Luiz Geraldo Mazza
Prodigalidade & propaganda
Os gastos com propaganda do atual governo são abusivos. Não há como contestá-los. Aliás, trata-se de praxe abominável que entra governo, sai governo, é mantida a qualquer custo, mesmo que em prejuízo de setores vitais.
Não consta, em que pese a procedência da acusação feita no horário gratuito, dos dispêndios intoleráveis de R$ 340 milhões, comprovados e reconhecidos, que o senador Roberto Requião, tanto na Prefeitura da Capital, quanto no governo estadual tenha sido um exemplo de austeridade nesse particular. Ao contrário: chegou ao cúmulo, quando prefeito, de fazer propaganda de Curitiba e seus feitos (o sacolão do Jorge Miguel Samek, que daria o menor custo de gêneros do País, o que jamais foi demonstrado; a regularização das invasões com que aduzia um fator artificial às migrações; escola farta e abundante; transporte mais barato do País) em rede estadual de TV. Uma propaganda diversa da de Lerner porque supostamente mais ‘‘social’’, ao gosto do populismo barato.
No governo estadual, Requião não foi nada contido em termos de propaganda e detinha uma vantagem hoje inexistente: a correção do fluxo de caixa pela inflação, o que mascarava profundamente os gastos públicos, fator que também favoreceu as gestões de Álvaro Dias e anteriores, o que não impediu que este, em três anos, fizesse antecipação de receita na rede bancária.
O pior é que Requião prometeu, o que seria aliás benéfico à cidadania e aos próprios meios de comunicação social, um ‘‘choque de capitalismo’’ na área. A promessa, em tom de bravata, não foi porque não era para ser cumprida. E foram exatamente os meios de comunicação, que o mantendo sob exposição em todo Estado, durante a farsa das prévias presidenciais no PMDB, que lhe assegurariam vantagens para a disputa do Senado em condições um pouco menos folgadas do que as agora oferecidas a Álvaro Dias.
Que é um absurdo um dispêndio médio superior a R$ 100 milhões por ano, ainda que previsto em orçamento, não se pode contestar. O correto seria um pacto de todos os candidatos, limitando em documento público, essa prodigalidade que apenas serve para manipular e desinformar e transformar o cidadão num conformista, nutriente da ditadura. O silêncio do governo nesse assunto, agora com a denúncia documental na TV, é terrivelmente comprometedor.


AXIOMA
‘‘Nunca cheguei a ficar calvo. Sou um homem público e tenho de ser vaidoso.’’ A frase é de Álvaro Dias, na última ‘‘Veja’’. Homem público precisa ser vaidoso? Vaidade intelectual, que não é o caso, vá lá, mas a preocupação com o físico é apropriada a artistas e no fundo o senador, já eleito, o é. Na sua primeira eleição para federal, era procurado como artista do showbiz, mas tudo isso passa. As professoras, antes de 88, por exemplo, o aclamavam



GLOSA O direito norte-americano é ridículo: sexo oral não é ato sexual, mas bolina é. A hipocrisia é uma constante nesses valores. Parece inacreditável que a nação mais poderosa do mundo se deixe enredar por tanta ridicularia. É decadência pior do que a vivida pelos romanos e seus sibaritas, que pelo menos levavam a luxúria ao esplendor e não faziam purgação de culpa.
BIZARRICE O Ronaldi Abrão, Ligeirinho, reabriu um bar de qualidade na esquina da Carlos de Carvalho com Voluntários da Pátria, em Curitiba. Das suas façanhas lendárias, uma das melhores ocorreu no bar que funcionava perto de onde está hoje o Curitiba Palace Hotel, consulado dos pés vermelhos: ali havia jacaré, tatu, paca etc. Ele quer agora fazer o mesmo e com autorização do Ibama. Uma vez os fiscais da Defesa da Fauna foram lá para uma autuação e apreensão de enorme jacaré que estava perto do banheiro. Os fiscais se bateram para apanhar o réptil e levaram ainda algumas rabanadas, enquanto bebuns se acreditavam em crise de ‘‘delirium tremens’’, como se estivessem vendo coisas...
EPIGRAMA Na passeata dos lerneristas, sábado passado, na Boca Maldita, José Carlos Mendes parecia um detetive ao examinar o papel picado que vinha do alto do Edifício Tijucas e largou o seu ‘‘eureka’’ ao perceber que se tratava de papel reaproveitado de repartições públicas. Enéas Faria, na TV Record, disse que era uma espécie de ‘‘lixo que não é lixo’’ oficial.
SPRAY O índice de audiência dos programas gratuitos da TV é baixíssimo, mas a denúncia repetida (caso dos R$ 340 milhões gastos em propaganda) acaba sendo discutida em reuniões familiares, uma das instâncias mais fortes da pregação. - Irregularidades do Banestado irão ao ar, apesar da medida cautelar solicitada pelo governo. A alegada necessidade de safar o estabelecimento de mais desgaste no momento de sua privatização, depois do saneamento, impediria o exame das irregularidades graves dessa gestão. - Isso se intensificará agora com a notícia da venda do Banco del Parana e das agências de Nova York e Ilhas Cayman, paraíso fiscal, o que recolocará o problema da identificação (e que interessa à sociedade) de quem quebrou o banco. - Aliás, o governo tenta obter o empréstimo-ponte de R$ 1,2 bilhões como adiantamento dos R$ 4,1 bi e isso também levará a oposição a mobilizar-se. O secretário Gionédis vai viajar com essa finalidade que, para os oposicionistas, é algo que deve ser olhado com extremo cuidado. - A impressão que dá é que o governo tenta operação no estilo Macunaíma: a poeira das inadimplências e das fraudes iria para baixo do tapete como anistia para os governos do presente e passados. - Se uma eleição não puder discutir o que houve com o Banestado, a pretexto de preservar o sigilo, a farsa estará armada. - Nunca houve esse culto cerrado ao sigilo: basta lembrar que foi com essa quebra que se chegou à Operação Uruguai, às contas fantasmas etc. Ademais, comemoramos ontem os 44 anos do suicídio de Vargas, cuja causa remota estava no empréstimo que o Banco do Brasil fez à Erika e que permitiria o financiamento do jornal ‘‘Última Hora’’, de Samuel Wainer.
FOLCLORE Tião Abatiá, ponta de lança do Coritiba e União Bandeirante, é candidato a deputado estadual pelo PPS. Sebastião José Ferri, este seu nome, nos tempos de glória, chegou a virar personagem de história em quadrinhos como Tião Abaterá. Com o Paquito, formava a dupla caipira. Sua maior jogada não foi um gol, mas uma assistência: recebeu uma bola em profundidade na defesa do Galo e foi driblando todos, do lateral ao zagueiro Vantuil, passando pelo goleiro da Seleção Uruguaia, Mazurkievicz e centrando para Leocádio, o gol livre, cabecear para fora. Osni Bermudes fez uma traquitana sensacional com a jogada e que ficou, durante anos, enfocada pelo Canal 4.

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