Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Bionicidade inesperada
Álvaro Dias, diante das condições que lhe foram propiciadas, é mais do que um senador biônico, mesmo que o Nedson Micheleti, ao perceber sua baixa cotação na pesquisa em Londrina, resolva atacá-lo. É a negação de tudo que Álvaro Dias representou na política desde vereador, deputado, senador, governador, sempre na trincheira de luta, jamais na acomodação.
Querer transformar essa vitória, tão facilitada, num acontecimento épico é de um ridículo assustador quando se apresenta como uma espécie de mediador das causas paranaenses, logo após conseguir, o que não é difícil, a condição de mais votado pai da pátria do Brasil. Dá a impressão que seria um senador com traço plenipotenciário quando o seu partido, o PSDB, sairá mais murcho do que maracujá de gaveta da eleição. Se o partido for mal em representatividade nas eleições proporcionais, de pouco valerá o seu recorde sem competição. Não há como posar, desde já, com essa majestade, pois o seu séquito desmentirá qualquer sinal de soberba, menor do que o PFL, PTB, PMDB.
Sua campanha no interior estaria voltada para a eleição de 2002 ao governo, enquanto Requião fala (é claro, se ganhar, o que é bastante difícil) em disputar a presidência da República. Acontece que a situação de Álvaro Dias, diante dos acordos feitos, torna a sua eleição um passeio. E deve pontear o pleito em termos nacionais, porque em outros estados há democracia e, sobretudo, competição. Aqui, apenas se Emília Belinati e Tony Garcia estivessem na parada poderia haver algum sentido: Álvaro venceria certamente, mas sem essa moleza chocante.
Quando Requião acena disputar a Presidência está dando um recado para Álvaro Dias que não irá atrapalhá-lo com o sonho da reeleição, ganho o governo. Só que a longo prazo, como sugeria Lord Keynes, estaremos todos mais ou menos mortos, pouco nos servindo esse esforço de prospecção. O único que tem eleição garantida é Álvaro Dias, daí tentar sugerir que os votos que obterá são dele e não fruto de apoio, direto ou indireto, de FHC e Lerner. Se o apanham com um boné de campanha em que aparece a sigla de Lerner, entra em pane e faz cobrança, sugerindo que aquilo se refere a um determinado espaço e circunstância e não deve ser explorado. Não tivesse porte de galã de cinema, daria a impressão que estávamos diante do coronel Paraguaçu da telenovela.
E muito mais ainda pelo discurso lembra o Conselheiro Acácio, de Eça de Queiroz, com sua latejante obviedade. Aliás, como são acacianos, de um modo geral, os políticos que em tempo de eleições se superam, chegando à sublimidade.
AXIOMA
A ameaça de Requião de revelar as Monica Lewinsky do governo produziu efeitos. Um integrante do primeiro escalão estava no seu quarto, quando alguém, em pleno horário eleitoral, lá da sala de visitas, anunciou a Mônica. Antes que fosse esclarecido que se tratava de TV a cabo, o cara desmaiou. E a Mônica era aquela do Cebolinha, Chico Bento, Magali.
GLOSA A estrela da Texaco precede à do PT. Nem por isso aquele símbolo do capitalismo (e das sete irmãs) cogitou, mesmo no furor da Guerra Fria, tirar o vermelho, coisa que os marqueteiros conseguiram, ao menos por algum tempo, na campanha eleitoral. Só faltou pôr no fundo a marcha rancho Bandeira branca, amor// não posso mais// pela saudade// que me invade// eu peço paz.
BIZARRICE AlceuChichorro, o Fumaça, do jornalismo histórico do Paraná, faz galanteio à moça que passa na Rua XV. Ela, irada, replica seu cachorro! e ele, de bate pronto, corrige: Seu Chichorro!. Um dia ele foi a um baile no Clube Literário, o mais fino de Paranaguá, e as jovens cercavam o jornalista da Capital, quando uma delas, justificando o pudor das amigas, disse que eram acanhadas. E ele replicou: Acanhadas com cê cedilha.
SPRAY Mobilização idêntica a havida para derrubar a decisão de primeiro grau da Justiça Federal, de Maringá, que havia interrompido a cobrança do pedágio no Tribunal Regional de Porto Alegre, vai ser adotada agora para contraditar a tutela antecipada concedida às concessionárias. - Desde sexta-feira, a Procuradoria-Geral do Estado vem tomando providências, assim que conheceu o despacho do juiz Zuudi Sakakihara, da 1ª Vara Federal de Curitiba. - O lado mais pesado é de ordem doutrinária, em que a tal cláusula imperial que permitira ao governo romper unilateralmente o contrato é contestada. - Mas as empreiteiras não conseguiram restabelecer os valores anteriores que pretendiam desde já. - O governo estadual acha que reverte o processo e que ainda por cima terá fartos dividendos políticos, ainda mais se a oposição explorar o tema, como vem prometendo. - Se há esse pepino na área administrativa, um outro no campo das alianças partidárias, deflagrado pelos nanicos que se queixam de quebra de compromissos, perturba: há mais exaltados ameaçando levar para a oposição atas de acertos. Um trapalhão palaciano, presunçoso, é o articulador dessas: promete e depois não cumpre, achando que leva os outros no bico. - Cada vez fica mais nítido que só o próprio governo, através dos seus patetas, é que faz crescer a oposição. Se continuar com essa genialidade, Requião emparelha. - Ainda com forte repercussão nos meios políticos a diligência adotada pelo TR de Porto Alegre (ação movida pelo ex-deputado federal Samuel Rodrigues) mandando ouvir os senadores José Sarney, ex-presidente da República, e Antonio Carlos Magalhães, presidente do Senado e ex-ministro das Comunicações, no rumoroso processo de transferência de concessões de TV. Se as nulidades suscitadas forem aceitas, e elas foram suscitadas na campanha de 90, atingem dois postulantes a mandato federal: José Carlos Martinez e Joaquim Santos Filho. - Vox Populi deu ontem 49% a 37% para Lerner e 57% a 28% como expectativa de vitória. - Surpreende o baixo índice de audiência da campanha na TV. - Em Ponta Grossa, meio da semana, Álvaro Dias reuniu lideranças de vários partidos e se colocou como candidato a governador em 2002.
FOLCLORE O Coritiba demitiu o Júlio César Leal depois de uma vitória contra o Atlético. O Atlético demitiu Abel, que conquistou um título para o clube que estava na fila de espera desde 1990. Como atleticano é um emocional, um deles pessimista, mesmo antes do jogo de ontem com a Portuguesa, já imaginava a inauguração da Arena no antigo Joaquim Américo, num show no sábado à noite com Michael Jackson e Madona, e no domingo o clássico Atlético e Gama, para ver quem foge da terceira divisão.
AFORÍSTICO Um torturado dos anos de chumbo, que passou por todas as provas de violência, não suportou dois minutos do horário gratuito. Não é pra menos.





