Luiz Geraldo Mazza
Briga de cachorro grande
Empreiteiras, inconformadas com o ato unilateral do governador baixando as abusivas e delinquentes tarifas do pedágio, fazem o cerco político e até jurídico para defender-se. Foi delas - do ‘‘lobby’’ - que veio a notícia da existência de um parecer no Ministério dos Transportes recomendando que não houvesse baixa de tarifas em qualquer hipótese diante do risco de acúmulo de ações judiciais.
Não bastasse isso, o advogado do PSDB, Genésio Natividade, que já havia pedido a impugnação do governador Jaime Lerner, agora entrou com uma interpelação judicial junto à Vara da Fazenda Pública por causa da baixa de tarifas sob o fundamento de que o ato fere o objeto de um contrato bilateral, rompido, de forma unilateral. Traduzindo em miúdos, quer ‘‘melar’’ o processo para que retorne ao marco zero. Aí o interesse é claramente político, ainda que sob o pressuposto de preservar uma relação contratual que interessa a toda coletividade.
Claro que à oposição interessa que Lerner se enforque no cipoal das suas hesitações costumeiras, uma vez que considera, além de tudo, como Requião o afirmou, o ato de fundo eleitoreiro. Ocorre que também é eleitoreira essa preocupação em imobilizar Lerner, impedi-lo de baixar as tarifas, para que o povo e a economia sofram com esse desgaste beneficiando a oposição, pobre de propostas como todos sabemos.
Numa das reuniões entre o secretário Herwig e os concessionários, comunicando a decisão do governador de baixar o valor do pedágio, um deles, furioso, falou por todos dizendo que tal assunto não poderia ser sequer considerado. Enfim, querem ‘‘endurecer’’ e se o governador for inteligente, aceita a briga e a transforma numa bandeira eleitoral, agora sim, acuando, a um só tempo, tanto a oposição como a cupidez dos consórcios inconformados.
Está se dando uma interpretação extensiva a uma recomendação óbvia de um parecer, certamente para regular normas uniformes e evitar que esse novo tipo de relação gere pendências intermináveis, nas quais os empreiteiros são bem especializados, ao ponto de alguns deles terem mais advogados do que corpo de engenharia. Nada impede, porém, o governo, no direito ‘‘imperial’’ de um poder concedente de rever cláusulas contratuais sem ouvir a outra parte, ainda que correndo o risco das consequências. Essa ação unilateral está prevista em cláusula contratual.
Não fosse o governo ‘‘banana’’ e teríamos aí uma parada boa, fácil de se transformar em bandeira eleitoral. Mas com esse time situacionista dá para esperar tudo, menos determinação, coragem e clareza. E peito para jogar o povo contra as concessionárias e a oposição, que faz o papel de linha auxiliar na tese do ‘‘quanto pior, melhor’’. A briga é de cachorro grande. Poodle, por mais perfumado, nessa não entra. Nem para ‘‘sharpei’’, com aquele jeito enrugado como um dos litigantes.


AFORÍSTICO
O silêncio de Aníbal Khury ensurdece a área politica do Paraná num quadro de rebanho sem pastor, uma dependência de Velho Testamento



AXIOMA Lerner ‘‘amarelou’’? O fato é que as coisas não estão ‘‘azuis’’ no Palácio Iguaçu com as resistências erguidas contra a baixa do pedágio. E por falar em mimetismos, o PT quer tirar o vermelho da campanha eleitoral para que ninguém lembre do MST e suas falanges invasoras. E o lenço do Brizola vira ‘‘rosa-choque’’, como era a ala do PDT no Paraná?
GLOSA Revista IstoÉ chama Dona Ruth Cardoso de primeira ministra. Como o nosso presidente cada vez mais se parece com um monarca, teríamos parlamentarismo no estilo inglês ou espanhol.
BIZARRICE O empresário Joel Malucelli foi ao Cairo e acertou com um guia, que falava português, que ele baixasse em US$ 10 diários a sua remuneração. Ocorre que o guia encontrou alguém de Curitiba no hotel e que ‘‘entregou’’ Malucelli como um milionário que tinha até um time de futebol profissional. O guia reclamou, dando a ficha cadastral do turista, mas sem convencê-lo a desistir do abatimento acertado.
SPRAY Fosse Ney Braga o governador, os empreiteiros o ‘‘peitariam’’ como estão fazendo com Lerner? Dificilmente. Uma vez o cartel do transporte, quando Ney era prefeito, tentou acuá-lo com um locaute em que fizeram desaparecer os ônibus. Ney, como militar, pediu ajuda de caminhões do Exército, transportou o povo de graça e faturou a parada. - Outro que deu uma lição nesse aspecto foi o general Iberê de Mattos, prefeito de Curitiba, apoiado pelo então procurador Edgar Távora, e que deu um ‘‘suadouro’’ nas empresas de ônibus e conseguiu até arrestar a frota que estava escondida em São José dos Pinhais. - Impensável sugerir qualquer hipótese de força para quem permite que o Paraná seja campeão das invasões de terras e desobediência a ordens judiciais só para não parecer politicamente incorreto com horror de que os sem-terra sejam no seu governo o que foram as professoras para Álvaro Dias. - Por falar em sem-terra, aquele processo de Santa Isabel do Ivaí, em que um deles perdeu a perna, saiu já da Promotoria da Auditoria Militar e enquadra só os oficiais PM que intervieram no caso. O juiz auditor ainda não despachou. - Aliás, entre os fantasmas que podem ‘‘pintar’’ na campanha eleitoral estão o ‘‘Ferreirinha’’, pois há quem jure que o Afrânio (aquele motorista que encenou o pistoleiro) está vivo e também o ‘‘Teixeirinha’’, a vítima, junto com mais três PMs, na tragédia de Campo Bonito. - Osmar Dias, ao referir-se a Tony Garcia, disse que ele tinha problemas com a Justiça Federal e recebeu em resposta a estória das rezes superfaturadas do Uruguai, no governo Requião. - O fundamento do pedido de impugnação de Requião pelo PST é a existência da sentença na Vara da Fazenda Pública, da condenação do senador por ter recebido indevidamente o 13º quando prefeito. - O Judiciário vai ter função decisiva, tanto no TRE como em varas cíveis e criminais, nesse pleito que começa forte no tapetão. - Curiosamente até amanhã o Judiciário ocupa o Palácio Iguaçu.
FOLCLORE Orlando Carlini, iratiense, que disputa com o Betine, o Cai Bem, de Cambará, a condição de o mais mal humorado da Boca Maldita de Curitiba (e cá, entre nós, pela fauna circundante isso é pra lá de saudável) tem uma frase terrível sobre os limites da cidade-modelo de Lerner e Greca: ‘‘Aqui nem inimizade prospera’’.
CROMO Um prédio metálico de Curitiba reflete o firmamento: no sol os vizinhos chiam da luminosidade, mas vibram com o toque de cravo cor-de-sangue dos fins de tarde que ele reproduz. E quando o tom é cinza, ele se funde com o cenário como bailarinos do Alvim Nikolai.

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