Luiz Geraldo Mazza
Lerner ‘‘amarelou’’
Talvez contaminado pelo ‘‘cartão amarelo’’ que recebeu de toda a sociedade, não apenas pela forma como criou um pedágio extorsivo, como pela maneira atabalhoada com que o reduziu pela metade, isso sem falar das trapalhadas na montagem da chapa situacionista, o nosso governador ‘‘amarelou’’, mal de que havia sido acusado o Ronaldinho na decisão da Copa. Temendo levar um ‘‘cartão vermelho’’ nas eleições, reduziu unilateralmente, isso é sem ouvir a outra parte, o concessionário, a taxa do pedágio em 50%. Se fez isso agora, assim poderia ser tratado desde o começo, raciocinam uns. E outros, mais maliciosos e fornecendo armas para Requião, sugerem que isso só vai valer até o pleito.
Da mesma forma que Ronaldinho não pode ficar exposto a pressões, o governador, embora um pouco mais velho, também é filho de Deus e sujeito a crises provocadas pelo estresse. Qualquer pessoa normal, convivendo com os auxiliares e áulicos do Palácio Iguaçu, deve carecer de tratamento médico ao menos uma vez por semana. É burrice demais somada à vaidade e à prepotência, isso sem falar no coral dos puxa-sacos a prostrar-se diante do chefe na adjetivação empostada e no elogio anestésico às trapalhadas que merecem críticas, as mais agudas.
Há, portanto, uma versão para essa viagem inopinada a Nova York: Lerner, de fato, teria ‘‘amarelado’’ diante da sobrecarga dos acontecimentos e precisa de um repouso, de espairecer e, quem sabe, até para ver num jornal daquele país a exaltação dos seus feitos pelo seu amigo, Allan Jacobs, que o coloca em projetos internacionais como o da reformulação urbanística de Shangai, e bota Curitiba no ranking mundial das melhores cidades do mundo.
Outra versão sugere que é a única oportunidade, agora com a insurgência da campanha eleitoral, para se encontrar com a filha Andréa e com o complemento de que sua esposa, Dona Fani, queria passar seu aniversário fora. Nada disso justifica num momento em que um vulcão entra em erupção, o governador deixar o posto, quer para tratar de questões familiares e afetivas, deixando nas mãos do seu secretário de Transportes, Herwig, uma bomba de efeito retardado para acertar o ajuste das tarifas com os consórcios, quer para distrair-se, vendo por exemplo em lugar da Estátua da Liberdade mais um Farol do Saber do Rafael Greca. Pois, afinal, imaginar é preciso.


BIZARRICE
Jô Soares, Onze e Meia: ‘‘Se o Brasil foi vice, por que o Marco Maciel não se encarregou de receber a Seleção em Brasília?’’



AXIOMA Os problemas que Osvaldo Santos deixou de herança para Lerner e o Banco do Estado do Paraná criam raízes: o ex-governador de Sergipe João Alves, ora candidato à eleição, está processando o Banestado por abalo de crédito em vista das denúncias formuladas no Ministério Público em torno das famosas operações feitas na Leasing. Só falta o governador nomear o autor de todas as façanhas para o Tribunal de Contas.
Em parte, Lerner ajuda a fundamentar a ação de João Alves. Se promoveu a secretário o gestor da Leasing, presume-se que tudo está corretíssimo, inclusive agora esse processo contra o Banestado. Gol contra é uma arte.
GLOSA Com a explosão do shopping na novela ‘‘Torre de Babel’’, muita gente se lembrou do episódio real da ocorrência de Osasco e que deu margem a um posicionamento sistemático da mídia, parcial, e que agora os testemunhos de especialistas mudam a versão dominante de que os culpados teriam sido os administradores do complexo comercial.
Anteontem o jornalista Luis Nassif, da ‘‘Folha de S.Paulo’’, fez a defesa de Dona Ilka Marinho de Andrade Zanotto, mãe de um dos empresários, Marcelo, que transformou o assunto em cruzada com a experiência de quem militou na crítica de teatro no ‘‘Estadão’’, TV Cultura e revistas ‘‘Visão’’ e ‘‘Istoɒ’ e que montou um dossiê pericial na salvaguarda do filho, demonstrando coragem em denunciar os desvios da mídia ao não dar a informação contrastada.
SPRAY O circo está armado: todos os candidatos ao governo e ao Senado impugnados. Depois querem que o povo leve a sério a política. - Ganhar no tapetão, antes de o jogo começar, é típico da vocação fascista, do longo aprendizado do Estado Novo e do pós-64. - O pior é que a Justiça vai ter que olhar tudo isso com a máxima seriedade e atender detalhadamente os rituais das demandas. - O Banestado solicitou formalmente a exclusão das empresas do ex-governador de Sergipe, João Alves Filho, dos processos (25 notícias-crime) da Leasing, mas o Ministério Público não poderia fazê-lo por se tratar de ação pública. - Em função desse pedido de exclusão, o banco ficou sujeito à ação de perdas e danos que deverá encarar como anunciou o candidato a governador de Sergipe em nota pública. - A Justiça em Sergipe não permite, por ter concedido uma cautelar aquele político, que o assunto seja abordado pelo semanário Cinform, em favor de quem a Federação Nacional dos Jornalistas acaba de publicar nota de desagravo. - O diretor do semanário, Antonio Bonfin, deve estar em Curitiba neste fim de semana para ver como andam os processos. Mais um desgaste para o governo Lerner e o banco que adernou. - Por falar no banco, haverá o encontro nacional da categoria em Curitiba para tomar posição contra o corte das horas-extras, considerado indispensável para a diretoria e mais ainda para os funcionários (atinge 40% dos ganhos de 6 mil servidores). Até o jornalista Aloysio Biondi falará no encontro. Sobre globalização e a onda de privatização.
FOLCLORE Dá para imaginar o Tony Garcia, bem dirigido pelo Jamil Snege, com aquele seu ar de pasmo de quem soletra, fazendo mensagem à professora: ‘‘A professora é uma segunda mãe de todos nós. Eu jamais mandaria bater nessas santas.’’ Ao fundo, a imagem da polícia baixando o pau nas mestras.
Para completar, teríamos o discurso de Álvaro Dias afirmando que inexiste acordo branco com o governo. Acordo branco pode ser uma caixa preta. No caso do governo paranaense, apenas mais uma, entre tantas, como essa do pedágio.
CROMO Obras de arte oficiais dão o que pensar: aquele coco babaçu simulando pinheiro na fachada da Prefeitura de Curitiba e o busto do Papa João Paulo II que assusta crianças no bosque dos poloneses.
AFORÍSTICO O senador Requião falava de uma pesquisa, que ninguém viu, em que ele estava colado em Jaime Lerner. O estranho é que ao fundo aparecia uma pessoa, com aqueles óculos escuros, com jeito do ‘‘Ferreirinha’’.

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