Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O circo de Lerner
Bem sacada a idéia, que não é nova, de usar um circo na campanha eleitoral. Nada mais parecido com um teatro mambembe do que essas cruzadas mais cínicas, seja a de Lerner, de FHC, de Lula ou qualquer outro, do que cívicas. Como a concepção do espetáculo é indispensável à política, o picadeiro acaba se tornando essencial como definição mesmo do que se pretende.
Melhor, embora não tão moderno como o palanque eletrônico de FHC e menos ambicioso do que as marchas de Lula, que tentam recriar algo assemelhado às artes de Antonio Conselheiro, por isso mesmo mais postiças que alegóricas, o circo é um reencontro com a raiz das ações políticas que poderiam ter lugar na ágora dos gregos ou na arena dos romanos.
Com Lerner e sua troupe, tudo fica mais ao natural e por uma razão simples: o treinamento e a concentração são diários no Palácio Iguaçu, notadamente nas impagáveis cenas de patetices. Se Renato Aragão se sente inferior quando sabe das sacadas geniais dos governantes, o mesmo se daria com os três patetas do cinema norteamericano, Larry, Moe e Curley. É que estes encenam e aqueles fazem o exercício com a máxima naturalidade e seriedade.
Há um outro vínculo forte do circo, fonte da tradição teatral e em certos aspectos da ópera, de alta identificação com o brasileiro: o melodrama. Não há peça mais melodramática do que o discurso de horror à pobreza, que nada, absolutamente nada, acrescenta à condição dos excluídos, que continuarão existindo. E até em maior número, com a praga do neoliberalismo e a deificação do mercado como instância máxima da aventura humana, charlatanice antes praticada por supostos seguidores de Marx.
Como ninguém mais tolera tais coisas por muito tempo, criou-se o hábito da apresentação de shows com duplas sertanejas, bailarinos, artistas de vários talentos. Imita-se o brake comercial da tevê: de cada hora de show, 15 minutos (embora se fosse menos seria bem melhor) de discurseira.
Dos tempos remotos, lembro que uma das peças que mais emoções produziam era A Ré Misteriosa, em que, se não me falha a memória, no júri, ou o promotor ou o advogado de defesa mal sabia que a acusada era a sua mãe. Bem no estilo daquilo que Sófocles e Shakespeare, em certos aspectos, engendraram e o nosso Nelson Rodrigues perseguiu com tonalidade brasileira. Por falar nisso, um réu misterioso, falso, decidiu a eleição que levou Roberto Requião à vitória, o Ferreirinha. E tanto um como outro dos candidatos, dado o agito dos advogados, podem aparecer como réus nada misteriosos.
AXIOMA
Ontem, no jogo Santos x Atlético Paranaense, a inquietante pergunta: se quem não faz toma, quem toma não faz?
GLOSA O caráter chocho da campanha eleitoral está surpreendendo. A essas alturas já era para haver denúncias candentes e baixarias fantásticas. Assim mesmo está divertido o fato de Cândido Martins de Oliveira, da Casa Civil, responder a todos os ataques a Requião, com uma contundência equivalente, como se deu em Castro, quando o secretário disse que o senador dá meio Gardenal para o seu cachorro e a outra metade ele toma. Só falta Requião, sugerindo que se engana no uso da palavra, referir-se, em resposta, ao chefe da Casa Servil.
BIZARRICE Max Rosenmann, candidato a deputado federal, foi às bases em Tijucas do Sul e notou o seu eleitorado com um ar esquisito, constrangido, como se procurasse não encará-lo. Aí um dos seus antigos cabos eleitorais explicou: Joaquim Santos, do PFL, acertou com todo o mundo. Só que ele usava a expressão comprou e se vendeu. A lista era enorme e Rosenmann estava perdendo as estribeiras e meio distônico, quando o informante, num gesto de quem faz uma confissão lá do fundo da alma, fulminou: E eu também se vendi. Rosenmann perdeu os votos, mas não o humor, e caiu na gargalhada ao imaginar que o Pasquale Cipro Neto pudesse estar ali por perto, de plantão.
SPRAY Aquilo que previ aconteceu: a duplicação da Rodovia do Café não passava de um embuste. Muito antes da redução do pedágio, a Rodonorte já havia abandonado as operações. - Fui (e retornei ontem) a Paranaguá e constatei que as condições da estrada são boas. Há um erro de engenharia na praça do pedágio facilmente identificável: da catraca até a retomada da estrada, o afunilamento é rápido demais e antecipa o engarrafamento. - Em Paranaguá, que comemorou ontem 350 anos, fui homenageado juntamente com os jornalistas Abdo Aref Kudri, que é da terra como eu, e Francisco Cunha Pereira, por nossos esforços pela integração paranaense. - Muito bonitas as comemorações, feitas com bom gosto, tanto a do Museu de Arqueologia, As canções do mundo embalam a cidade-mãe do Paraná, como a dramatizações do Aterro do Mercado, junto ao Rio Itiberê, do descobrimento e da fundação da vila. - Há um empenho, agora melhor concatenado, para recuperar o casario histórico, inclusive o Solar dos Veiga, meus parentes, no qual se pretende erigir um teatro. - É preciso mudar a escala do turismo na região, especialmente no que diz respeito à exploração de barcos para passeios nas baías. - Quanto à economia, indispensável se torna, no meu entender, reduzir o possível da dependência portuária, inclusive no que diz respeito à industrialização, para assegurar cargas de retorno a vagões e aos caminhões com o que se reduz custos de transporte, ainda mais depois do pedágio. - Crise na Ceasa, com dezenas de boxes abandonados por problemas de inadimplência generalizada. O impacto é terrível, porém tudo pode piorar, uma vez que anunciam um estacionamento que encarecerá ainda mais os custos, embora melhore as condições operacionais. - O governo federal foi ousado ontem com o leilão das teles: como nos casos de Volta Redonda, da Vale do Rio Doce, o que parecia impossível aconteceu. Os que perderam a batalha acham que dói depois.
FOLCLORE Mais um chuncho, criativoso por sinal, do governo atual na emissão fantasma de selos para o Diário Oficial. Muitos consideram esse jornal o único de verdadeira oposição existente no Paraná por causa do excesso de veículos de caráter chapa branca. Ocorre que o administrês é indevassável ao leitor que não entende bulhufas do que está escrito e que mais oculta do que revela, tal qual essa história do pedágio. A operação foi feita com uma franquia do Correio, em notas calçadas de emissão de selos que não haviam acontecido: só a grana teria circulado. O Tribunal de Contas sacou a bosta restante.





