Luiz Geraldo Mazza
Relações impróprias
Um exemplo de relação imprópria é do governo na cobertura oferecida ao Osvaldo Santos, autor das façanhas da Leasing do Banestado. Não se poderia caracterizá-las como ‘‘relações perigosas’’, como as referidas no romance de Choderlo de Laclos, pois no caso são amplamente acobertadas, dando-se a entender que o ex-dirigente da Leasing deve ter bilhetes, cartas do governador assegurando-lhe liberdade de movimentos e, quem sabe, a paga por tudo isso tenha sido a sua promoção para secretário de Esporte, a área de oba-oba máximo e negócios mil.
‘‘Relação imprópria’’ foi a explicação dada anteontem pelo presidente Clinton ante o grande júri, para o que teria havido entre ele e Monica Lewinsky. O ato libidinoso - o louco abre a capa e mostra o sexo para adolescentes, o encoxador de ônibus, o masturbador - não é um ato sexual? Como não é a ação do ‘‘voyeur’’, o frestador compulsivo que aluga quartos vizinhos de suítes de lua-de-mel? Já se doutrinou também, até para provar que o presidente não mentiu, que sexo oral não é um ato sexual completo.
Abstraído o ridículo da situação, que expõe à caricatura a nação mais poderosa do mundo e ainda marcada pelo vitorianismo, percebe-se que um valor primitivo da cultura polinésia permeia o fundo das ações humanas. Quando fazemos confissão diante do padre (e isso vale para a extrema unção) ou do psicanalista nos agarramos nas palavras como salva-vidas no oceano das nossas contradições para mimetizar, dissimular, os fatos.
Ninguém jamais confessou a própria pusilanimidade - ensina Fernando Pessoa, o poeta máximo. Nada, pois, como um eufemismo para abrandar a nossa culpa. Encoxada, amasso, bolina e sexo oral agora irão para os novos dicionários como ‘‘relação imprópria’’. Mas as leis e os costumes continuarão a alcançá-los, mesmo com o ‘‘liberou geral’’ dominante, que em alguns casos nos iguala aos cães de rua impelidos pelo cio.
Os polinésios desenvolveram os conceitos de ‘‘tabu’’, o que é interdito, e de ‘‘nôa’’, que é o meio de neutralizar a magia do valor interditado. Também herdamos esse capítulo da antropologia cultural clássica, quando evitávamos dar o nome de uma doença (câncer, tuberculose) para impedir que produzisse efeitos mágicos no ambiente, usando a expressão ‘‘moléstia incurável’’, ‘‘insidiosa’’.
Ou ao invés de citarmos o demônio, Satanás, dizíamos ‘‘coisa ruim’’ ou capeta ou ainda cramulhão, como fazem os sertanejos.
Nossos políticos fazem filhos fora do casamento e às vezes ousam renegá-los. E em hipótese alguma se imaginaria, no campo institucional, que fossem levados ao constrangimento ora imposto a Clinton. Nesse caso, ponto para o Brasil.


AFORÍSTICO
Durante a campanha eleitoral deveria ser vedado ao Legislativo baixar anistias como esta em cima das multas do trânsito. O impedimento deveria alcançar o governador que se promovesse ao sancioná-la.



AXIOMA O diplomata aposentado Guido Borgomanero, italiano, deu um piche na comida de Santa Felicidade, dizendo que se trata de culinária crioula. Ele até pode ter razão, mas entre a pizza daquele país e a de São Paulo, esta ganha.
De outro lado, sua perspectiva é muito urbana e cosmopolita porque pracinhas brasileiros encontraram nos vilarejos das montanhas um regabofe bem parecido com o que é servido em Santa Felicidade, pólo gastronômico dos maiores do Brasil e muito procurado agora nos jantares e almoços eleitorais.
GLOSA Ratinho (que bateu a Globo outra vez) encheu a bola do coronel Justino, do CPC. No caso com todos os méritos.
BIZARRICE Estréia do horário gratuito foi decepcionante, um tédio, anúncio subliminar para Engov. E o Requião apareceu pedindo votos para o Maurício e não era o seu irmão e, sim, o Fruet, que está convalescendo. Ato de doação quase parecido com o do Neivo Beraldin, que diz ser 100% todos nós, menos ele.
SPRAY Com a reação dos consórcios na Justiça, contra a redução da tarifa do pedágio em 50%, vai ser importante o estilo pesado e rústico do Heinz Herwig. Chamado de ‘‘panzer’’ como fazedor de obra, o é também no outro sentido. Pau na mula, não dê folga para a cupidez dos corsários. - A bronca de Mário Celso Petraglia contra Lerner é também estimulada pelos que desejam vê-los brigados. Ocorre que Petraglia não mais entra em campanha eleitoral. - Uma evidência de que a Inepar só tem ônus por essa vinculação do passado está em várias coisas, uma delas a de que ela absorverá a Copel no futuro e outra na fantasiosa história de que a empresa de energia estaria financiando o estádio do Atlético Paranaense, o que numa área passional, como a do futebol, é adrenalina pura, ainda mais quando se sabe que Lerner é coxa branca. - O delegado Luis Fernando Artigas ficou em segundo lugar numa competição de tiro na Academia de Polícia de Nova York, entre 108 participantes. Ele e mais os representantes da Malásia e um africano, três melhores colocados, foram convidados para a competição de 1999. Chega de viagem hoje. - Governo está querendo substituir florestas de pinus por vegetação nativa em áreas de preservação permanente. Em Vila Velha isso já está sendo feito. E quando chegará a vez da Serra do Mar, onde um ex-presidente do IBDF, Newton Carneiro, derrubou a mata secundária e colocou pinus, o que foi combatido exemplarmente pelo geólogo Bigarela? - Aliás, a Brascan, grupo internacional, tem a propriedade de imensos espaços na Mata Atlântica. Como o Brasil mostrando as coxas na passarela mundial, isso já não sensibiliza ninguém. - Nunca se viu um grupo tão fechado dominar negócios na área pública estadual como agora. O mais grave é que mesmo os que discordam disso acham que não há alternativa eleitoral.
FOLCLORE Em tempo de eleições, as magias aparecem: agora marca da CNT junta o jingle da campanha, derrotada, de José Carlos Martinez ao governo em 1990. A musiquinha ‘‘Oh, Martinez, tô te chamando!’’ aparece com a logomarca do grupo para ajudar o candidato a deputado federal que falhou na tentativa anterior. Haja sutileza: só falta usar a música para o TRE chamá-lo às falas. ‘‘Oh, Martinez, tô te chamando!’’. E tem também aquele caso que o atinge juntamente com Joaquim dos Santos Filho em transferência de concessão de TV (a Carimã), empacada no Tribunal Regional de Porto Alegre e que vai ouvir Sarney e ACM.
CROMO A dor pode gerar o prazer: a enxaqueca que martirizava o poeta maior João Cabral de Melo Neto deu origem ao poema ‘‘Ode à aspirina’’, que exalta como um sol e ‘‘lápide suscinta’’.

mockup