Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Paraná e Alagoas
A equipe do governador Jaime Lerner considerou despropositada e injuriosa a comparação que o senador Requião fez entre o Paraná e Alagoas e o processa por esse motivo. O candidato do PMDB diz dar graças aos céus por essa oportunidade para demonstrar o estado das finanças públicas.
Como se vê, a campanha eleitoral vai ser tediosa e, se continuar nesse ritmo, lá pela fase dos programas gratuitos da televisão e do rádio, o público não terá outra alternativa que não a de desligar a máquina de fazer doido ou buscar um lazer num canal a cabo. Nesse ramerrão não se discutirá um só problema real e o respeitável auditório ficará sem saber o que pensam e o que pretendem fazer os postulantes.
O presidente FHC processa Lula porque este insinuou que a ânsia em tocar a privatização das teles visava ao caixa dois de campanha. É um juízo que em parte extrapola certos limites, mas não tem a carga pretendida de dolo para fundamentar a ação proposta. O problema numa campanha eleitoral é que os atos mais afirmativos pesam como fator emocional, mesmo que projetem aparências e não atitudes concretas.
Como é indispensável reagir, aparentando inconformismo e indignação, quem mais sofre é o Judiciário com a sobrecarga de processos e, na sequência dos quais, se perde, pela ordem tumultuária dos acontecimentos, a noção do que é realmente relevante e emergencial, daquilo que visa efeitos e criar fatos políticos que deveriam ser buscados no horário gratuito e nos comícios. E nesse particular todos concorrem, com igual intensidade, para saturar e até engessar a Justiça Eleitoral, enquanto tentam imobilizar os adversários.
Se o Paraná é um modelo, como diz Lerner, ou o caos, como sugere Requião, não é assunto para o Judiciário e sim temário obrigatório de campanha. Essa busca de resultados no tapetão deve ser debitada à nossa imaturidade política e falta de vivência efetivamente democrática. Pretende-se a um só tempo esvaziar o repertório da campanha no TRE, como também fulminar, pelas impugnações, os adversários. O que parece forte dissimula, na verdade, extrema fraqueza.
Em Alagoas, lembrada como paradigma negativo, tanto o governo do Paraná atual, como o anterior foram negociar com títulos públicos, sabidamente sem lastro, o que os torna culpados da mesma e inaceitável leviandade.
BIZARRICE
Dentro de duas semanas o brasileiro viverá o calvário da campanha gratuita. Coincidência forte é que o primeiro a aparecer será Jesus, do PSTU. Mas aí os crucificados seremos nós, vítimas do bestialógico
AXIOMA O advogado Daniel Godoy diz que Requião, ao lembrar nas rádios que é o presidente da comissão que facilita ou dificulta concessões, não está fazendo ameaça. Não faz tempo existiam revistas com o nome Polícia Federal ou Receita Federal. O corretor de anúncios não precisava intimidar, bastando gritar o nome da publicação como alguém que se identifica na hora de entrar na sala de um cliente, um posto de gasolina, uma empresa comercial. No caso, ele agia como aquele provérbio machista árabe que manda bater na mulher e que o autor pode não saber porque está batendo, mas ela saberia porque está apanhando. Era comum, no caso lembrado, a correria, pois aquilo operava como a sirene da própria polícia. Rigorosamente não havia também intimidação.
GLOSA Rainha quer Lula mais agressivo, menos light e menos voltado para agradar a clase média. Se o fizer, perde os referenciais: não ganha o voto dos pobres, que em maioria vota nos que têm jeito de mocinho ou de rico (vide o confronto anterior com FHC e o outro com Collor), e acaba não recebendo apoio das classes média-pobre e média-média.
SPRAY Essa papagaiada da venda do Presídio do Ahu, em Curitiba, é mais velha que Matusalém. No governo Hosken de Novaes e antes mesmo com Ney Braga, segunda gestão, já se tratava do tema e que continua enrolado. Está com cheirinho de uma grande jogada imobiliária. - Urge, aliás, que os defensores do patrimônio artístico e histórico se manifestem contra a derrubada do prédio. Houve aquele episódio inexplicável na gestão Rafael Greca, da demolição da fábrica de pianos Essenfelder, que estava listada como tombada. - Deve estar sendo craneada restauração postiça, fajuta, como aquela do Shopping Mueller, para ajustar a edificação a alguma finalidade nobre, comercial. O Curitiba Shopping foi uma fórmula mais decente de aproveitamento de uma edificação histórica. - Para os moradores da região, o fim da Prisão Provisória é um motivo de preocupação: é que hoje os vizinhos se sentem seguros com a polícia perto. - Aliás, bem perto dali há duas torres na Avenida Anita Garibaldi que burlaram todas as regras de urbanismo, ainda na gestão Requião. Mas Lerner, até por ter ficado mais tempo (três gestões) na Prefeitura de Curitiba, cometeu desvios bem maiores. - Depoimentos de Nestor Baptista e do ex-governador Mário Pereira, embora não sejam conhecidos em detalhes, não favorecem a afirmação de Joni Varisco, de que Requião houvesse dado ordens para a perseguição e execução do líder sem-terra Teixeirinha. - O impacto, produzido pela morte dos três PMs descaracterizados em Campo Bonito, só poderia exigir firmeza do governador de então, o que não implicaria em ordem de execução, mas uma resposta para evitar a perda de controle da própria corporação. - Idealistas ligados ao movimento sem-terra e integrantes do governo, como Horácio Martins, se exaltaram, alegando que a ordem para prender os assassinos (o que não era fácil pelo número de participantes na rixa), teria funcionando como uma chave para a execução. - O fato é que suspeitos foram, mais tarde, torturados na Cadeia de Cascavel e isso acelerou a concessão de liberdade provisória, pois naquele momento até a Comissão de Direitos Humanos da OAB foi deslocada para o Oeste. - Há dois vídeos: um com a versão do governo e outro com a dos sem-terra e que possivelmente vão acabar aparecendo na campanha eleitoral. Há, também, livro de autor regional sobre a tragédia de Campo Bonito.
FOLCLORE Agora só falta, para complicar o quadro eleitoral, voltar o Afrânio, aquele motorista que encenou o Ferreirinha na farsa de 1990. Por sinal que curiosamente a Justiça Federal de Foz do Iguaçu está intimando João Ferreira, vulgo Ferreirinha, por edital. Mais vale ser anônimo do que homônimo.
CROMO Guri precoce aquele mais preocupado com a Monica Lewinski, aquela que diz ter transado com Clinton, do que com a outra, poética, do Estação Plaza Show.
AFORÍSTICO Políticos não conseguem, nem com muito esforço, recuperar a dignidade perdida dessa atividade, hoje tediosa como nunca.





