Luiz Geraldo Mazza
O ato falho de Lerner
Na entrevista à ‘‘Folha’’, o governador Jaime Lerner, ao falar sobre o destino do Banestado, cometeu aquilo que em psicologia se chama de ‘‘ato falho’’ ao dizer que apenas 30% dos débitos do estabelecimento se devem ao atual governo. Ora, se assim for, matematicamente foi ele quem quebrou o banco e isso é fácil de explicar: se o acervo negativo de todas as gestões anteriores chegava a 70%, conseguiu-se a proeza de em apenas três anos chegar a quase um terço do acumulado.
Sabe-se que o governador tem notórias dificuldades de falar sobre o banco e uma delas - a principal - está no fato de acobertar as irregularidades de Osvaldo Santos, em sua passagem aterradora pela Leasing, promovido para secretário de Esportes provavelmente pela eficiência com que se aplicou naquele posto.
A impressão que se tem é que um é refém do outro, ainda mais depois que o Ministério Público Federal tascou 25 notícias-crime do período em que aquela dependência do Banestado esteve sob os cuidados do protegido do governador. O presidente do Banestado, Neco Garcia, chegou a cobrar uma atitude moral do ex-dirigente da Leasing, para que este se declarasse responsável pelos abusos.
É claro que o Banestado ‘‘sangrava’’ no interbancário nesses últimos meses e o alarme já fora acionado, pois se as coisas assim continuassem, o banco acabaria na UTI. Em função desse quadro exasperado é que foram aceleradas as medidas para o saneamento da instituição e a sua privatização. Como não fica nada claro quanto às cobranças de responsabilidade, será inevitável que tudo drene para a campanha eleitoral, o que acabará expondo as vísceras do estabelecimento oficial ao público. Mas isso é melhor do que lançar para baixo do tapete o lixo acumulado dos empréstimos não honrados, das picaretagens acrobáticas, da inadimplência endêmica, algo como uma anistia para inadimplentes, dos temerários aos fraudulentos.
Ao admitir que o governo atual responde por 30% dessa quebra, Lerner faz uma indesejada autocrítica: a de que a contribuição de sua gestão teve dimensão exponencial no processo. E isso em apenas três anos. Precisamos de uma anatomia desse escândalo, e como a instância parlamentar está bloqueada pela tradicional subserviência dos parlamentares ao Executivo (e isso em todas as gestões) é indispensável que se apele à campanha eleitoral que com todos os seus horrores preste serviço inestimável à sociedade, impotente para saber o que fizeram e o que farão com o banco que lhe pertencia mais do que ao governo.


FOLCLORE
Uma das formas de Roberto Requião abrir seus comícios no interior é dizer, com aquele ar de quem recita salmos, que ele é ‘‘o caminho’’ e Lerner o pedágio. Ele está desafiando o governador a baixar o pedágio e, como esse demora a fazê-lo, quando isso acontecer Requião vai dizer que a obra é sua



AXIOMA Só faltava o Élcio Berti, prefeito de Bocaiúva do Sul, distribuir Microvlar, o fajutado, na cidade, já que tentou proibir camisinha a pretexto de aumentar a taxa de natalidade.
GLOSA Há alguns idiotas da objetividade que acreditam possível que o poder de entorpecimento das multidões pelo futebol leva a esquecer que existe miséria como a da Etiópia, Somália, Burundi, Zaire. Pergunta-se: há solução, quer pela via socialista ou pela economia de mercado, para esses países? Não. Então não encham o saco e deixem o povo com a ‘‘alienação’’ que lhe faz bem, seja essa ou a dos seus deuses e sortilégios.
BIZARRICE Quando Álvaro Dias foi à França para ver a Copa do Mundo, lembrei aqui que ele é ‘‘pé-frio’’. Tanto que na decisão do campeonato estadual de São Paulo, como corintiano, foi juntamente com o filho, Alvinho, assistir à segunda partida. Na primeira, quando não estava presente, o Timão ganhou. Na segunda, presente, o São Paulo levou a melhor. Ainda bem que divide com Lerner o apoio a FHC se não o caso não se resolvia nem com reza brava.
PEDÁGIO Argumentos fortes contra o pedágio começam a acumular-se: documentos de viajantes ao exterior e dentro do Brasil provam que as tarifas aqui são mais altas. O processo está em escalada. Se Lerner não fizer a revisão, que já prometeu - e mais de uma vez - teremos lá por setembro, no feriadão, manifestações dirigidas no momento do pico do tráfego. Bem pertinho das eleições e no agudo da campanha. Só mais um gol contra.
SPRAY Para portar arma, qualquer cidadão passará, no Paraná, obrigatoriamente, pelo exame psicotécnico. Orientação é do delegado Newton Rocha, da Divisão de Segurança e Informações, que vai estendê-la para 19 subdivisões policiais. - A Rhodia teria oferecido a última novidade em implante capilar para um político paranaense. Político de repente vira uma espécie de Ronaldinho, não na questão do cabelo que raspa, mas na das griffes que o patrocinam, e acaba promovendo até técnicas e produtos exóticos. - Renda do Atletiba do campeonato nacional, na parte referente à Federação Paranaense de Futebol, já está penhorada. É ainda aquela pendência da Justiça do Trabalho que pediu até a prisão do Onaireves Moura como depositário infiel. - O Curtume II, da campanha de Lerner, está distribuído em lojinhas e mais parece um desses shoppings ‘‘outlet’’. Dá a impressão de prodigalidade em gastos na compulsão para o feérico e o glamour. - MST está atacando, em várias partes do Brasil, em empreitada de estradas vicinais. Seu preço por quilômetro é a metade do praticado no mercado. Não deixa de ser uma espécie de ‘‘new deal’’ na medida em que ocupa mão-de-obra. - Já está havendo nos desvios do pedágio uma perda de 30% para os consórcios. Mas nada justifica uma autoridade da Polícia Rodoviária dizer que não atende essas vias alternativas como aconteceu.- Consistente a fundamentação do pedido de impugnação da candidatura de Lerner. Coisa de advogado de primeira linha. - Campo Mourão agitada para a 8ª Festa Nacional do Carneiro no Buraco: amanhã haverá a abertura das barracas típicas e do parque de diversões, bem como do rodeio e da eliminatória (1ª) do Musicamp.
REFLEXÃO ‘‘Bebo para tornar os outros interessantes’’. George Jean Nathan.
CROMO Incrível: o Brasil perdeu a Copa, recebeu quase como heróis os vice-campeões e o mundo não acabou e nem se tornou mais radioso, um arco-íris tomando-o de ponta a ponta. Apenas descolorimos a realidade.
AFORÍSTICO Pior, mil vezes pior, do que a overdose da Copa do Mundo, será, sem dúvida, o lixo eleitoral que vem aí. Ainda bem que a TV a cabo pode nos salvar dessa violência.

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