Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Os humores e as pesquisas
Confere-se às pesquisas uma certa aura científica, a despeito de todos os equívocos cometidos ao longo do tempo. À falta de outro aferidor - e pela consagração das metodologias - invoca-se a margem de precisão para adotá-las como indispensáveis nas sondagens de opinião pública, não apenas eleitorais, mas também de audiência, nível cívico, aceitação de novidades.
Mas há momentos impróprios para pesquisas como esse em que os registros oscilantes em função de alguns erros acumulados (chamar aposentado com menos de 50 anos de vagabundo, o que atinge aqui toda a oficialidade da Polícia Militar; não prestar atenção ao incêndio de Rondônia, e aos saques da seca) por parte de FHC indicaram uma subida artificial de Lula.
Imaginem o estado de espírito com que o eleitor, cercado pela violência e o risco de desemprego, assiste a tantas falhas presidenciais. O ódio ao patrão, o mau hálito da amante, a perda da milhar no jogo do bicho ajudariam, com esse caldo de cultura, a eleger o presidente como o culpado de tudo. E isso se dá aqui com Lerner também.
Até que ponto as titilações das hemorróidas (apesar de haver utopistas do marxismo que acreditavam que a sociedade sem classe poria fim a esse tormento e também à angústia e aos vermes, do oxiúrus ao áscaris lumbricóides) podem aparecer como sinal de distorção de uma pesquisa? Se o acúmulo de fatos negativos, tal como se deu com FHC, se ligarem a outros subjetivos em cima da figura do entrevistado, poderemos ter uma desfiguração do processo.
Há gente que tem posição marcada contra um político. É o caso do meu irmão de lutas, o Cândido Gomes Chagas, com relação ao Lerner. Transforma a sua bronca em monotema permanente e pega toda estirpe, de Rischbieter (de quem foi achar uma foto da irmã estudando em escola nazista), Schulmann e até o gótico Rafael Greca. Meses atrás, ao dar uma topada na rua e quase torcer o tornozelo, largou a frase: Ah! Judeu filho da mãe!. Lerner já estava substituído pelo Taniguchi, mas o sentido de catarse, que buscou no impropério, lhe fez bem, ainda que irritasse alguns dos circunstantes.
Candinho, dono da Paraná em Páginas, que maldosamente chamaram de Paranóia por causa dos seus alvos permanentes, foi processado por Lerner que chegou a ir até o SNI para prejudicá-lo. Ganhou tudo na Justiça, mas não perdoou o seu algoz, a quem concedeu, por algum tempo, indulgências caso tapasse aquele abismo da rua da praia em Guaratuba, transformada hoje em objeto de paixão do jornalista. Seu amor à cidade-praia é maior do que o ódio eventual. Mas o Candinho é uma dessas amostragens que não podem ser ouvidas em pesquisa. Como, aliás, muitos de nós, jornalistas ou políticos. No entanto, nós existimos, às vezes influímos e votamos.
AXIOMA
E foi olhando o clima do Palácio Iguaçu, menos do que a morte do Mussum e do Zacarias, que o Renato Aragão se sentiu superado
GLOSA Há ódios eventuais, circunstanciais, em política, da mesma forma que qualquer crítica ou hostilidade. Por exemplo: na campanha de Roberto Requião à prefeitura da Capital em 1985, Brizola foi caricaturado como um macaco e com um coração (aquele símbolo do Lerner) no traseiro. Agora estão juntos. Requião criou o Disque-Quércia denunciando o ex-governador de São Paulo como um exemplo de corrupção. Recentemente se aliaram.
Álvaro Dias nunca foi hostil a Lerner. Bastou perder a eleiçãopara que o barrasse na pretensão de ingressar do PSDB e agora dificulta até a formação de uma frente de apoio a Fernando Henrique em função do seu projeto pessoal.
Como dizia Magalhães Pinto, a política é como as nuvens: ora forma carneiros, ora rabo de galo. Magalhães esculhambava Lacerda publicamente e o elogiava no particular. Um dia, em momento crítico, Carlos sugeriu que fizesse o contrário: o atacasse, o mais violentamente possível, no particular e o agradasse em público. Magalhães cuidou de não se comprometer.
SPRAY Aníbal Khury, que já teve dificuldades para eleger-se como no penúltimo pleito, desta vez vai lavar a égua: terá votos em todo o Paraná. Uma das áreas em que vai surpreender é a de Ivaiporã. - Situações como essa é que explicam por que há tanta resistência à reforma política e ao distrital misto. - Gaúchos liberam pedágio em mais três praças: Vacaria, Santa Cruz do Sul e Gramado. Só que lá há mais cautela com os parâmetros tarifários. Caso contrário, isso poderia decidir a eleição em favor do PT, cautela aqui não tomada. - A lei tem vigência no tempo e no espaço, mas as decisões judiciais, não. Aqui, no Paraná, a oposição poderá mostrar na campanha eleitoal gratuita os chunchos da Leasing Banestado que beneficiaram políticos de Sergipe, entre os quais o candidato a governador, João Alves Filho; mas naquele Estado nordestino isso está proibido pela Justiça desde 23 de janeiro, por acolhimento de uma cautelar. - O pior é que João Alves vai processar o Banestado por ter dado circulação a suas negociações e as do seu genro com a Leasing. - Valdir Córdova Bicudo na mesa redonda da CNT: Onaireves Moura deveria estar preso. Bicudo, além de juiz de futebol, é assessor da Segurança Pública. - Melhoraram as condições de segurança em Curitiba e em parte da Região Metropolitana. Em Almirante Tamandaré fizeram uma limpa onde policiais agiam em comum acordo com delinquentes. Em São José dos Pinhais cai o nível de segurança e os taxistas da região fizeram um protesto ontem por causa de cinco assaltos a profissionais nos últimos dias. Segurança pode ser um item negativo eleitoral.
FOLCLORE Em Antonina, foi montado um circo e a maior atração era o anão. Os boêmios da cidade fizeram amizade com o ator e o levaram a todos os bares. A ressaca foi grande e o anão ficou sem condições de entrar em cena, algo assim como a falta do Ronaldinho no ataque da Seleção. Criado o problema, era, de fato, indispensável fazer algo, e pegaram um baixinho da cidade e o apresentaram como o maior anão do mundo, merecedor do Livro dos Recordes. Antonina tem também, segundo os parnanguaras, o maior mentiroso do mundo.
CROMO O que a flor tem a ver com o fruto: a do maracujá é mais bonita do que a fruta e mais ajustada que o seu sabor. A do pessegueiro também. A da pereira deu um poema de Helena Kolody, lembrando noiva de véu e grinalda.
AFORÍSTICO Das máfias existentes, a da política é uma das poucas legitimada pelas artes aéticas que cultua.





