Luiz Geraldo Mazza
Está aí uma evidência de quanto pesa no destino das pessoas o chamado ato gratuito: o governador Jaime Lerner como personagem de uma aventura sem qualquer heroísmo, mas carregada de atipicidade, com esse acidente que o levou ao hospital e à cirurgia em Londres porque um táxi o apanhou na calçada.
Para quem é, por seus feitos nacionais e internacionais, uma pessoa alada em função da mitologia sobre seus méritos como urbanista e arquiteto, o fato de ter que andar com o auxílio de muletas, após a intervenção a que se submeteu, é uma baixada de bola excepcional e que testa, de saída, a habilitação do nosso governador à adversidade, ainda mais quando configurada numa situação estatisticamente absurda como a que enfrentou.
O fato é que o acidente, jamais imaginado, não afetará a parte essencial do calendário do governador na França, especialmente. Fará a sua palestra para atrair mais investimentos europeus ao Paraná com uma relativa aura de mártir, que lembra aquele craque do Botafogo, Santamaria, com a bandagem na cabeça que sangrava, dando moral aos seus companheiros para a resistência no futebol.
Em muletas ou cadeira de rodas a tarefa prosseguirá, porque ela, pela vez primeira na história do Paraná, configura possibilidade real e não a fantasia de viajores, que recentemente tivemos e cuja façanha não passou da mordomia e dos acenos apenas para se mostrarem cosmopolitas, o que obviamente não são.
Alguns mistificadores chegaram a sugerir que fossem uma espécie de Marco Polo redivivo, mas de prático nada trouxeram e nem dois terços dos seus tours se justificavam. A diferença entre Lerner, por mais exageros que haja em torno dos seus méritos, e aqueles que a ele se opõe como estilo, é a sua modernidade hostil ao arcaísmo dos improvisadores e aventureiros, sem interação com grupos empresariais de vanguarda e, portanto, beliscadores do acaso e da conveniência.
E como a nossa sociedade adora governos e quem está no poder, não será preciso nem um passe de mágica e de prestidigitação ou de marketing para que em pouco tempo a sua cadeira de rodas se transforme num andor. Se com Aníbal Khury, quando se submeteu a uma cirurgia de risco, isso aconteceu, dá para imaginar o que se dará agora: a cadeira de rodas se transformará no carro de fogo do profeta Elias e as muletas em asa delta com a qual, sobranceiro, olhará o mundo como os arquitetos fazem, de cima para baixo, numa prancha ou na tela da computação gráfica, tudo reduzido a maquete para suas intervenções criativas numa emulação com o outro Criador, por vezes tão esquecido e fora da mídia.
BIZARRICE - Um dos motivos que levou Vargas ao suicídio, afora a conspirata da UDN e da República do Galeão (o IPM da aeronáutica que apurava a morte do major Rubens Vaz pelos guardas pessoais do presidente) foi a investida nacionalista com a Petrobrás e a Eletrobrás (essa foi anunciada em Curitiba no salão nobre da Faculdade de Direito em 1953, em reunião da CIBPU, Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai).
Pois nesse momento, vejam como o mundo dá voltas, a Petrobrás é apontada como o fator indireto da morte de Paulo Francis, o que retira da empresa qualquer dimensão heróica. É que ela estava processando o jornalista por leviandades ditas no Manhattan Connection e isso o perturbava seriamente.
A Petrobrás anda numa fase de azar: tentou aumentar os combustíveis (o que teria o mesmo efeito do aumento dos petroleiros no Plano Real quando da greve), escondeu as importações na balança e foi multada pela Justiça em mais de R$ 4 bilhões. Nem a camisa do Flamengo salva. Por sinal, o Mengo perdeu o Rio-São Paulo, quando tinha tudo pra ganhar.
MUNDO CÃO - Um médico do Hospital Saint Claire, de Curitiba, entregou segunda-feira aos pais uma criança morta numa sacola de supermercado. Eis um caso concreto de vilipêndio a cadáver, saída que encontraram na novela para evitar a condenação do Marcos Mezenga, o filho do rei do gado. No gesto uma simbologia do que é o sistema de saúde. Os pais, ainda que humildes, foram à polícia relatar o fato. Agiram como a consciência cívica da sociedade.
Convenhamos, porém, que o vilipêndio a cadáver também é cometido por jornalistas quando fotografam casos de cabeças esgorjadas, de jovens violadas sexualmente como o de uma delas que apareceu com um galho de árvore no sexo na primeira página. Os pobres precisam reagir, deixar de ser anônimos, para o bem de toda a comunidade.
LÓGICA - Se nos anos seguintes repetir-se a invasão das praias, como se deu neste, dá para concluir que muitos vão abandonar o hábito por não suportar o exagero da massificação. Em Guaratuba os decibéis de carros de som ou mesmo de simples toca-fitas de carros em alta escala, pelo abuso da frequência, mostram que a autoridade, o prefeito, não quer regular um assunto que já está previsto em lei: o do direito ao sossego.
FOLCLORE - Curitibano é um empatador. Consta que a cada apresentação de mágico na cidade, a platéia se divertia em levar ovos ou agulhas nos bolsos para neutralizar as artes da prestidigitação. Se aqui houvesse touradas, a maioria seria a favor do miúra. Por que não temos carnaval? A diversão de quem empata a alegria alheia é uma festa ao avesso, debochada e disforme. Um folião diante de um curitibano sofre mais do que os povos clássicos diante da Esfinge: vira uma estátua, tal qual se dá com a multidão na Rua Marechal Deodoro.
CROMO - Agora só falta aos áulicos do Palácio Iguaçu transformarem a cadeira de rodas do governador em andor. Vai acabar lembrando o Inri Cristo.
AFORÍSTICO - A maioria das pessoas merece um prêmio por tudo que não fizeram. As boas obras estão liquidando com o planeta terra. Do Eusébio Maestri, em seu último livro, Fazendo Nada.





