Deputados federais do Paraná, vinculados ao PFL, explicavam ao ministro Sérgio Motta que regionalmente têm uma aliança antiga com Lerner e que ela tem sido frutífera ao partido e ao Estado. Faziam tais explicações constrangidos, porque o ‘trator’ havia prometido destruir Jaime Lerner, a quem chamou de ‘‘ficção’’ da vida política, pois não se empenhara, no que fez muito bem, em levar o deputado federal Fernando Ribas Carli a votar na reeleição de FHC.
Obviamente, os deputados paranaenses ficaram calados. Isso não é novidade, porque faz parte de um ritual de submissão bastante conhecido, aliás, o mais das vezes cumprido também pelos governadores quando chamados à ordem pelo poder central, independentemente do regime sob o qual se viva.
Ao ‘ferrar’ o governador Lerner, Sérgio Motta, que anda ultimamente enchendo a bola de Álvaro Dias, começa a precipitar o problema eleitoral no Paraná, adotando uma candidatura que ‘incha’ junto com o PSDB, até há pouco um partido regional com seções importantes em São Paulo, Minas e Ceará e que mandou o pudor às favas no seu pragmatismo quanto ao rigor doutrinário dos filiados. Batendo em Lerner da forma grosseira como fez, com uma deselegância que nem os militares exibiram no poder, faz relembrar o axioma de que ninguém chuta cachorro morto.
O perfil de Lerner, modernoso, é confronto apropriado ao do presidente FHC que, depois da vitória da reeleição e mais a das direções da Câmara e do Senado, cada vez mais se parece com o Rei-Sol, com uma hegemonia tão espessa que nega a democracia. Ao contrário de Brizola, Lula, Itamar e Sarney, que como contraste apenas fortalecem FHC, Lerner, embora não esteja com seu nome tão difundido em termos nacionais, é mais ‘palatável’ do que qualquer um deles como opção. Todos se ligam ao arcaico, ao patrimonialismo, populismo barato e tantas referências inaceitáveis no quadro atual. Lerner é o moderno de linha alternativa. Essa é uma argumentação que o PDT usará para convencê-lo, como fez outro dia o Vivaldo Barbosa.
Dispute ou não a presidência, Lerner vai entrar em choque com as forças do poder federal, pois na hipótese de encarar a reeleição enfrentará Álvaro Dias como uma espécie de ventríloquo de Sérgio Motta, o lado hard de FHC. E, convenhamos, é mais fácil encarar o intermediário do que o titular, até porque já o esmagou com extrema tranquilidade.
Voltando à omissão dos deputados, que ouviram as agressões do ministro ao governador e não o defenderam, é preciso concluir que com os aliados que tem, o governador dispensa adversários.
BIZARRICE - Espiridião Feres, presidente da Federação Paranaense de Futebol, não conseguia esconder a sua condição de atleticano e ficava doente, com olheiras profundas, quando seu time jogava. Uma noite no Couto Pereira, irritado com uma decisão do juiz, arremessou o guarda-chuva no gramado, que lá ficou, como se tivesse sido acionado por um atleta do dardo. Quando começou a chover, não sabia como convencer o bandeirinha a devolver-lhe o aparato.
FRANCIS - Jamais concordei com 75% do que o Paulo Francis dizia ou escrevia, até por haver assumido uma postura cosmopolita demais, de quem fala do centro do universo tentando fazer o papel do ‘colonizador’. Era, no entanto, importante para as instituições brasileiras, porque agredia pedagogicamente a nossa esquerda (meio morta e perdida, mas nem por isso incapaz de reagir) e nossos tabus patrimonialistas corporativos e sindicais, levando à reflexão.
Curiosamente no dia de sua morte caiu em minhas mãos o livro ‘‘Vida e obra do plagiário Paulo Francis’’, de Fernando Jorge. Quem ler esse livro ficará fã de Paulo Francis, tal a carga de ressentimento pessoal, de ausência de senso de humor, de confusão entre metáfora e realidade, linguagem figurada e documento. Esse efeito contrário, dialético, também ocorre com os destemperos do jornalista falecido que, provocando como fazia com a esquerda, ajudava a estabelecer matizes entre o seu radicalismo e o dos outros.
Da mesma forma que se apaixonou no tempo da guerra fria pelas teses mais à esquerda, Francis engajou-se no outro lado, o que lhe valeu admoestações fraternas e necessárias do mestre Galbraith no seu entusiasmo infantil pelo neoliberalismo em recente entrevista levada à televisão. Dava a impressão que fazia uma espécie de purgação de culpas pela insensatez dos tempos jovens e dirigida a um público, especialmente o do Rio, que ele sabia muito bem ainda cativo, em parte, daquele festivismo (haja vista a eleição de Brizola, a de César Maia e do seu sucessor, todos artistas do populismo).
De outro lado o traço caricaturalmente elitista da sua postura em matéria cultural rompia com a estagnação, induzia ao debate, pelo oceano referencial que ilustrava seus textos, nem sempre exatos, mas expostos com paixão e com talento. Para seus opositores, que não são maioria, pois Paulo Francis era um beneficiário da sociedade do espetáculo, permanece a observação de Nietzsche sobre a moral: ‘‘Prejudicamos nós, os imoralistas, a virtude? Quanto mais assestamos nossas baterias contra o príncipe mais ele se firma ao trono. Conclusão: é necessário disparar contra a moral.’’ O silogismo é válido.
FOLCLORE - Cada governo tem o homem pesado que merece: o Sérgio Motta de Lerner é o Gerson Guelmann. A diferença entre um e outro é da finura, do senso de humor e da inteligência. Pode-se ser duro sem parecer um beque de várzea.
CROMO - O relincho azul do hipocampo, a sonoridade eterna do caramujo desabitado animam de vida fictícia o museu feito aquário.
AFORÍSTICO - Quem falar mal do rolo compressor de FHC não pode calar diante da reeleição do Aníbal Khury na Assembléia.

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