Luiz Geraldo Mazza
As pesquisas animam
Até agora, mesmo com o início dos programas eleitorais, só as pesquisas é que deram o tom de animação à campanha. As do Ibope e do Datafolha, que utilizam metodologias diferenciadas, indicaram, pela diferença de uma semana, ainda não abrangendo o horário gratuito, a polarização inevitável e que se afunilará lá pelas proximidades de outubro. Na primeira, Lerner tem nove pontos de vantagem e na segunda, 11.
Qual a diferença de métodos? Simples: o Datafolha faz a sondagem nos chamados pontos de fluxo, isto é, em ambientes abertos ou fechados, mas de circulação de público intensa. Isso facilita o enrobustecimento dos números. Já o Ibope usa os dois critérios: o de ponto de fluxo e o domiciliar, para muitos considerado o melhor sob o ponto de vista da tranquilidade de quem dá o depoimento.
Tanto o Datafolha quanto o Ibope dão como certa a vitória no primeiro turno. Mas a hipótese de reversão por parte do candidato peemedebista não está, de forma alguma, afastada, desde que se criem no itinerário fatos políticos novos e que possam desgastar Lerner, além daqueles referentes ao pedágio, no qual a demanda judicial pode tanto ajudá-lo como prejudicá-lo, e ao Banestado, bem como à crise financeira e os estímulos às montadoras. Nesse aspecto, no encontro da Associação Comercial do Paraná, Requião marcou ponto quando disse que dará aos empresários paranaenses os mesmos benefícios concedidos ao capital estrangeiro. Na verdade, a lei que estabelece os incentivos fiscais é do seu governo e criou esses mecanismos. O fato, porém, é que obteve aplausos porque com Lerner, como já disse, nos multinacionalizamos e nos desparanizamos.
Tudo se encaminha para uma diferença inferior a quatro pontos, já que os demais candidatos, nem juntos, dariam a soma obtida por Samek na eleição anterior, e que chegou a cinco pontos. Lerner fez 43%, Álvaro, 30%; o PT, 5% e os demais candidatos 2%, o que dá uma soma de 43% a 37%, portanto distância de meia dúzia de pontos, quando dava a impressão de uma ‘‘lavada’’.
Na atual, o estreitamento será máximo, ainda mais se considerarmos que a maior batalha eleitoral da história recente do Paraná é o pleito de 85 para a Prefeitura da Capital. Só que ali era a luta do governo de Richa contra o mito Lerner e que foi decidida no olho mecânico, menos de 15 mil votos, com os derrotados acusando o situacionismo de haver fraudado a eleição com uma força-tarefa de cerca de 50 mil eleitores do interior, que fizeram boca-de-urna, e que muitos deles teriam votado irregularmente.
Pelos programas eleitorais, que ainda não ‘‘aqueceram’’, dá para concluir que até aqui só as pesquisas empolgaram. Como os dois lados continuam festejando, dá a impressão de que um ou os dois se equivocam, pois em jogo de pôquer parece inviável que todos blefem ao mesmo tempo.


AXIOMA
Embora não tivesse pedido desculpas nem à mulher e muito menos à sociedade norte-americana, Clinton deu suas explicações sobre o caso com a Monica e subiu muito nas pesquisas de opinião. Subir é com ele mesmo



GLOSA Burrada imperdoável dos ‘‘gênios’’ marqueteiros de Lerner: bateu em Requião desnecessariamente no primeiro programa com o que criou fundamento para que o outro reagisse em tom ainda mais forte. Dava a impressão que os dois tinham mudado de personalidade: Requião parecia um pastor evangélico e Lerner próximo de um patriarca sizudo do Velho Testamento. Que mancada!
BIZARRICE Segundo Eduardo Schneider, o logotipo da campanha de Requião parece propaganda do Viagra: duas setas, uma azul e outra vermelha, eréteis.
EPIGRAMA Lula pediu ao seu eleitorado para que se vista de roupa branca, algo meio vinculado a umbanda. Quando Collor, que o derrotou, pediu ao povo para sair às ruas de verde e amarelo, todo mundo se vestiu de preto para ajudar a derrubá-lo de uma vez. Seria o branco da paz ou ato relativo à rendição?
SPRAY Robustos demais, os números do Datafolha sobre o Paraná: somando Lerner e Requião, mais os dois pontos de Jamil e Jesus, temos 89%. Segundo um entendido, um moderador de apetite iria bem. - O Datafolha deu um escore menor na Região Metropolitana de Curitiba do que o do Ibope: 57 a 32. - Há lugares em que Requião lidera, como no Norte Pioneiro, Oeste e parte do Sudoeste. - Na rejeição, Requião aparece com 25% e Lerner com 21%. Como o oposicionista cresce na adversidade, ainda mais quando há o conflito (o que, aliás, será inevitável), é possível ainda a reversão, apesar dos 49 atribuídos a Lerner. - O atrelamento a FHC beneficia Lerner, ainda que a maioria dos requianistas, como apurou o Ibope, não aceite Lula. - No Rio Grande do Sul, o fator de deslanche de Antonio Britto é a vinculação com o presidente Fernando Henrique, mas lá inexiste o risco de petistas deixarem de votar em Lula, que leva a melhor por 39% a 35%. - A ata do Banestado em que o presidente Neco Garcia chama um dos diretores de ladrão e de filho de ladrão vai aparecer no horário gratuito. Isso foi enunciado pelo próprio Requião ao Marcito (Márcio Moreira Alves, o desencadeador do Ato-5 com seu discurso irreverente, quando deputado federal, sobre os militares), na Agência Globo. Nesta semana um panfleto deve circular com essa linha de acusação. - Lerner diz que cometeu um erro relativamente ao Banestado: o de ter impedido, ainda na gestão Requião, a intervenção do Banco Central. Se ela tivesse ocorrido, o tema não seria ‘‘politizado’’. Ocorre que o Luís Antonio Fayet, primeiro presidente do banco na gestão Lerner, afirmou com todas as letras que o banco estava redondinho. Bem igual ao Badep, que também estava redondo no tempo do Fayet e para quem o governador Álvaro Dias pediu a liquidação extrajudicial, cujo ‘‘mico’’ está na origem da crise do Banestado.
FOLCLORE A eleição de Álvaro Dias é um dos exemplos de oportunismo dos mais marcantes da vida brasileira: beneficiário do ‘‘acordo branco’’ que lhe garante via exclusiva para o Senado, ainda faz uma sutil ameaça à oposição no sentido de que se ela o criticar assume o outro lado. É uma forma de replicar a perfídia sofrida diante de Requião, que o abandonou com o receio de contaminar-se com sua rejeição. Uma eleição dessas é menos democrática do que a escolha dos biônicos do regime militar, onde pelo menos havia disputa.
CROMO Se no tempo de Mallarmé houvesse o computador, ele teria feito o elogio da página em branco?
AFORÍSTICO Bastou começar o horário gratuito e aumentou a audiência das TVs a cabo. Quem não as tinha agora está contratando.

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