Luiz Geraldo Mazza
A credibilidade
dos candidatos
O que é mais fácil: Lerner sustentar a luta contra as empreiteiras na baixa do pedágio em 50% ou Requião cortar a zero essa cobrança assim que assumir? Como é que o público olha essas posições divergentes ou em quem acredita é a questão-chave que as pesquisas até agora não resolvem. Haver bravata da parte da oposição é normalíssimo (Lula está às voltas com respostas que não consegue dar sobre a obtenção dos recursos para viabilizar suas promessas, que só seriam possíveis, segundo o assessor Mantega, se o crescimento do País fosse além de 5% ao ano, o que é um delírio) e o senador é um especialista na matéria, tanto que já prometeu denunciar os acordos com as montadoras e até anulá-los, o que não é tão fácil assim.
Aliás, até hoje vimos algumas brigas de Requião derrotadas na Justiça como a do ‘‘engessamento’’ das tarifas do transporte coletivo quando prefeito. É claro que quando Lerner acertou com o cartel, que entrava num processo grave de descapitalização, logo ao reassumir a prefeitura, Requião sugeriu que a pendência deveria continuar na Justiça e não ser alvo de acordo, com o que insinuava cumplicidade do seu sucessor. Esse sempre foi o seu estilo e, na hipótese de ganhar a eleição, pode até criar um foco de permanente tensão com os consórcios rodoviários, pouco se importando com as consequências como fez, por exemplo, com as invasões de terras diante da intervenção federal pelo STJ, no caso da Fazenda Can-Can, pelo qual o governo vai ser obrigado a despender uma fortuna por causa das perdas e danos provocadas no andamento da invasão e na insistência em descumprir decisões judiciais.
Por uma questão de estilo, é mais fácil acreditar na resistência, mesmo que temerária de Requião, do que numa disposição para a luta por parte de Lerner e que exija uma dose de determinação fora do comum. Lerner jamais teria, como se deu com Álvaro Dias, a coragem de brigar com o cartel barrageiro, como fez no caso específico da Hidrelétrica de Segredo.
Se abandonar o caminho dos panos quentes e da acomodação, o que surpreenderia, pode transformar a briga com as consorciadas do pedágio numa bandeira política de primeira grandeza, recuperando-se dos erros lastimáveis que cometeu nessa questão desde o início de mais uma sequência de trapalhadas. Esperar isso do governador é como pretender que o ator Carlos Moreno, dos anúncios Bombril, se transforme num Laurence Olivier. Parece improvável, mas não impossível.

CROMO
O céu estava nublado, mas a turma do Palácio, ao saber do retorno de Lerner, via no espaço nada menos do que uma aurora boreal


AXIOMA Para evitar choques no interior da corporação, o governador suspendeu a transferência do coronel Luiz Fernando de Lara para a reserva remunerada e o manteve no comando da PM. Permitiu, no entanto, que oficiais de elite como o coronel Mainguê fossem para a reserva por causa de uma situação criada pelo deputado Aníbal Khury ao derrubar o coronel Honório Bortolini, outra figura de elite da Polícia Militar.
GLOSA A Pirelli usou o craque Ronaldinho com os braços abertos como dominasse a Baía de Guanabara no lugar do Cristo Redentor. Aí a ‘‘Paraná em Páginas’’, edição de abril, projetou o craque como se voasse sobre a Praça de São Pedro no Vaticano. O curioso é que pouco depois um anúncio da Alitalia, comemorando seus 50 anos de Brasil, usasse o Cristo Redentor se sobrepondo à Praça de São Pedro. Sai Cristo, entra Ronaldinho, sai Ronaldinho, entra Cristo. E depois ainda há quem se espante de ver o Ronaldinho convulsivo. Além de voar do alto do Corcovado para a Praça de São Pedro, como substituto do Redentor, e ainda marcar gols, só tem que se mostrar em estado vertiginoso.
BIZARRICE O que é pior, perguntava aquele pessimista, ter um governo de mais falados do que falidos ou de mais falidos do que falados?
TOLICES A revista ‘‘ISTO ɒ’ interpretou o crescimento de Requião como resultante do apoio da frente de esquerdas, que não soma coisa alguma no Paraná. Sondagem do dia 16 deste mês registra 39,4% para Lerner e 31,3% para Requião. Não há o mínimo fundamento na análise, tanto que Lula, na região, continua apanhando feio de FHC: 44,5% a 25,5% quando na média nacional, conforme a Brasmarket, FHC ganha de 38,8% a 28,1%. É prova clara de que a esquerda no Paraná não sensibiliza o eleitor, ainda mais com a soma de Brizola, sempre detentor de níveis baixíssimos de votação.
Se essa rejeição a Lula, que não é pequena, contaminar a candidatura de Requião, não será de surpreender que o senador se torne mais discreto diante do seu aliado nacional. O que facilitou a drenagem de apoios a Requião, conforme essa e outras pesquisas, foi a desistência de Álvaro Dias. Todavia, se ficar nítido que Lerner e Álvaro se ligam a FHC, de forma inquestionável, apesar dos fatores que os afastam (e que provavelmente determinaram a transferência do encontro de Maringá com as cooperativas), o quadro muda outra vez.
Outra inocuidade da pesquisa é o foco sobre um quadro inteiramente superado como o de Emília Belinati estar ainda concorrendo ao Senado. Nedson Micheleti, com apenas 1,6%, é outra exuberante prova da avitaminose à esquerda.
SPRAY Há 13 regras que o Banestado deve seguir no seu termo de compromisso com o Banco Central, e dentre elas uma de difícil ajuste: ‘‘Limitação das despesas com publicidade e propaganda, tomando por base indicadores do setor privado, para instituições do mesmo porte’’. - Racional, sob um ponto de vista técnico, e incompatível com a ‘‘cultura’’ desenvolvida ao longo do tempo e visível no fato de o Banestado patrocinar, a três por dois, quase todos os telejornais, mesmo os de rala audiência. - Há, no entanto, maior sobriedade na política atual com anúncios testemunhais visando a credibilidade da casa.
FOLCLORE Hoje a CBN faz debate nacional das 9 às 10h30 sobre as razões pelas quais o Brasil não levou a Copa. Em 1970, os coleguinhas Valmor Marcelino, hoje convalescendo de uma cirurgia cardíaca, e Carlos Alberto Pessoa escreveram um livro em que mostravam aspectos negativos da preparação sob Zagallo. Para promover o livro usei título forte no caderno esportivo desta Folha: ‘‘Por que o Brasil vai perder a Copa?’’. Muitos acusam os autores de terem afirmado isso, o que não fizeram, embora seu tom pessimista. É que brasileiro lê pouco e entre um jornal e um livro prefere aquele mais leve. Grande só a lista telefônica, por ser indispensável e adequada a consultas.

mockup