Luiz Geraldo Mazza
Politização da violência
Se o governo insistir em mostrar-se tolerante com a violência, apesar de alguns avanços obtidos com o policiamento ostensivo, não haverá como impedir que o tema, altamente ‘‘politizável’’, tome conta da campanha eleitoral. No passado o que preocupava os cidadãos era a possibilidade de a polícia se tornar um elemento de coação contra a vontade do eleitor. Muito comum nos vazios deste país continental, essa prática era constante e ninguém se esquece da dramatização que Ulysses Guimarães fazia do ataque sofrido de mastins a serviço da polícia militar nos chamados tempos de chumbo.
Agora o que se deseja é que haja o mínimo daquilo que anteriormente sobrava: a presença da autoridade justamente para inibir a ação livre e desembaraçada dos delinquentes e agora também, com evidências notórias, do crime organizado. E a oposição, que antes temia a polícia, vai dizer agora que por ela não existir é que todas as famílias correm risco. Polícia, normalmente, é tema para meter o pau e não para aplaudir e convocar. Pois chegamos ao absurdo, diante do estado de anomia, visível nas relações incestuosas entre o crime e a autoridade formal com os exemplos das especializadas (Antitóxicos, Furtos de Veículos) mais o caso paradigmático da delegacia de Almirante Tamandaré.
Qualquer pesquisa sobre as preocupações dominantes da população - e há varias delas - mostra que a ansiedade em relação à segurança supera a preocupação com o desemprego. Não é um caso genuinamente paranaense (as áreas metropolitanas de Curitiba e Londrina seriam as de maior frequência), pois se repete em quase todas as megalópoles, São Paulo e Rio à frente. É notória a frouxidão política do governo nessa área, delegando prerrogativa, exclusiva e intransferível, ao legislativo, especialmente a Aníbal Khury, de quem se costuma dizer em quem o poder se acumula por gravidade. É a tese do ex-deputado Jorge Khury, seu mano, que explica um aspecto parcial do problema, não abarcando a sua inteireza. Há também em contrapartida o abuso daqueles que fazem as coisas usando o nome e dizendo até que aquilo é um interesse de Aníbal Khury.
O fato é que a segurança, apesar das melhoras havidas ultimamente tanto no setor civil quanto no militar, com as reformulações havidas, está num nível abagunçado pelo distanciamento do próprio governador, ainda mais agora quando acumula a condição de candidato. Estão dando um prato de primeira para a culinária eleitoral de Requião, uma pessoa que gosta de mostrar autoridade e que resvala para o autoritarismo, assim que assume alguma posição como se deu na CPI dos Precatórios, onde fez um bom trabalho, mas extrapolou como se fosse uma reencarnação do Inspetor Javert de Victor Hugo, aquele que esgotou sua ânsia de perseguição, correndo pelos esgotos de Paris atrás de Jean Valjean que havia roubado um pão para saciar a fome da família. Ele pode dizer, com sua compulsão pela blague, que seus perseguidos roubaram mais do que uma padaria, o que porém até agora não rendeu os dividendos esperados na clareza das acusações e na condenação dos culpados.


AXIOMA
A paranóia é tão grande que quando falaram em ‘‘La Ni¤a’’ como a causa dos transtornos atmosféricos, a mocinha, assustada, avisou: ‘‘Acho que ela foi vítima do motoboy também.’’


GLOSAOntem, quando o céu escurecia e havia ameaça de uma mega-tempestade, ouviu-se uma voz parecida com a de Requião: ‘‘antes de mim, o dilúvio’’.
BIZARRICEMarcelinho chamou o estádio Couto Pereira, efetivamente sem condição de jogo por causa da enxurrada, de ‘‘chiqueiro’’. Como ele já foi chamado de ‘‘o maníaco do parque’’ pela imprensa popular e não chiou. Os drenos do campo foram insuficentes para evitar as poças e piscinas: insuficientes também para enxugar tanta vaidade e pretensão.
Aliás, falando de campo encharcado, lembro uma do meu primo, Raul Mazza, um craque do improviso quando o narrador lhe perguntou a partir daquilo quem ganharia o jogo ao que respondeu: aquele que estiver a favor da correnteza.
SPRAYA hora de cobrar fidelidades é agora. Tanto que o Gerson Guelmann chamou os titulares de cargos em comissão (que aumentaram em número e em valor neste governo) para o engajamento.- O que está difícil é acomodar o oportunismo dos candidatos às proporcionais, tanto no governo quanto na oposição: dobradinhas as mais absurdas são feitas, graças à inexistência de lei de fidelidade partidária. A ‘‘operação camarão’’, que consiste em tirar o cabeça de chapa, é comuníssima.- Em seu favor esses candidatos tem um argumento irrespondível: o tempo na TV e rádio, mais a disponibilidade em grana, é mais para as eleições majoritárias e isso os conduz a esses desvios à falta de opções.- Fraude nos alimentos é muito mais grave do que indicam casos como esse de Colombo. Em São Paulo o Instituto Adolpho Lutz demonstrou, em laboratório, que boa parte do azeite de oliva comercializado leva nada menos de 80% de soja. Não faz mal à saúde, atingindo, no entanto, aquele órgão vital: o bolso humano e isso também é relevante.- Crise na construção civil está incubada e aflora antes do novo ano: vai haver choro e ranger de dentes. Para quem pensava que se limitava a questões pontuais e episódicas como o drama da Encol vai ser um susto e isso se dará na esteira de grandes investimentos proporcionados pela política de Lerner em atrair empresas de porte, não apenas industriais.- A modalidade de maior risco nos empréstimos feitos a funcionários públicos é a do débito em conta corrente que ‘‘legitima’’ a ação dos picaretas e agiotas. O Banestado, na defesa da economia popular e da imagem do estabelecimento numa hora de transformação para melhor, deveria coibir esse tipo de operação.
FOLCLOREO jornalismo do Paraná passou por fases heróicas: no ‘‘Diário do Paranᒒ, associado, ninguém via salário inteiro, pois ficávamos com crédito e nos fins de semana soltavam ‘‘vales’’. Em ‘‘O Estado do Paranᒒ o Saporiti soltava vales num determinado dia da semana. Certa ocasião um cara, que foi tratar de outro assunto, entrou na fila e o Saporiti foi perguntando: ‘‘e você quanto quer?’’ O cara chutou: 500. Repique: leva 300, tá bom? E o cara, que não era empregado do jornal, virou freguês e toda a quinzena entrava na fila.
No ‘‘Diário’’ o Odone Fortes dava cheque frio a três por dois. Um dia o Luís Augusto Juk esperou o banco abrir e foi para o caixa, mostrando o cheque do jornal. Não tinha fundos. Juk sai e na porta encontra o Fortes e conta-lhe a história. O Fortes ouve com atenção e filosofa: ‘‘Que sacanagem!’’

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