guido Mantega, entende que o mercado sinaliza falta de confiança na equipe econômica. Um editorial do ‘‘The Wall Street Journal’’ de anteontem foi na linha oposta ao raciocínio petista, mostrando que o Brasil não é a Rússia. Agora só falta um gaiato oficial dizer que Margarina não é Manteiga.
BIZARRICE Políticos, ligados à oposição, lembram das viradas não apenas de Requião em relação a Lerner em 1985 para prefeito de Curitiba, como ainda a de Iberê de Mattos sobre Felipe Aristides Simão. Durante quatro dias, neystas festejavam a vitória quando vieram os resultados da 3ª Zona, que diziam ser a ‘‘zona da mata’’ e consagraram Iberê. O tempo passa, o tempo vôa, mas apesar do voto eletrônico e do fim dos suspenses nas apurações, a ilusão é o forte dos dois lados. Sem isso, a vida política é improvável.
SPRAY Na reabertura do processo relativo à morte dos três PMs e do líder sem-terra Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha, em 1993, na Fazenda Santana, em Campo Bonito, foi ouvido Horácio Martins de Carvalho, da esquerda cristã, autor de uma carta que co-responsabiliza Requião pela ocorrência. - Horácio é consultor do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (OEA), e do Progresso das Nações Unidas para o Desenvolvimento (ONU), e na época era o mediador do Instituto Ambiental do Paraná em assentamentos e ocupações e nos quais desempenhava papel relevante. - O processo corre na Comarca de Guaraniaçu e não houve até agora decisão judicial autorizando o delegado Júlio Reis, da Cope, a prorrogar o inquérito. - A referência feita por Cândido Martins de Oliveira ao caso ‘‘Teixeirinha’’, mais o andamento do processo, em que há muitas testemunhas a ouvir, como a viúva Lúcia Mainko da Silva e seu filho Marcos Antônio, que viu o pai entregar-se aos militares, conforme seu testemunho, e ser morto, acabarão influindo nas eleições. - Mas Requião não quer deixar o assunto sem resposta, tanto que pediu tal direito em relação ao candidato do PSTU, Júlio de Jesus, o primeiro a manifestar-se sobre o assunto. - Requião nega ter dado ordens para caçar os sem-terra, tanto que está processando todos os que, como Joni Varisco, dão a versão de que teria desejado o desenlace sangrento. - Duas testemunhas do alegado telefonema que Requião teria dado ao comando da PM de Cascavel, o vice-governador Mário Pereira e o conselheiro Nestor Baptista, do Tribunal de Contas, não confirmaram afirmações de Joni Varisco. - Mário Pereira admitiu apenas que o governador estava nervoso, transtornado, o que não era para menos.
FOLCLORE Um dos melhores saques psicossociais usados em campanha eleitoral foi o de Aníbal Khury em 1965, ao retrucar a frase ‘‘Zé Ninguém’’, a que Paulo Pimentel se referira para desqualificar um crítico, o que passou a sugerir uma postura antipovo, com a imagem do ‘‘chapéu de palha’’ que passou a ser um símbolo dos seguidores. Evitou-se a chantagem da exploração de luta de classes, e Paulo levou melhor porque era do interior e portanto mais próximo do ‘‘chapéu de palha’’. Hoje Requião tenta sugerir que é o pobre contra o rico, o que nem sempre dá certo. Vide a última eleição em Curitiba, quando Carlos Simões tentou, indiretamente, a sugestão e perdeu de Taniguchi.
CROMO Nas cheias do Rio Iguaçu, voltam as garças e às vezes dá impressão que permanecem apenas no reflexo das águas, como se fossem virtuais.

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