Luiz Geraldo Mazza
A condicionante maior
Desde que ocorreram os primeiros atritos regionais relativamente aos ajustes entre o pleito presidencial e o dos governos estaduais, daqui e de outras áreas do País, tenho insistido na tecla de que a disputa nacional, de certa forma, condiciona a local. E isso tanto é verdade que a oposição tenta rever candidaturas como a de Marta Suplicy em São Paulo, por exemplo, para apoiar o pedetista Francisco Rossi e com isso alavancar Lula em todos Estados em que for possível a manobra. A idéia é tentar o expediente onde for possível sob o fundamento de que o petista seria beneficiado por esse esforço de mobilização.
Um acontecimento dos anos 60 mostrou a força desse condicionamente quando os estrategistas de Ney Braga decidiram criar o eslogam ‘‘Quem é Ney é Jânio, quem é Jânio é Ney’’. Percebendo o caráter de muda radical que se esperava com a eleição presidencial, fizeram o saque, na verdade temendo que Jânio Quadros ficasse com Nelson Maculan. Ocorre que em 1958, Jânio Quadros saiu a deputado federal pelo PTB do Paraná e ficou em primeiro lugar, logo seguido por Ney Braga, que teve, isoladamente, que viabilizar a legenda PDC.
Antes disso houve em 1950 aquele drama de Getúlio Vargas, na sacada do Braz Hotel, em comício, quando tentou ficar em cima do muro diante dos candidatos Munhoz da Rocha, de tradição perreista, e Ângelos Lopes, do PSD. Na sequência tivemos um pleito presidencial que deu margem a cobranças da cúpula do PSD de que Lupion teria apoiado o Adhemar de Barros, colocado em primeiro lugar, e, consequentemente, ‘‘cristianizado’’ JK. Foi uma eleição atípica em que Plínio Salgado, chefe integralista, ganhou em Curitiba e Ponta Grossa, fenômeno quase repetido naquele desempenho de Guilherme Afif Domingos.
Dentro desse raciocínio, os petistas querem um acordo com o PDT, semelhante ao do Rio, com Antony Garotinho; no Rio Grande do Sul, pela retirada da candidata brizolista com o que se atenderia a necessidade de Lula ampliar sua vantagem naquele Estado, neutralizada em grande parte pelo peemedebista Britto, e ganhar ainda o pleito estadual com o seu candidato Olívio Dutra. É a prova de um condicionamento forte que só como exceção não se reafirma.
Aos poucos, o quadro político-eleitoral do Paraná vai se conformando a essa magnética realidade: os ressentimentos do tucanato, que tentava subverter as coisas colocando o campanário acima da visão nacional, vão se diluindo na medida em que os mais realistas enxergam a conveniência de unir o máximo de forças para eleger Fernando Henrique Cardoso e esse objetivo reclama uma clareza de opções que incluem as vitórias de Álvaro Dias, garantida previamente, e de Jaime Lerner para o governo. Na medida em que isso se der, Requião se verá impelido a deixar clara a sua relação com Lula, não podendo beneficiar-se do jogo solerte que alguns pretendem para despistar a aliança e no qual não hesitam em vinculá-lo a FHC. Esse jogo duplo não o favorece, mas também não pode ser evitado. Afinal, não esquecer que o PSB, por exemplo, apóia Lerner e Lula e o PPS, Lerner e Ciro Gomes.
O samba de crioulo doido da campanha eleitoral dá nessas coisas e isso se deve debitar à falta de clareza programática dos partidos e, mais do que isso, no camaleonismo dos políticos brasileiros.


AXIOMA
Imaginaram o Coritiba e o Atlético, justamente com seus megaestádios, disputando a segunda divisão do campeonato brasileiro?



GLOSA Insisto em que o governador Jaime Lerner deve recuperar prerrogativas que indevidamente transferiu ao Legislativo na área de segurança: ontem, pela manhã, um repórter desta Folha viu um policial envolvido nos escândalos da delegacia de Almirante Tamandaré andando, na maior das liberdades, na rua Barão do Rio Branco. Esse elemento rodou, por aí, durante dois meses com carro roubado e desfruta de toda a mordomia, quando deveria estar preso.
Se continuar assim, você não sabe se na hora do assalto chama a polícia ou o ladrão até porque, como no mistério da Santíssima Trindade, podem ser duas numa só pessoa. E, ainda por cima, com a benção de poderes instituídos.
BIZARRICE A existência de muitos falidos nos quadros governamentais mostra a falácia do discurso da livre iniciativa e da competição, que adotam com o maior entusiasmo e mais extensa ‘‘cara de pau’’. O pior é que tentam sair com ar de estadista nas fotos oficiais. Além dessa hipocrisia, são consultores para assuntos empresariais. Poderiam usar até um uniforme zebrado ao menos para significar não que devessem estar sentenciados, mas por configurarem o azar, o que é ajustadíssimo a esse mês aziago de agosto. São zebras apenas empresariais e não eleitorais, se não seria o caos.
SPRAY Posição do Paraná no Mercosul não é, apesar da proximidade geográfica, lá essas coisas: em 97, Minas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo nos deram um ‘‘banho’’ nas vendas.- A nossa cota ficou em 10,82%, e São Paulo aparece com 26,43%; Santa Catarina, com 17,37% e Rio Grande do Sul, com 17,32%. Em 94, ganhávamos de Minas e Santa Catarina.- Há o peso da industrialização mais forte: a automotiva de São Paulo e Minas. O Paraná, a médio prazo, deve melhorar consideravelmente o desempenho.- Crescimento: Minas foi o que mostrou a melhor taxa, com 57,66% em relação ao ano anterior; Santa Catarina, 28,96%; Rio Grande do Sul, 21,21%; São Paulo, 21,07; Paraná, 16,28%.- Decisão do Tribunal de Alçada derroga dispositivo condominial que proíbe cão pequeno em apartamento. Aliás, se há uma área de exercícios ditatoriais é a do regulamento dos condomínios: com a maior singeleza, revogam não só a Constituição Federal como também a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Não era simples coincidência militares aposentados brigarem pelo posto de síndico.-
FOLCLORE No Extremo Sul do País, apenas o Paraná dá vantagem enorme a FHC diante de Lula, o suficiente para oferecer média favorável à reeleição, mesmo com o desempenho excepcional do PT em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Daí Lerner e Roberto Requião aparecerem simultaneamente como os maiores eleitores, respectivamente, de Fernando Henrique e Lula. Antes da recuperação de FHC, Lula vencia no Oeste, Sudoeste e em parte ponderável do Norte. Tanto que tal resultado é que animou aquela passeata em Curitiba e Londrina. Requião não desestimula seguidores que fazem aliança com Álvaro Dias e FHC. Bem diverso do que Ney Braga fez em 60, recusando a proposta do pessoal da esquerda, que queria criar o comitê ‘‘duas espadas’’, ligando-o ao general Lott.

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