Luiz Geraldo Mazza
O prefeito como eleitor
Se o presidente FHC considerar o prefeito um eleitor-chave atende, pelo menos em parte, o chio municipalista que vai dar margem à enésima e provavelmente inócua marcha a Brasília. É verdade que mexer nessas coisas afeta a austeridade da estabilização, atingida pela redução da taxa de juros, do IOF e agora do IPI para aquecer venda de carros. E Lula vai regougar que se trata de medida eleitoreira, como se um pleito fosse uma disputa ética e de homens de honra, o que está cansado de saber que não é. Como, aliás, Requião acusou a decisão de Lerner de rebaixar o pedágio, como se estivesse interessado na alta e, mais do que isso, na justificativa de que vai extinguí-lo, se eleito for.
A influência dos prefeitos é relativa. Em 94, a maioria apoiava Álvaro Dias e, na sequência das eleições, passou para Lerner por uma questão igualmente de realismo. Como os municípios andam matando cachorro a grito e o governo atual tem dezenas de convênios que abrem possibilidade para investimentos à prefeitada, é da maior convência estar de bem com o poder mais próximo, pois o federal tem a distância da lua.
Hoje a maioria dos burgomestres está com Lerner, mesmo os de uma suposta oposição do PMDB (vide os casos ontem relatados do Sudoeste, em Francisco Beltrão e Dois Vizinhos), do PSDB (Gianotto, de Maringá, e Tezelli, de Campo Mourão) e múltiplos do PDT, que o Nelton Frederich ameaça patrulhar à exaustão, o que também soa inútil, ainda que renda noticiário.
Tudo depende da efetiva liderança do prefeito que nas comunidades menores tem uma força equivalente à que antigamente era atribuída ao padre. Se estiver, no entanto, com uma gestão degradada pode se transformar num gol contra. Depende, portanto, de empenho, concentração e liderança efetiva.
O maior eleitor de Lerner em Curitiba, acima do próprio mito metropolitano, é o prefeito Cássio Taniguchi. Sóbrio ao extremo, surpreende a todos e, para desespero de muitos, o acham melhor do que o governador. Sacrificado para corrigir os exageros festivos do seu antecessor, que o levaram a fazer uma antecipação de receita orçamentária na ordem de R$ 50 milhões, Cássio se revela um timoneiro incomum e com um detalhe: sem substituto na área política porque na de planejamento há outra grande figura, o Miguel Salomão.
A confiança numa votação excepcional em Curitiba e região é o fundamento maior do otimismo das cabeças mais frias do QG de Lerner, porque a maioria não pensa, no seu papel ridículo de áulico incondicional. E isso é estratégico porque Requião também tem presença nesse tabuleiro geopolítico da Capital.
Já no interior, no caso das grandes cidades, a adesão de Belinati em Londrina é, também, relevantíssima, e nas de médio e pequeno porte, o prefeito pesa.
Em tais condições só o acúmulo de patetices e burrices pode evitar a vitória de Lerner. Mas essa ‘‘virtude’’ em sua equipe não deve ser subestimada, inclusive a falange presunçosa dos marqueteiros.


AXIOMA
Pelos personagens que temos na cena política e seus respectivos biotipos, se criássemos uma revista para destacá-los na linha da ‘‘Caras’’, dava para lançar a publicação ‘‘Barrigas’’. Livre para todas as ‘‘barrigadas’’



GLOSA Depois do ‘‘macuquinho-da-várzea’’, aliás encontrável num loteamento de chácaras de São José dos Pinhais, ao lado da BR-277, só falta aparecer a lesma ‘‘cor do burro quando foge’’ para que um biólogo a defenda e imponha a criação de um parque.
BIZARRICE Façamos um cadastro das equipes de Lerner, de Requião, Álvaro Dias e chegaremos à constatação de que a ausência de quadros é radical. É claro que de quadros humanos, pois quadrúmanos até que existem em maior quantidade do que o ‘‘macuquinho-da-várzea’’.
SPRAY Um dos questionamentos que advogados estão fazendo nos problemas de trânsito diz respeito à confiabilidade de equipamentos (radar, bafômetro) e a exigência do registro do Imetro, certificando-lhes precisão e qualidade. - O Rio Cubatão, de Santa Catarina (no Paraná há um com o mesmo nome e que deságua na Baia de Guaratuba e em ambos há programação de hidrelétrica), a pretexto de obras de contenção de cheias, está sendo destruído: o leito revolvido e feita a retirada das pedras roladas deslocadas para a construção da BR-101. - Espanta o fato de os ambientalistas não terem criado um caso em cima do tema. Aliás, a retirada de material do leito se dá também no São João. - O ex-governador João Alves, de Sergipe, que fez operações com a Leasing Banestado (e até junho permanecia inadimplente), conseguiu na Justiça censurar o jornal Cinform, que relatava as suas operações e do genro José Edivan Amorim. Não pode impedir, no entanto, que os fatos sejam divulgados pela Internet, via site do senador Requião, que chega ao requinte de divulgar atas internas do Banestado. - Imprensa nacional está em cima do assunto: agora é a vez do jornal ‘‘O Globo’’, e outros veículos que correm atrás das informações que constrangem o governo. O juiz de Aracaju, que despachou favoravelmente um pedido de cautelar, não terá como impedir a informação que vier por jornais do Rio e São Paulo e da Internet. - O governador do Paraná vai ficar extremamente exposto nesse episódio, já que deve ter sido de sua orientação o informe oficial de que João Alves nada devia, o que o está habilitando também a processar o Banestado por perdas e danos. - Como Lerner promoveu o autor das façanhas, Osvaldo Santos, detonador da Leasing, a secretário de Esportes, e cercando-o de prestígio revela-se refém ou então vinculado pessoalmente com irregularidades que podem agora jogar pra baixo do tapete, com o saneamento e a privatização do banco.
FOLCLORE 1 No Sudoeste, no palanque, a ‘‘miss’’ Francisco Beltrão apagou a imagem do governador Jaime Lerner, menos aplaudido. Aí um tucano, que estava no local, observou: ‘‘Imaginem a ciumeira que daria se Álvaro Dias estivesse no palanque comum’’.
FOLCLORE 2 Pinta no comício o prefeito de Boa Esperança do Iguaçu, Alberton, que guarda alguma semelhança com Requião. Lerner, espirituoso, observou: ‘‘Quando eu o vi, pensei que até o Requião estava me apoiando.’’ Alberton não disse que confundira Lerner com Aníbal Khury, mas pensou.
CROMO Como declarar seriamente o amor quando se tem voz empostada de locutor?
AFORÍSTICO A Leasing Banestado pode ser o Waterloo de Lerner. É só aprofundar a investigação: nela não há como absolver o governador.

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