O carnaval começou antes: anteontem, na frente do Banestado, agência Murici, um carro de som do sindicato dos bancários (com o indefectível Serginho Ataíde no microfone tentando mexer com os apavorados funcionários que tinham perdido o direito às horas extras), fazia suas proclamações habituais. Naquele mesmo dia, a Folha destacava na primeira página a intenção daquele banco, em notória crise (mais de R$ 800 milhões incobráveis, negociações sem saída no setor de leasing que desfigurou sua atuação fora do penhor mercantil), de descartar 2.600 funcionários num processo lento e gradual, como o do dentista antigo que arranca o dente, mas antes fica trocando de algodão para condicionar o cliente ao sacrifício.
Não se discute a necessidade de ‘‘enxugar’’ não apenas os bancos estaduais como também os privados em função óbvia das novas realidades. Aliás - e o nosso banco, o Banestado, é o melhor de todos - há quem entenda que os estaduais deveriam estar listados na primeira linha da privatização. Mas os políticos querem a sua manutenção porque ele produz moeda e permite os abusos que nós conhecemos dos empréstimos nunca honrados e ainda por cima com juros especiais e, no tempo da inflação, delinquentes.
Os bancários, como os sindicalizados em geral, estão quase imobilizados. Se os petroleiros quebraram a cara ao desafiarem ao mesmo tempo o governo e a sociedade, posta em alguns instantes como sua refém, dá para imaginar o drama dos trabalhadores públicos em geral, os mais visados pelas campanhas da moda, carregadas de preconceitos e clichês.
Com o descarte, por método, da praga neoliberal em escala mundial (se na França derrubam os fundamentos do Welfare State dá para imaginar o que se fará num país selvagem como o nosso e com a elite fascista que temos), o quadro é desolador, ainda mais diante de um governo hipertrofiado, arrogante e ditatorial, como o brasileiro. Por isso não há outra alternativa se não a de luta, mesmo que regougada, balbuciada, nos locais de trabalho. Quanto menor a resistência, maior a violência.
Agora só falta atribuir aos trabalhadores o festim que os políticos fizeram no Banestado: os inadimplentes, como aquele dirigente de partido que tomou R$ 1 milhão e não pagou, ficarão livres de qualquer sanção, as irregularidades múltiplas não serão processadas e punidas, os lucros gráficos de balanços surrealistas prosseguirão. A situação é tão delicada que aquilo, que se aponta como aético - o patrulheirismo da turma do PT - passa a ser indispensável. Tanto para salvar o banco quanto para preservar empregos.
BIZARRICE - Peemedebistas, que se dizem na contramão no processo brasileiro, como os seus deputados na Assembléia Legislativa, acham um absurdo FHC aspirar à reeleição, mas encaram a de Aníbal Khury na presidência com um realismo de Sancho Pança. São piores, muito piores, do que aquele a quem prestam tamanha vassalagem.
SPRAY - Mais um cartório, provavelmente para os amigos, como é da tradição, vem aí: a vistoria eletrônica dos automóveis. Como se vê, embora necessário que isso se faça pela iniciativa privada, não escapará das coincidências que marcam os negócios na área pública. - Ninguém contesta a necessidade desse controle, pois basta andar em qualquer estrada brasileira, onde são bem mais perigosos, ou mesmo em vias expressas para se perceber a frequência com que aparecem verdadeiros fósseis mecânicos como ameaça a todos. - É tão chato ver as chamadas licitações que o ideal seria dispensá-las sob o fundamento da calamidade pública (aliás vivemos sob ela em todos os campos, inclusive no do controle administrativo) ou o da notória especialização. - Era indispensável fazer algo para que essa vistoria não lembrasse as patologias das Ciretrans e despachantes. Está aí um campo em que a criatividade seria bem recebida. - A polícia desativou o ‘‘disk-pileque’’, porque não houve solicitações, ainda que sobrassem os bebuns. - Carnaval de Antonina sem as escolas de samba Capela e Batel é como o de Curitiba sem a Gilda, o travesti que a animava e que com sua morte aplicou a pá de cal na festa da capital. Com o fim do baile do Operário e do concurso dos travestis (vinham deslumbrados de todo o País), restou apenas a Bem Bolada da ‘‘Tribuna’’. Quem sabe o bloco dos evangélicos crie o fato novo que todos esperam como no teatro se aguarda a chegada de Godot.
FOLCLORE - O grau de colonização do governo brasileiro é assustador: contratou consultorias internacionais para ditar modelos de licitação da Vale do Rio Doce e agora negociou com um especialista norte-americano a tarefa de avaliação das novas jazidas. A falta de memória de FHC é impressionante: seu pai, o general Leônidas, um dos fundadores da Petrobrás, foi um dos injuriados pela concessão ao geólogo ianque, mr. Link, do relatório sobre o petróleo no país e que ele dizia não existir em condições de exploração econômica. A história se repete como farsa porque temos mais farsa do que história. E isso é a nossa tragédia. Ou melhor tragicomédia.
CROMO - Rato não dá poesia, mesmo com o Jerry ou a Minie e o Mickey ou ainda o Toppo Giggio. Dá leptospirose, que também não é poética, mas não deixa de ser ecológica por decorrer de rupturas das malhas do ecoambiente. Aos poucos vejo aquela folhinha verde da logomarca de Curitiba e do Paraná roída pelos ratos, vaca sagrada de nossa terra.
AFORÍSTICO - Um confronto entre Sérgio Motta e Jaime Lerner não ficaria bem no carpê de um palácio como o Iguaçu ou o Alvorada e sim num tatame de sumô.

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