Luiz Geraldo Mazza
Em Londrina, o auê do mega-acampamento de sem-terra; na novela O Rei do Gado, novos alentos para a causa da reforma agrária. É a sociedade do espetáculo, conforme a descreveu Guy DAbord, em pleno funcionamento. Mas o Carnaval convida à dissipação, ao entorpecimento, à alienação, como nós dizíamos nos anos 60.
Num país como o nosso o governo tem mais importância que a comunidade e seus recados operam como os raios de Zeus, tal qual as medidas provisórias, que são incompatíveis com o chamado e badalado estado de direito democrático. Pois há quem preveja que, durante a viagem à Europa, Fernando Henrique anuncie algum avanço em matéria social até para ajustar-se às exigências daquele mundo que conhece e pratica o bem-estar para a maioria.
Esse tema foi abordado no Bom Dia, Brasil, da Globo, quando os comentaristas afirmaram que FHC costuma, no exterior, dar recados ao público interno e esse atenderia também às exigências do politicamente correto da clientela externa, que só ouve ofertas no campo financeiro (privatizações, abertura na Petrobrás, venda da Vale) e nada na parte social.
A REFORMA - Uma injeção de cânfora na reforma agrária teria a contrapartida dos apoios de organismos internacionais que operam no desenvolvimento social e encontraria repercussões na FAO, uma instância apropriada para essas pirotecnias. Seria, também, um exercício de descompressão no momento em que fazendeiros prometem se armar para conter a escalada das invasões a bala.
Civilizações densas como a européia não podem compreender como estejamos à entrada do milênio sem ter feito reforma agrária, pré-requisito de sociedades desenvolvidas. É verdade que em Portugal, o nordeste da Europa, esse problema só foi encaminhado e aos trancos e barrancos depois da Revolução dos Cravos, que sofreu também os exageros radicais de reformas extremistas em alguns dos momentos do processo que se viram obrigados ao recuo em função da demagogia e do emocionalismo.
O ritual do escravismo, aquele que nos obrigou a passar pelas leis do Ventre Livre e do Sexagenário, antes da abolição com a Áurea, parece comandar o cronograma da evolução política e social no Brasil. Aliás, o escravo, por ser semelhante a um semovente ou a um bem como a máquina, era melhor tratado do que os excluídos de hoje da sociedade brasileira. A feijoada veio da senzala e é prova de que esse trabalhador sem liberdade pelo menos comia.
PODER & LIBERTAÇÃO - Galbraith, em Anatomia do Poder, diz que precede o poder compensatório, o do salário e vantagens sociais pela submissão do empregado ao patrão, o chamado poder condigno, o aplicável no escravismo e em formas assemelhadas de organização. O poder condigno esmaga o indivíduo com algo suficientemente doloroso, física ou emocionalmente, para fazê-lo renunciar à sua própria vontade ou preferência a fim de evitar sofrimento. Sua relação, antiga, com a punição física, é uma supervivência ainda existente em reflorestamentos, em minas, carvoarias e usinas de álcool no Brasil. Na escala de J. Kenneth Galbraith, a forma mais evoluída e de sintonia fina de poder é a do chamado poder condicionado, esse que se origina na cultura, na religião, na chamada indústria cultural via meios de comunicação social.
Aquela libertação desejada pelos teólogos de Puebla, Medelin, que deu origem às comunidades eclesiais de base, é algo que se choca justamente contra essas formas, escancaradas ou sutis, de dominação. Nesse momento, paradoxalmente, a indústria cultural, a principal delas, a Rede Globo, gera e consolida empatia em todo o público pela conquista dos sem-terra.
Infelizmente estão arrogantes, bravateiros e começaram a botar no mix reivindicatório matéria estranha e de caráter político-partidário como bronquear com a reeleição e ameaçar de invasão as terras da Vale do Rio Doce, o que lhes retirará a imagem favorável que vem dos acampamentos e das lonas pretas, expressão de miséria e desolação, quando nem só disso vive o MST até porque tem casos de assentamentos frutuosos com visão mercadológica e industrial.
Dir-se-á que como segmento social o MST tem todo o direito de opinar sobre qualquer questão nacional, mas na medida em que passam a colocar as teses de um partido em especial, no caso o PT, parecem não ter percebido que na mais recente eleição a estrela não brilhou perdendo, na esquerda, até para o nanico PSB, justamente por causa do radicalismo e da demagogia, do personalismo e da incapacidade para o agir democrático sem a distorção do assembleísmo, a doença infantil do basismo primário.
FOLCLORE - Quase no fim de carreira (iria depois para o São Paulo e encerraria a carreira na Bolívia), Zizinho jogava no Bangu, contra o Vasco, no Maracanã, e o juiz (parece que o Gama Malcher) o expulsou. O público reclamou ao juiz que revisse a sua decisão e como ele não o fez, as arquibancadas e as gerais ficaram vazias. Em protesto, o público foi pra casa. Justiça poética.
CROMO - Amei a tua meia/ à noite/ e a meia-noite e meia/ amei a lua. Esses versos controversos e trocadilhantes fazem parte de O embebedário diverso, de Altair Oliveira. Noite de autógrafos dia 21, no Bife Sujo.
AFORÍSTICO - O PT está na dúvida se apóia Aníbal Khury na Assembléia. Se tem dúvida, é porque não é mais PT. Aliás, quem apóia o Prisco na Câmara dos Deputados já saiu do aprisco. O radicalismo dá lugar à cumplicidade.





