Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Os recuos de Lerner
Mais um recuo: a suspensão provisória da operação do terminal de contêineres do Porto de Paranaguá. Tal qual o caso do pedágio, contra cujos valores desde o princípio me coloquei, critiquei fortemente o governador na rádio CBN. E o fiz para chamar a atenção de que, com aquele ato de força, o governo se recusava a aceitar aquilo que é comum no universo portuário, visível nas resistências de caráter corporativo, na cultura assentada graças ao populismo, isto é, fugia à responsabilidade de enfrentar as crises e tensões da área.
Na verdade, o governo tinha razões de sobra para a medida adotada, pois uma greve geral numa etapa importante de exportações, abrangendo todo o complexo portuário, teria efeitos de curto e longo prazos devastadores. Ocorre que o terminal paranaense, a despeito dos avanços em desregulamentação e em novos espaços de privatização, está muito mal no que diz respeito aos seus custos operacionais, que o tornam emperrado para a competição e o revelam como ponto de estrangulamento de nossa economia relativamente ao Mercosul.
Vejamos um indicador: o custo da tonelada/granel, que é de US$ 2 na Argentina, de US$ 6 em Santos e US$ 5 no Rio Grande do Sul, chega a US$ 9 em Paranaguá, o que o torna, numa das especialidades em que mais avançou em equipamentos, de certa forma, inabilitado à competição. Mas não é só aí. Há muito tempo a Volvo não se vale do nosso porto, o que aumentaria o valor agregado da indústria automotiva, aqui financiada pelo poder público, por causa de custos, e utiliza para tanto terminais catarinenses que oferecem vantagens operacionais.
Com a decisão estratégica de confiar, cada vez mais, espaços à iniciativa privada, era de esperar-se que tanto patrões como empregados resolvessem, de forma adulta, as suas pendências sem transferir, no velho e carcomido hábito brasileiro, tais relações, em sociedade economicamente aberta, à tutela do Estado. Daí ter havido correção no entendimento do governo, ao suspender as operações que se iniciariam anteontem no terminal de contêineres, para permitir que o diálogo fluísse e as partes se entendessem, uma vez que havia ruído nas comunicações e que levaram as partes ao conflito, que já se transformava em insumo de exploração eleitoral de grupos interessados, dentre os quais gente vinculada partidariamente ao próprio oficialismo.
Há recuos que configuram um avanço. Assim foi com as tarifas do pedágio e está sendo agora com mais esse problema do terminal portuário.
AXIOMA
Escutar o discurso de Álvaro Dias, todo ele à base de frases feitas, autênticas redondilhas de clichê-político, não permite maiores dúvidas: apesar da aura modernosa de que já procurou se revestir, é, pela prédica e prática, um Odorico Paraguaçu pós-moderno. O conceito é de Eduardo Schneider
GLOSA Requião ficou sub-judice durante quase todo o seu mandato de governador e também em parte no seu mandato de senador. Agora quem está sub-judice é o governador Lerner, em função das trapalhadas da montagem da chapa governista. E o procurador da Justiça Eleitoral quer simplesmente que Emília Belinati seja trocada na condição de vice. Em suma, o tapetão vai ser maior campo de luta do que a própria urna.
BIZARRICE Ney Braga foi até agora, na história paranaense, a única pessoa a fazer escalada como chefe de Polícia, posto equivalente hoje ao de secretário de Segurança, da qual saltou para a prefeitura da Capital na primeira eleição depois da autonomia e, em seguida, para deputado federal e daí ao governo, aos ministérios, ao Senado. Curitiba, no fim dos anos 50, era distante de Santa Felicidade porque a ligação era macadamizada como trecho inicial da Rodovia do Cerne, criada por Manoel Ribas. O asfaltamento dessa via, determinado por Munhoz da Rocha, governador, e executado por Ernâni Santiago de Oliveira, o prefeito da transição, garantiu a vitória de Ney contra o médico Walace Tadeu de Mello de Silva e de uma lista enorme de concorrentes. Hoje Lerner, herdeiro do neysmo, disputa com Requião, filho de Walace. Em 85, a vitória, por margem estreita - menos de 20 mil votos - foi de Requião. Na atualidade, Santa Felicidade é chave nas campanhas políticas, mas não por causa do asfalto e sim dos jantares gigantescos nos maiores restaurantes do mundo, feitos pelos candidatos e cabos eleitorais. Haja polenta e frango.
SPRAY O delegado que toca o processo Teixeirinha pediu ao juizado de Guaraniaçu para prorrogar o inquérito que até agora ouviu Joni Varisco, Nestor Baptista e o ex-governador Mário Pereira. - Está pedindo, igualmente, em função de os depoentes, como Baptista e Pereira, não haverem percebido o conteúdo das conversas do então governador Requião com a área de segurança, que haja quebra do sigilo telefônico dos aparelhos no hangar da Líder Táxi Aéreo e do comando da PM em Cascavel. - Gente do governo, o que parece inacreditável, estava procurando faturar eleitoralmente o clima gerado com a questão do Porto de Paranaguá. Ao invés de fazerem o papel de bombeiros, jogavam claramente como incendiários. Essa circunstância também teria pesado na decisão de interromper a operação do terminal de contêineres. - Candidatos a deputado estadual e federal estão apavorados com o cronograma, curtíssimo, da campanha eleitoral e com a circunstância de o Ibope informar em pesquisa nacional que 90% dos consultados não sabem em quem votar nas eleições proporcionais e nas majoritárias para o Senado. - O assessor de campanhas eleitorais, Rubinho Ferreira, sugeria ontem que não se espantaria caso o acordo branco ficasse agora mais visível com a nomeação de apadrinhados de Álvaro Dias ao governo. Só um detalhe: no momento as nomeações estão proibidas.
FOLCLORE Quando houve aquela marcha de Lula e Brizola com Requião, na Capital e em Londrina, as pesquisas indicavam que a oposição moía FHC, tanto no Noroeste, como no Oeste do Paraná. Era um retrato passageiro, pois foi revertida, da forma a mais ampla possível, a situação em favor do governo e ficaram mais nítidas as tendências de rejeição do petista e com força suficiente para contaminar a eleição regional. A criação de um comitê que reúne gente do PMDB e do PSDB e faz o trio FHC-Requião-Álvaro é uma resposta a essas oscilações de opinião pública, que servem para confundir ainda mais o eleitor.
CROMO Em meio à represa, o macuquinho-da-várzea tenta recompor o seu espaço mutante, como o índio no asfalto da metrópole e o cigano na praia.
AFORÍSTICO Faixa exclusiva para Álvaro Dias: eclosão de votos nulos e brancos. O biônico, ao menos, passava pelo crivo de um colégio eleitoral.





