Incompatível com a essência do jornalismo é a prática das mensagens cifradas, tortuosas, para mexer com o governo e a oposição ou grupos empresariais. Numa hora em que estamos livres da censura parece que a sombra da autocensura se torna tão pegajosa quanto um Ato Institucional. Essa ciclotimia é muito comum nos hábitos dos nossos meios de comunicação em função de uma cultura antiga e de traço pernicioso, presente num relacionamento pactual com o poder, como se este tivesse a obrigação primordial de sustentar os veículos.
Um jornal da Capital publicou nota em primeira página afirmando ter sabido de uma reunião entre donos de veículos, à qual não teria sido convidado, e supõe que tenha sido convocada para um plano de combate ao governo e a empresários, que condena porque o comportamento estaria fora da sua linha independente. Daqui do Paraná nada espanta, pois, em passado não muito distante, um dos jornais torceu em manchete para que o câncer matasse o governador doente. Quem ganha com esse tipo de jornalismo: a sociedade em nome de quem os veículos agem como seus delegados? Certamente não.
Governos aqui cultivam, de Ney Braga para cá, esse hábito, daí o absurdo dos dispêndios excessivos sem critérios porque se rendem à mídia política e não à técnica, que afinal numa sociedade economicamente aberta deveria ser o fator dominante de aferição. Daí Curitiba ter dez jornais diários, fora os semanais e ainda os eleitorais, isto é, aqueles que aparecem, como os militares com uniformes camuflados para a selva, a serviço da campanha.
Ano que vem, o Banestado deixará, até por encontrar-se em processo de saneamento para a privatização, de lançar os cerca de R$ 5 milhões ao mês para os variados meios de comunicação, dos impressos aos eletrônicos, hoje despendidos; a Copel também se verá impelida a reduzir a sua cota, o mesmo acontecendo com a Sanepar. Os donos dos meios de comunicação deveriam estar de olho nesse cenário e mudar, adequadamente, a acomodação.
Consta no histórico desta ‘‘Folha’’ um pecado grave no engajamento de uma campanha eleitoral em favor de um candidato metropolitano quando havia dois de sua região de origem. O público leitor deu uma lição pedagógica: cancelou assinaturas, inconformado com a quebra de uma regra de distanciamento e, mais do que isso, com aquilo que entendia, o que até pode ser discutível, como perda de identidade.
Porto Alegre, mercado complexo como o nosso e que já abrigou a maior agência de propaganda do Brasil, tem apenas três jornais e há competição, tanto que o ‘‘Correio do Povo’’, após ter quase desaparecido, supera ‘‘Zero Hora’’ em circulação, um dos maiores do País, segundo o IVC. Um jornalismo que depende, em maioria, de verbas oficiais, pode ser tudo, menos democrático e sério. E muito menos comprometido com os interesses gerais da sociedade.


AXIOMA
A Clac, cooperativa de leiteiros, precisa urgente de recursos e tentou o Banestado. Para a Clac não há dinheiro, mas para a outra claque, aquela que detonou a Leasing, e sem oferecer garantias, houve de sobra.



GLOSA O PT, para mostrar-se ‘‘light’’, atendendo sugestão de marqueteiros, tirou o vermelho das cores da campanha de Lula e agora, verificando que isso afastava a militância (se é que ela ainda existe), quer recuperar o símbolo inafastável da sua bandeira e dos seus braços urbano, a CUT, e rural, o MST.
Em termos cromáticos, prova-se com isso que o PT, como o Ronaldinho, amarelou.
BIZARRICE Advogados da coligação situacionista se mostraram de uma arrogância exemplar no TRE. Acuaram o repórter da ‘‘Folha’’ porque ele ouvia o advogado da oposição, lembrando-o de que tinha que ouvir os ‘‘dois lados’’, o que aliás inexiste em release de governo. Leandro Donatti explicou que ouvia primeiro a oposição e tecnicamente estava certo porque ela havia perdido unanimemente. Os advogados depois, percebendo a mancada, pediram desculpas. Insistiram, porém, na fantasia de que os jornais é que haviam inventado as trapalhadas de Lerner e troupe, que redundaram nas marchas e contramarchas da chapa final. Lerner bateu até Jerry Lewis e Renato Aragão e não apenas com esse feito. Deixem-no entregue à criatividade e teremos novas a qualquer momento que fazem os três patetas do cinema parecerem principiantes.
FOLCLORE No governo Lerner, empresas paranaenses ou desapareceram ou foram obrigadas a fusões com grupos internacionais (Batavo com a Parmalat, Refripar com a Electrolux). Agora quem está buscando recursos no Banestado é a Clac, e seus dirigentes parece que serão obrigados a demonstrações públicas como aquelas da Europa, de distribuir leite gratuito à população. Aí, mais como eleitores do que como leiteiros, haveria esperança de atendimento.
Um jeito criativo de lembrar isso seria uma faixa alertando que o leite não vendido poderia virar requeijão ou coalhada, num momento em que os governantes só pensam em dar uma chacoalhada no Requião. O que não será fácil.
SPRAY Começo de ações da Electrolux no Brasil não foi bom: o desaquecimento gerou prejuízos e bloqueou a expansão com a fábrica de Fazenda Rio Grande.- Alguns financiadores da campanha de Lerner de 1994 estariam mudando de lado e até cedendo jatinho para a oposição. Aliás, é cada vez mais comum o jogo duplo.
- Já foi instituída a comissão especial para averiguar a situação do bonde que foi doado pela família Slaviero. Na Urbs, o assunto não é prioritário, segundo Fric Kerin, seu presidente. E isso é óbvio, mas da maneira como foi dito, gera a impressão que a URBS não é boa de urbanidade e não dá a mínima para frescuras que tanto ajudaram Lerner, como memória histórica.- Natálio Stica, Celso Torquato, Jair Cézar, Jairo Marcelino, Luiz Ernesto, Ede Abib, Ney Leprevost, Carlos Bortoleto e Borges dos Reis são os vereadores dispostos a não perder o bonde da memória. O curioso é que o bondinho da Rua das Flores não é daqui, mas de Santos. O da terra é esse, abandonado e degradado, da família Slaviero. - Os candidatos a deputado federal Joaquim dos Santos e José Carlos Martinez podem, de repente, ter que olhar com atenção ao que acontece no Tribunal Regional (federal) de Porto Alegre: é que uma transferência irregular de concessão de TV entre os dois grupos (a Independência e a Rede OM), acolhida naquele órgão da Justiça, decidiu que devam ser ouvidos no processo tanto o ex-presidente José Sarney, como o ex-ministro de Comunicação, Antonio Carlos Magalhães.- Parte da gangue de Almirante Tamandaré está solta.

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