Luiz Geraldo Mazza
Promessas & promissórias
Não bastasse a modorra da campanha eleitoral, pegajosa, cinza, temos que suportar a avalanche de promessas. Lula não deixa por menos e promete erradicar o analfabetismo, como já adiantara acabar com o racismo e fazer a reforma agrária com uma canetada. FHC não se micha e adianta que vai criar sete milhões de empregos.
Aqui o tom não é menos gradiloquente: Requião acentua que anula os contratos com as montadoras e impede a privatização do Banestado, enquanto Lerner afirma, com máxima solenidade, que criará indústrias em todos os municípios. A campanha eleitoral deveria ser uma oportunidade de reeducação política de traço coletivo porque, por menor que seja o ganho, cada pleito significa um passo à frente para a melhoria da democracia.
Quando Lula prometeu erradicar o analfabetismo, estava colocando uma prioridade nacional, indiscutível, e até aqui empurrada com a barriga, pois detínhamos até um método, o de Paulo Freire, que também se ligou ao PT, de ‘‘alfabetização’’ em poucos dias, um ‘‘abracadabra’’ pedagógico que as elites olhavam com horror, por seu conteúdo politizante. Basta lembrar que o primeiro plano de desenvolvimento, em bases científicas do Paraná, feito pela Sagmacs, Sociedade de Análises Gráficas Aplicadas aos Complexos Sociais, vinculada à filosofia do padre Lebret, previa o uso intensivo dos processos de Paulo Freire para a alfabetização. Como foi feito em 63, obviamente não pode ser aplicado, já que em 64 anoiteceu e mergulhamos todos na sombra e no chumbo.
Você pode mobilizar um país para as questões sociais e aí reflete uma Cuba que está nos estertores de uma experiência boa nesse campo, todavia nula em termos econômicos. O Brasil é uma sociedade complexa com espaços nobres em seu território, que nada ficam a dever ao primeiro mundo, ainda que convivendo com cenários de Biafra, Sudão, Índia para não carregar nas tintas. E por isso não se pode imaginar uma ênfase no ‘‘social’’ porque o País quebrou e não há essa flexibilidade para escapar da dívida externa e da interna, e do peso do déficit público que se acumula. É nesse sentido que as propostas de oposição carecem de um mínimo de compromisso com a realidade.
Admitemos, porém, que se a catadupa de promessas fosse atendida, tanto essas quanto essa absurda do Lerner, de prometer indústria para todos, num universo ainda fortemente agrário, quem cuidaria das promissórias?


AXIOMA
Jamil Snege vai fazer a propaganda de Roberto Requião: se conseguiu fazer o Tony Garcia falar, poderá levar o senador à contenção verbal?
Afinal um homem de publicidade não é bem um demiúrgo, nem milagreiro, mas muitos dos que os contratam desejam resultados mágicos. O impossível é o mínimo desejado.



GLOSA Curitiba está virando a capital do mundo cão: aqui não respeitam nem a chácara do Instituto Paranaense dos Cegos. Sem-terra contra os sem-visão. Daqui uns tempos, quem tiver carteira de trabalho assinada será alvo permanente de assalto. É por isso que se diz que aqui no Paraná, quando pobre diz que vai ver as Cataratas, se dirige ao oftalmologista.
BIZARRICE Um release do ex-prefeito Rafael Greca anunciava um corpo-a-corpo do candidato no Setor Histórico de Curitiba. Dá para imaginar os aliados Greca, Lerner e Aníbal Khury fazendo o ritual no mesmo espaço. Sai debaixo.
EPIGRAMA Fala-se tanto em privatização do Brasil quando carecemos, conforme indicadores do IBGE, justamente de privadas. O brasileiro, em função disso, fica literalmente na fossa. 25.8% dos domicílios têm fossa comum, 17,1% contam com fossa séptica, 14,7% nada possuem e apenas 35,3% se ligam à rede geral. Puxou a descarga e boa parte do país afunda.
SPRAY O médico Randas Batista, que chegaram a apontar como candidato ao Nobel de Medicina, está em guerra com a própria corporação e ela vai bem além dos limites do Hospital Angelina Caron, de Campina Grande do Sul. - Polícia de Carambeí retoma o processo da chacina. Assunto voltou a mexer com os nervos da comunidade.- A ABPF, Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, foi quem decidiu tirar a locomotiva de cima da Ponte Preta. Alegação é de que o material oxidava e não havia manutenção e que em Rio Negrinho, onde a peça está sendo recuperada, terá funções apropriadas a um museu em movimento e nos trilhos.- Outra razão é a de que a locomotiva operava em Mafra e historicamente nada tinha a ver com Curitiba. Tudo bem: se esse é o argumento-chave, vamos retirar o bondinho da Rua XV porque é originário de Santos e aquele, curitibano mesmo, doado pela família Slaviero, está há mais de dez anos em reparos em Araucária. É o caso de perguntar: e no bondinho não vai nada?- O ex-delegado Paulo Padilha, de Almirante Tamandaré, dificilmente escapa da demissão, enquadrado que está em 11 artigos.- Senador Roberto Requião vai fazer do Banestado a sua bandeira imediatada em dois ‘‘fronts’’: na CAE, Comissão de Assuntos Econômicos, onde, juntamente com Osmar Dias, segurou os processos de empréstimos do Paraná, e no horário eleitoral do rádio e da televisão. Como Cândido Martins de Oliveira prometeu que o governo responderá a todas as denúncias, espera-se que clareie o que houve na Leasing e Corretora.- A partir de hoje, das 12 às 13 horas, no Canal 20 da Net, telejornal, no qual aparece o Valdir Córdova Bicudo falando de esportes.- Semana passada, a Justiça deu ganho de causa aos procuradores do Legislativo estadual, na instância superior, para que tivessem direito à queda do redutor salarial. Aníbal Khury, o presidente, como já fez em situações anteriores, não está disposto a cumprir a decisão judicial. Estamos num Estado de Direito Democrático ou a burla é que vale?
FOLCLORE ‘‘A arlesiana’’, uma delas é claro, quadro de Van Gogh, foi trazido a Curitiba e como a peça pertencia a Assis Chateaubriand já se insinuava que não seria autêntica. Diante do quadro, a burguesia dizia as maiores patetices como aquela dama que perguntava se o Van Gogh era nome ou apelido. Aí entrou em cena o jornalista Fernando Pessoa e esclareceu que era apelido, pois o nome verdadeiro era Kirk Douglas. O Anthony Quinn, neste filme, fazia o Gauguin.
CROMO Se o adulto quer ser criança, um sapo volta na forma de girino.
AFORÍSTICO Não tome todo o Engov. Depois do dia 18 vai ser bem pior.

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