Luiz Geraldo Mazza
Bumerangue contra Lerner
Cogita-se de um acordo para não tocar nos problemas do Banestado no horário eleitoral. Como o saneamento, na base dos R$ 4,1 bilhões, o acordo permitirá que se metabolize tudo o que de degradante e de prejuízo ocorreu numa espécie de anistia branca, tal qual o acordo que favorece Álvaro Dias para o Senado. Se isso efetivamente acontecer, o que evitaria mais ‘‘arranhões’’ na imagem do estabelecimento, hoje em ofensiva para recuperar-se com anúncios testemunhais, quem desejar saber coisas do banco deverá viajar para Sergipe. É que lá as negociações tumultuárias do candidato, líder das pesquisas, João Alves Filho, com a Leasing Banestado são um dos pratos mais apimentados da campanha.
O semanário ‘‘Cinform’’, que está proibido de nominar a empresa beneficiada pela Justiça, publicou na última edição, que circula até depois de amanhã, um editorial intitulado ‘‘Quer saber mais sobre João? Consulte o site do Requião!’’ E faz referências às relações entre Lerner e João desde os tempos da ditadura em que o escritório do arquiteto prestou serviços ao então prefeito de Aracaju nas célebres propostas urbanísticas.
‘‘Mas as afinidades’’ - diz o jornal - ‘‘eram tão comuns que até se juntaram num só partido e estão, por coincidência, disputando o mandato de governador - Lerner à reeleição e João o retorno ao Governo depois de quatro anos fora do poder. Com mandatos, devem pensar, ficam fortalecidos para abafar apurações de escândalos contra o Tesouro e ‘‘liberados’’ para cometer outros novos...’’
Havia aquele anúncio em que gente de outros estados desejava que o Paraná chegasse até eles. Chegamos - e através de fraudes - a Sergipe. Por obra e graça de um dos mais prestigiados secretários do governo, promovido depois de feito o estrago (para o público, é claro) na Leasing.


FOLCLORE
Um médico proctologista (aquele que faz o toque para examinar as condições da próstata) foi candidato a deputado estadual em Curitiba lá pelos anos 50. Ao lado de sua foto nas propagandas, os gaiatos escreviam: ‘‘Um dedo a serviço do povo’’



AXIOMA Lerner vai aparecer num outdoor, a partir de amanhã, ao lado de FHC. Embaixo de Fernando Henrique a frase ‘‘Segue em frente, Paraná!’’ e na do governador, ‘‘Avança, Brasil’’. Essa identificação, já bem sucedida na última eleição dos dois, deve render frutos. E de outro lado sugere que Requião faça o mesmo com Lula, o que lhe seria fatal em termos de contágio negativo.
GLOSA Hoje vai ser o auge do melodramatismo quando os candidatos da latinha se despedirem dos seus ouvintes e telespectadores: haverá lágrimas, discursos candentes de fidelidade e o até breve para depois da maratona cívica. Engov, Engov, mil vezes Engov e que não seja falsificado.
BIZARRICE O fotógrafo Nani Góis, um dos melhores do Paraná, nesta época vira ‘‘santeiro’’, isto é, faz ‘‘santinhos’’ para candidatos. Dias passados, um candidato do PFL havia contratado os seus serviços profissionais, mas na hora aprazada mandou um assessor desculpá-lo: é que havia sofrido acidente durante um comício, ao engolir o pivô da parte frontal.
Pior do que isso, mas sem dúvida mais espirituoso, ocorreu com um candidato no tempo do milicos que, ao entusiasmar-se, expeliu a prótese dentária e, desculpando-se, arrematou que a derrubada da dentadura podia ser um sinal próximo da queda da ditadura. Aplaudidíssimo, aproveitou a deixa para buscar a ‘‘perereca’’ no meio da feijoada e devolveu-a à boca, amarrada num toucinho.
Como se cospe também se engole, e isso aconteceu com Maurício Fruet que, ao escancarar a boca, num gesto indignado contra os militares, engoliu uma borboleta em pleno discurso. Só faltou sair cantando aquela peça que tanto gostava: ‘‘Voa, minha linda borboleta// Voa, procurando a ilusão// Voa porque a vida é tão boa// quando se tem um amor no coração//’’
SPRAY Dobradinha comida é um prato sensacional, desde que se confie no serviço de lavagem adequada do bucho. ‘‘Dobradinha’’ política pode ser indigesta: em Colombo, tanto Lerner quanto Requião estão irritados. Requião com o ex-prefeito Strapasson por formar dupla com o federal Joaquim dos Santos Filho, do PFL, em lugar do seu irmão Maurício; Lerner, com Santos Filho, por vincular-se a um aliado do senador. - Todavia as coisas não param aí: em Francisco Beltrão, o candidato a federal Celso Zanata, do PMDB da região, ficou louco da vida com Caíto Quintana (candidato a estadual), que dobrou com Maurício Requião. Se o senador sair por aí prensando candidato a estadual - como fez com as rádios na base do ‘‘carteiraço’’ - em favor do irmão, vai dar guerra das boas. - Emmanuel Publio Dias contesta a versão, que chama de lenda, de que Tony Garcia, com mais 15 dias de campanha, pudesse vencer José Eduardo na eleição para o Senado em 1990. E sintetiza: ‘‘Tony Garcia é apenas uma opção estética do voto nulo’’. Mas o desejo de votar branco e nulo nesta eleição senatorial não é absolutamente desprezível, ainda mais quando se conhece os detalhes do acordo branco e que um dos contratantes finge não ter existido. Engov, de novo. - Patriotismo no Brasil é sazonal: Semana da Pátria e Copa do Mundo retomam o culto à bandeira. Depois da Copa, os símbolos saem dos prédios, das janelas e sacadas, dos postos de combustíveis, das lojas comerciais. Voltam, em menor intensidade, no início de setembro, para depois sumirem de novo. Mas é mais honesto do que patriotismo do tempo de Getúlio Vargas, Estado Novo, e no dos milicos pós-64, quando o verde-amarelo era uma camisa de força.
ANALOGIA Imaginem o nosso Jaime Lerner tendo pela frente um problema como o da privatização do sistema Telebrás. Quando decidisse fazê-lo, ao amedrontar-se com os arreganhos sindicalistas e ameaças de baderna, as teles não valeriam mais nada e estariam na sucata.
CERIMONIAL Paranaguá está bronqueada com o governador e com razão: ele não compareceu a uma homenagem e o fato deu um conflito no seu ‘‘staff’’ por causa da existência de agenda dupla: a de autoridade e a de candidato. É a difícil adaptação à realidade da reeleição. O que estão dizendo por lá é que se fosse o aniversário de Nova York, ele iria.
CROMO No aquário peixes coloridos fazem contraponto de repouso à televisão.
AFORÍSTICO Lealdade nas composições eleitorais, a busca do impossível.

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