Luiz Geraldo Mazza
O tapetão salvador
Tapetão que salva é aquele das lendas de Simbad, o marujo, voador, que não se confunde com os persas ou esses outros do Pedroso. Mas tanto no futebol, como em eleições, quando se teme a implacabilidade de um resultado, busca-se logo o tapetão. E este, principalmente no pleito que se avizinha, vai ser a instância mais procurada, como estamos vendo, tanto pelo governo, como pela oposição, para não apenas eliminar, se possível, o adversário, como também criar fatos políticos, cada vez mais escassos numa campanha chocha e desprezada pelo público brasileiro, como esta.
Joga-se no tapetão, no varejo e no atacado, nacional e regionalmente, e de repente, a impressão que fica é que a figura máxima, desta feita, não vai ser o marqueteiro, como nas outras, mas o bacharel de folhas, o advogado. E ei-los, com as Pandectas no braço (na verdade, a legislação eleitoral confusa e difusa), a dominar os espaços televisivos e de rádios e jornais, a explicitar as judiciosas razões pelas quais se processam uns aos outros.
Quando se suscita uma impugnação como se dá agora, corre-se o risco, conforme o andamento da pendência, de deixar as eleições sub-judice, como se deu com a de Requião e, de certa forma, ocorre com a do Cássio Taniguchi, cuja inelegibilidade foi também proposta no pleito municipal que venceu. Um caso como o do ‘‘Ferreirinha’’ é marcante: a instância superior, a rigor, por perda de objeto, não lhe examinou o mérito, já que o beneficiário havia exercido o seu mandato, em função da demora com incidentes processuais e mais ainda a circunstância de o litisconsorte necessário, o vice-governador Mário Pereira, não ter sido sequer citado, o que demandaria a nulidade desde o início.
Espera-se que do tapete prioritário tenhamos, pelo menos a partir do horário gratuito de televisão e a erupção dos comícios (pouco se acredita neles), uma preferência pelo ringue do box das idéias ou tatami. Quem sabe assim se devolva a motivação perdida do eleitor, que aumenta o seu ceticismo diante do político que deseja ganhar o pleito sem concorrentes. Mais ou menos como se dá no caso específico do Senado, embora não se possa atribuir a culpa ao candidato Álvaro Dias e sim a essa estrutura partidária apodrecida e voltada para as soluções de conivênia e conveniência e que agridem a democracia em seu fundamento mais primário, que é o do contraditório que, mesmo o regime militar, procurou manter à sua maneira, com o bipartidarismo e as sublegendas, melhor do que a sucata que nos oferecem como alternativa.


GLOSA
O comitê eleitoral situacionista levantou em números, detalhadamente, os feitos de Lerner e Requião, mostrando as vantagens enormes do primeiro sobre o segundo em qualquer dos campos de atuação. Tem uma coisa em que Requião vence: criar casos com o Judiciário, com os companheiros. Noutra Lerner é imbatível: a hesitação, a reticência e também em patetices (montagem da chapa)



AXIOMA Já fizeram aquela baixaria com Lula na primeira eleição, por causa da Lurian, a menina tida fora do casamento. Agora querem aprontar uma do mesmo quilate com FHC. E vejam como são as coisas: Collor, beneficiado com a baixaria feita com Lula, tinha também um filho que não reconhecia e que agora se viu obrigado a fazê-lo. A claque presidencial se perde em divagações sociológicas (Sérgio Motta mais apropriadamente as chamava de ‘‘masturbações’’) se deve relatar o fato ou esperar que aconteça. Esperaram duas coisas e quebraram a cara: o incêndio de Roraima e os saques no Nordeste. Para o nosso moralismo tropical, um caso desses pode ser pior do que o incêndio e semelhança com aquela saia sujinha da Monica Lewinsky.
BIZARRICE O conceito em torno de racismo (que Lula promete acabar no Brasil, o que é tão possível quanto pôr fim às secas, como projeta FHC) é variável no tempo e no espaço. O mestre universitário Antenor Pamphilo dos Santos era negro e quando foi candidato a vereador, os gozadores, que hoje seriam repelidos como discriminatórios, fizeram um eslogam ‘‘Não vote em branco. Vote em Pamphilo dos Santos.’’ Esclareça-se que a representação parlamentar no Paraná sempre teve escassa presença do negro, embora a força das etnias de origem européia e asiática.
Um equívoco parecido, e que hoje seria visto como ‘‘politicamente incorreto’’ está no lance de um exame no Ginásio Paranaense, na cadeira de Geografia. O mestre Sebastião Paraná, orgulho da terra na especialidade, era o presidente da banca e um aluno não sabia dizer qual o rio mais importante do Estado, ao que, benevolente, o presidente discretamente colocou o indicador no peito para tirá-lo da dúvida. O aluno, jejuno em tudo, respondeu ‘‘Negro’’.
AMBIENTALISMO Um juiz de Araucária concedeu liminar em ação civil pública, a pedido de entidade ambientalista, contra o DNER e a Construtora Carpizza, por danos ao longo do Ribeirão São Patrício, em obras de terraplenagem, ordenando a imediata suspensão das operações. A competência originária é da Justiça Federal. Houve comunicação ao IAP (Instituto Ambiental do Paraná), para que se certifique da denúncia, uma vez que não deu autorização às obras. Se houver descumprimento, DNER e Carpizza estarão sujeitos a multa diária de R$ 50 mil.
REMEMBER RICHA Em 1985, ao longo da crise das empresas de montepio, Richa baixou instrução suspendendo a implantação de descontos em folha em favor das empresas da área. O assunto foi lembrado em função do que temos dito sobre a consignação em folha que favorece a agiotagem no Paraná, com exploração à base de juros extorsivos em bancos e outras instituições de amigos do rei.
FOLCLORE Ontem deveria ser um dia de comemorações para o Prona, o Enéas, seu candidato a presidente, e Jamil Nakad, postulante ao Palácio Iguaçu: é que se registrava o lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima. Amanhã é a data da que caiu sobre Nagasaki. Numa e noutra, 200 mil mortos, 200 mil feridos.
Jamil e Enéas acham que a bomba imporia respeito, o que aliás não acontece com a Índia e o Paquistão, duas nações subdesenvolvidas que a possuem. É um raciocínio tão caricato quanto aquele que sugere que na esteira das teles privatizadas todo o brasileiro terá um celular, mas pão ninguém garante.
É o capitalismo com sua face mais sombria: no Zaire o signo da globalização, em meio aos miseráveis refugiados que andam de um lado para outro, é, claro, o ‘‘out door’’ que diz ‘‘Toujours Coca-Cola’’. Sempre Coca-Cola.

mockup