Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O PT e o udenismo
Uma das piores características dos partidos que jogam no primado moralista é a de lembrarem a extinta União Democrática Nacional, a UDN. Alguns políticos do PMDB não resistiram ao marketing e, dentre os que mais exploraram o filão, destacaram-se os autoritários Álvaro Dias e Roberto Requião, já que José Richa foi o mais democrático e aberto de todos da oposição pós-militar.
Nada mais farisaico do que esse parâmetro, como vimos na experiência dolorosa do governo Leon Perez, um dos arautos dessa pregação moralisteira, e que acabou apeado do Palácio Iguaçu sob acusação de tentativa de extorsão contra um empreiteiro.
A pior das ironias, porém, está no fato de que a própria esquerda brasileira, ou pelo menos parte dela, abriu mão da indignação contra a injustiça estrutural (desequilíbrios regionais e sociais, ausência de isonomia nas oportunidades) para ocupar-se, como prioridade, do varejo comportamental no qual ela própria foi flagrada, como se deu em casos como o da cessão de casa para Lula morar por parte de um beneficiário de negócios de prefeituras petistas e agora com esse corolário do cheque de 10 paus.
Assim, esse cacoete udenista passou a permear o campo da doutrina política, tanto dentre liberais como de supostos socialistas e até de comunistas, como se houvesse escassez de idéias e epistemes, além de um moralismo formal, apenas de discurso, insuficiente para mudar a realidade, como de resto se dá com o refrão contra a pobreza, normalmente acionado pelos ricos e bem situados.
Agora, dando a impressão de que joga a toalha no ringue porque se sente previamente derrotado, Lula ressuscita outra pregação udenista: a de que os meios de comunicação o tratam de forma bem madrasta e que FHC teria 100 vezes mais espaços do que ele, o que tornaria o pleito ilegítimo. Nunca houve em toda história brasileira (é claro que não se pode dizer isso da eleição de Collor, onde houve grossa manipulação da Rede Globo em favor do seu filiado, capitão donatário das Alagoas) tantos espaços para uma candidatura de oposição, ainda mais disposta a assumir um ideário, meio confuso, mas tido como de esquerda, pelo fato de gravitar em torno da coligação a constelação de micro-partidos como o PCdoB e radicais como o MST e parte da CUT.
Ainda agora na questão do cheque de R$ 10 mil, a Rede Bandeirantes, que tratou do caso, ofereceu o espaço que Lula desejasse para contestá-la. O candidato percebeu que, como nos episódios anteriores, a explicação acabaria sendo pior do que a notícia original e disse que prefere levar a questão à Justiça, onde está igualmente aquela acusação genérica de que a grana da privatização das teles iria para o caixa dois da campanha de FHC.
A UDN, ao perder eleições, partia para rabulices, porque contava com um time de juristas de primeira que acionavam teses como a da maioria absoluta que não constavam da regra do jogo. Era mais do que ilegitimidade para configurar a ilegalidade, conquanto centrada num direito não escrito. Quem diria: Greta Garbo acabou no Irajá. E o PT se servindo da mãe-nutriz UDN.
AXIOMA
Consta que um dos feitos da Copel é o investimento no filme Oriundi. Garanto que apareceu um falso Mecenas, como se estivesse dando o seu dinheiro e não da empresa, posando de defensor das artes e artimanhas
GLOSA Se a Inepar fosse depender de Lerner, segundo testemunho dos principais dirigentes, ela estaria pior do que o Banestado. É uma das poucas empresas paranaenses, que se habilitaram à globalização e à competição, cujo faturamento no Paraná é mínimo e quando aparece algum negócio de que pudesse participar, há quase unanimidade no governo trabalhando em sentido contrário, sob a alegação de comprometimento. A normalidade para eles é o caso do Osvaldo Santos, que, aliás, para estar com essa bola toda deve ter documentos que implicam Lerner nas concessões absurdas feitas na Leasing Banestado.
BIZARRICE Hoje começa o calvário do programa eleitoral com a campanha presidencial e dos deputados federais. Amanhã, o primeiro a aparecer aqui no Paraná é Jesus, do PSTU. Pesquisa Globo mostra que 42% não vão assistir os programas e dos 22%, que se dispõem a vê-los, são os mais pobres e menos instruídos atrás de uma esperança, como as meninas que viam no motoboy uma chance.
SPRAY Comitês guardavam como segredo de guerra os programas gratuitos com a mesma efusão que um padre guarda a confissão auricular. - O canal extravasor até agora não provou utilidade nas cargas registradas. O maior erro foi não ter havido consulta a quem realmente dominava a bacia hidrográfica do Iguaçu, no caso os profissionais do antigo DNOS, como o engenheiro Expedito Dacheux Pereira que fez, no devido tempo, advertências sobre a orientação adotada. - Fica demonstrado que a melhor forma de nominar ruas é deixar que o povo, de forma espontânea, o faça. No Jardim Alto Bela Vista, o povão nomeou uma rua de Cazuza. Um nome desses lembra a toponimia dos rios como o Barigui, que tinha pontos como Panela, Volta Funda, Carniça, Princesa, Toco e Barigui do Soldado. - Oposição está convencida que há distorções no Ibope relativas aos registros de Curitiba e que aqui Lerner poderia, quando muito, estar à frente em 20 pontos e não em mais de 30. Também não prova nada e nem sequer argumenta. - O que ficou demonstrado é que a aproximação com Lula pode ser fatal às pretensões de Requião diante do fato de que a batalha com FHC está em 50 a 19, distância ciclópica. Na sondagem se demonstra que a maioria dos votos requianistas vai para FHC, o que dificultaria o discurso hostil.
FOLCLORE O cartorário José Nociti chega no Senadinho, ao norte da Boca Maldita, imediações do Café Alvorada, em Curitiba, e convida o pessoal que estava na roda à frente da casa de degustação para o café que está oferecendo. Como ninguém o atendia, puxa uma corneta, toca-a em notas altíssimas e acentua Café, pessoal!. O toque de recolher trouxe centenas de curiosos à rua e o pessoal resolveu atender ao apelo para que não houvesse um novo chamamento.
CROMO De saída, os programas eleitorais mudam a vida das pessoas: obrigam-nas a dormir mais tarde com o atraso em uma hora da novela. Se isso fosse compensado por mudanças no mundo real e não apenas no virtual, até valeria a pena.
AFORÍSTICO Libidinagem não é ato sexual completo para os norte-americanos e isso, se não absolve Clinton, não chega sequer a afetar o decoro.





