Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Ferreirinha de saias?
O senador Roberto Requião sugeriu, em contato com jornalistas, que vai listar as Monica Lewinsky do Palácio Iguaçu, certo de que isso jamais haveria de ocorrer em seu governo. Evidentemente é mais uma troça, porém com uma carga de terror psicológico suficiente para descompensar um governo fraco, que a qualquer sinal de provocação já entra em distonia neurovegetativa.
Esse tema importado para a nossa campanha eleitoral, dado o moralismo vitoriano de nossa gente, até que pegaria. Fizeram isso com Lula para assegurar a vitória de Collor. E depois pintou o filho deste, reconhecido em função de umexame de DNA. Tenta-se fazer o mesmo com FHC, que tem filho com uma jornalista que atua no exterior, o que já apareceu na Internet.
Ninguém levou a sério o papo do candidato oposicionista, capaz de fazer coisas como aquela representação, rechaçada pela Justiça, contra Rafael Greca, numa ação absolutamente despropositada e que se tornava, pelo seu teor, de difícil tradução para o noticiário comum com aquele mínimo de reserva moral. Mas é mais uma Espada de Dâmocles sobre a cabeça dos governantes, e a certeza que esse pessoal tem da impunidade os leva a achar isso pior do que denúncias concretas sobre o Banestado, como se o ocorrido na Leasing e na Corretora fossem a coisa mais normal do mundo.
Quando o sistema absorve todas as irregularidades como normais, é difícil esperar que haja arrependimento eficaz. A dinâmica de grupo funciona assim: o apontado como corrupto é olhado apenas, na solidariedade clânica, como o alvo de uma inveja shakespeareana. Se você diz que a filha de fulano está botando a mão em dinheiro de promoções é olhado com enfado e pena pela turma: afinal ela tem o direito de exercitar os seus talentos e crescer. E como crescem!
Se com a grana não se abalam, ligariam para uma acusação vaga de adultério, de sexualidade compulsiva? Só falta ao acusador dizer, afinal a imaginação está solta, que uma das vítimas só não guardou marcas na saia porque não a usava, tal qual aquela que desnorteou o presidente Itamar Franco no sambódromo, sem as respectivas calcinhas.
EPIGRAMA
Airton Précoma fez, em passado não distante, a campanha do voto nulo e agora lançou a do voto-tchan com a Carla Perez rebolando. Pré-coma eleitoral abundante. Como se vê, propaganda eleitoral gratuita é cultura
AXIOMA Rubinho Ferreira diz ter feito ontem a inscrição de Lerner num curso de formação política no Instituto Tancredo Neves, órgão doutrinal do PFL. E explica: Se o governador é um técnico que pede votos há 30 anos, como declarou ao jornalista Márcio Moreira Alves, é preciso ir à escola. Técnico que já exerceu dois mandatos eletivos e se habilita ao terceiro, e que assim continua é porque a alfabetização pra ele vale como pós-graduação.
GLOSA A agência Get Propaganda comemorou seu primeiro ano botando um menino também de 1 ano com o pintinho erecto no outdoor. Foi o suficiente para a polêmica: por que a ereção (seria um subliminar do Viagra)? A troco de quê usar criança para manipulação? Por que o pingolim durinho? Curitiba, nessas horas, se supera: a bronca, por exemplo, contra a estátua do homem nu da Praça 19 de Dezembro, porque seria um assexuado, o pênis enrustido pelo escultor na massa de granito. Houve a façanha também do pintor Jair Vicente Mendes, que fez uma tela de Jesus com a genitália exposta no Centro de Criatividade, o que também rendeu abundantes redundâncias retóricas.
Já que estamos reinaugurando o Passeio Público, uma das violências cometidas foi a retirada do lugar em que funcionavam o Bar do Pasquale e uma boate, das gravuras coloridas do Marcel Leite, numa delas um menino com cara de anjo a mijar de cima de um rodela de laranja, numa represa de laranjada Wimi.
BIZARRICE A imagem de uma nação-padaria, que gerou a regra de que primeiro deve crescer o bolo para depois dividi-lo, já esgotou seu poder mistificador. A sociedade toda tomou consciência de que o crescimento econômico tem de se submeter aos interesses da população através de mecanismos de participação política, abertos e eficientes. Eduardo José Daros, presidente da Associação Brasileira de Pedestres, engenheiro e economista, que propõe a revolução cultural para integrar o País e submeter o desenvolvimento à sociedade. O mito aludido era um dos mais badalados pelo Delfim Neto, hoje posando de crítico.
SPRAY A decisão do juiz federal de conceder a tutela antecipada às empreiteiras do Anel de Integração, liberando-as de atividades que não se limitem à conservação da rodovia, obriga o governo a ser claro na defesa do seu ponto de vista de baixar as tarifas. - Se a administração pública acatar o que foi decidido, não vai sair obra alguma, além da toalete pela qual receberão uma fortuna, tudo ficando sob suspeição, com o risco da retomada da cobrança dos 100% depois da eleição. - O governo tem que recorrer, e duramente, para mostrar que é determinado e que vai defender a economia, como disse ontem em entrevista o secretário de Planejamento, Miguel Salomão, à CBN. - Livraria Curitiba, dia 25, 17h30, lançamento do romance de Alencar Furtado, ex-deputado federal, A posseira e o doutor. Como o cenário é o do Noroeste, onde hoje há modificação radical do quadro com as ocupações pelo MST, o livro pode ter aí uma das motivações para ser difundido. - Por falar nisso, as lutas da terra têm apoio na literatura com os livros Terra Roxa, do Elias Farah, o de Roberto Gomes, sobre a rebelião de posseiros do Sudoeste, o de Noel Nascimento (Casa Verde), sobre o Contestado. - Quem está com um projeto ambicioso é o jornalista Luiz Manfredini, sobre a experiência socialista, no estilo Fourieux, do médico francês Jean Maurice Faivre, no Vale do Ivaí, na Colônia Teresa Cristina. Nossa coleguinha Isabela França andou até no Museu do Homem, em Paris, à cata de documentos para auxiliar o trabalho do Manfra.
FOLCLORE Bastou a insinuação de Requião de que há uma lista de Monica Lewinsky no Palácio Iguaçu e foi desencadeada a boataria de que uma delas já teria dado depoimento para o programa eleitoral. É uma forma agradável de perder eleição: aí o que vale é deixar o adversário em pânico permanente. Um detalhe: a história do Paraná tem vários episódios em que a fama de mulherengo só ajudou os acusados, mesmo quando fruto de fantasia. Ney Braga foi um deles.
CROMO Na espaçonave uma figa da Guiné, um galho de arruda, um pé-de-coelho.
AFORÍSTICO Acima dos poderes, Aníbal Khury adeja como anjo barroco desigual.





