Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Bocaiúva e Campo Mourão
Nesta semana, em Campo Mourão e Bocaiúva do Sul, áreas diferenciadas pela geografia e os níveis de desenvolvimento, por um voto, as razões dos que se opunham aos exageros do poder foram derrotadas. Em Campo Mourão, o veto do prefeito ao aumento em causa própria dos vereadores (oito a sete) caiu e agora restará à população buscar respaldo no Judiciário, via ação popular. Lá em Bocaiúva, por cinco votos a quatro, o prefeito Élcio Berti, que tem exposto a cidade ao ridículo (primeiro com a proibição do uso da camisinha e depois com a distribuição de Viagra e amendoim), escapou da cassação. Também nesse caso, a saída vai ser o Judiciário.
Em Campo Mourão cresce a figura do prefeito Tauillo Tezelli, que se recusa a sancionar a matéria, e renuncia, ao lado do vice-prefeito, ao reajuste, conforme documento registrado em cartório. Em Bocaiúva, o prefeito Élcio Berti comandou festa até de madrugada para comemorar a sua vitória e no velho estilo de cortejar o povão.
Foram dois testes democráticos, transformados em rígido divisor de águas, que mostraram como é relativo o caráter de uma vitória, pois em ambos os casos aqueles que encarnaram a minoria estão mais ajustados ao sentido da austeridade e distanciados da demagogia. É possível, porém, que ao perceberem que o ganho emergencial, momentâneo, pode na continuidade se revelar como um desastre, os vitoriosos de agora passem a ser mais cautelosos.
O prefeito de Bocaiúva, que se acredita um comunicador de primeira por haver dado destaque tão negativo à sua cidade, ainda que com o discutível propósito de revelar seus problemas duríssimos em função da crise federativa, vai ter que se reciclar. Mesmo que pretenda o gênero do bizarro, do anedótico, Élcio Berti se obrigará a aperfeiçoar o seu repertório, chatíssimo. Reproduz, em parte, embora sem o talento específico, o personagem televisivo de Dias Gomes em O Bem Amado, do coronel Paraguaçu da cidade de Sucupira, aquele uma projeção do populista brasileiro, dos macunaímas de campanário.
Mas este, vejam bem, é o Brasil médio, amostragem de como há interatividade entre o prefeito, tanto o que faz o gênero patriarcal, como o que caminha em direção oposta, e a população. Só o exercício frequente da democracia pode dar o tom de aperfeiçoamento nessas situações. O que não pode é os municípios lembrarem feudos diante da dependência da população por sua autoridade mais próxima. Indispensável que se reduza esse condicionamento.
BIZARRICE
Em São João do Caiuá o helicóptero teve dificuldade para levantar do solo por causa do peso do seu ocupante, o governador Lerner. Aí um bem humorado correligionário do governador observou: Nessa ele não vai bem, mas nas pesquisas voa que nem uma pluma
AXIOMA Parece coincidência: no momento em que Requião insiste na tese de que brigou com o Judiciário porque este pretendia aumentos não previstos em lei, a Associação Paranaense dos Magistrados agita o problema de novo reajuste e a discussão em torno do teto geral. Na outra ocasião, a mesma entidade, então comandada pelo irmão do atual presidente, Ruy Oliveira, chegou ao extremo de propor o impeachment do governador que teve maioria folgada para negar qualquer eficácia à proposta.
Agora nem se cogita de greve, como aconteceu anteriormente, que só trouxe dificuldades ao funcionamento do Judiciário e aos advogados que foram levados a um jejum forçado, pois apenas a cúpula da OAB apoiava os magistrados.
GLOSA A briga entre Requião e Lerner sobre se há fundamento na comparação entre o Paraná e Alagoas tem um referencial importante: nós jamais elegemos um presidente da República e eles o conseguiram.
PROIBIÇÃO A regra do TRE sobre a proibição de entrevistas dos candidatos não está sendo obedecida de maneira uniforme: algumas comarcas a adotam com rigor (Foz do Iguaçu, Campo Mourão, São Jorge do Peste, Guarapuava e Francisco Beltrão, onde tudo começou) e outras nem tanto. A proibição pega mais forte nos candidatos proporcionais pela circunstância óbvia de que seria impossível a isonomia, isso é o acesso igualitário. O fato é que, apesar de tudo, tem havido bate-boca entre Requião e o pessoal do governo, normalmente Cândido Martins de Oliveira, às vezes com absoluta perda de elegância de lado a lado.
BAIXO ASTRAL Um ironista costumava dizer sobre as obras psicografadas que elas tinham a peculiaridade de mostrar que quando o espírito ia para o espaço, o talento se tornava menor. Na prática eleitoral a compulsão das promessas leva aos maiores absurdos com os candidatos se recusando a tomar uma atitude racional. Lerner prometeu em Loanda cursos universitários. Seria, na área da educação, uma prioridade?
ASSEMBLEÍSMO O ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, anunciou no Paraná que havia um plano para assentar os brasiguaios no Sul do Pará. De imediato, um dos dirigentes do MST, Roberto Baggio, condenou a idéia, sugerindo que os interessados não foram ouvidos e que o certo é colocá-los em regiões em que haja infra-estrutura. Se a situação é dramática, não há sentido em consultas. Seria algo como numa catástrofe, exigir votação: fazer um plebiscito ao ar livre contando votos, pela mão erguida, a favor ou contra. A demagogia não tem limites e o pior é que a Igreja, especialmente, se presta a esse jogo lamentável. Sabe, por exemplo, que é nessas áreas carentes em que há menor controle da natalidade, gerador de problemas sociais e aí não intervém por causa do dogma.
FOLCLORE Em 1953, centenário de emancipação política do Paraná, havia três a quatro congressos (entre regionais, nacionais e internacionais) por dia. Num internacional de cirurgia, o médico Max Dorek, famoso mundialmente, que atendia Al Capone em sua clínica em Chicago, ficou impressionado com a oratória do governador Bento Munhoz da Rocha (nos seus improvisos fazia referências pertinentes aos temas dos congressos) e referiu-se elogiosamente ao estadista paranaense junto aos seus colegas. Essa era uma impressão generalizada. O que levava o pessoal da oposição a tirar sarro da cultura de Munhoz. Roberto Barrozo, o pai, num dos seus artigos, dizia que Bento era capaz de fazer uma conferência de uma hora sobre refrigeradores sem saber abrir-lhes a porta. O exagero é indispensável à crítica e à caricatura.
CROMO Dalton Trevisan, nos anos 50, falava que as moçoilas liam as crônicas policiais do Lamartine do Diário da Tarde com a mão no coração. Dá para imaginar quanta falta fará a dramatização diária no rádio do Luiz Carlos Martins, falando de amor e desamor.





