Luiz Geraldo Mazza
Enquanto o poeta municipal discute com o poeta estadual, o poeta federal tira ouro do nariz. O saque é de Drummond de Andrade e se tem significados nas disputas literárias entre a província e a metrópole também dá para extrapolá-los para a ciência política no que diz respeito ao processo de delegação, hierarquizada, de poderes, algo, como se sabe, mal resolvido, embora a generosidade do constituinte, pela Carta Cidadã de 1988.
O ministro da reforma agrária, o ainda esquerdista (como compatibilizá-lo com uma ordem que aderna, cada vez mais, à direita é que são elas) Raul Jungmann, está reclamando, para desarmar o campo, das ações do estado-membro e também, é claro, do Judiciário.
Um governo que faz as concessões de FHC para obter a reeleição parece não estar em muitas condições éticas para querer transferir a sua responsabilidade nessa área. Afinal, se as decisões judiciais sobre o tema são oscilantes, pendulares, a autoridade policial tem que mostrar o dobro das cautelas até para não acabar responsabilizada.
Na novela O rei do gado, principalmente em função do atentado ao Regino, caricatura possível do Rainha, percebe-se que a trama vai apontar culpados e abrir caminho para a reforma agrária. Já se percebe que muitos que nela batalham, como mostra o folhetim eletrônico, querem botar até a reeleição na parada e inclusive invasão de áreas da Vale do Rio Doce, com o que da gincana tolerada pretendem transformar em um simulacro de revolução, pura bravata, pois a hora em que for rompido o fio tênue de segurança vai haver tragédia e nela os sem-terra levam a pior, embora até aqui aparentem vitória.
Aumentam as responsabilidades aqui no Paraná não apenas com o caso da fazenda Pinhal Ralo, a maior de todas as invasões no Brasil (e que vinha sendo muito bem encaminhada até o ato de violência contra os sem-terra, o que se aproxima da alegoria da telenovela), mas as outras que pipocam em vários pontos do território e a anunciada concentração-monstro em Londrina a pretexto de acelerar o processo de reforma agrária.
Até aqui as três partes envolvidas - sem-terra, fazendeiros e governo - tentam usar a comunicação como espaço de manobra, valendo, de lado a lado, a bravata como forma se não de intimidar ao menos de mostrar mobilização. O público está mais de olho no assunto por causa da novela, pois nas questões políticas a reeleição é prioridade, certo ou errado, admitida pela maioria.
Não é o caso de dizer-se que o primeiro tiro assinalaria a tragédia, até porque mais de um tiro e centenas de mortos já foram registrados, com o que corremos o risco de banalizar essas ocorrências como aceitamos com naturalidade todas as formas de violência da urbana à rural, tal qual se dá com a fome em escala mundial para a qual sobram discursos, fotografias e teses, mas ainda sem solução.
Imaginar que os esfomeados de Burundi e da Etiópia poderiam vencer as malhas que os oprimem é o mesmo que acreditar num levante de sem-terra como forma de guerrilha. Nem como quixotismo, pois sua força reside no desarmamento e na empatia do público pela causa. Saindo dessa forma de resistência, que está mais no liberal Thoreau do que num socialista ou anarquista, perde a batalha e, mais do que isso, a guerra.
A reforma agrária, como o mosquito da malária, não pode ficar submetida a uma instância: a de ser municipal, estadual ou federal. Isso é burocracia, apenas uma lombada na marcha dos acontecimentos, gasolina na fogueira.
BIZARRICE - Eis a legenda que deveriam ter colocado na foto de ontem desta Folha com o desembargador Cláudio Nunes do Nascimento discursando e Lerner e Aníbal dormindo: Dormientibus non sucurrit jus (aqueles que dormem, o direito não ampara). A frase de Von Yhering era lembrada por estudantes de Direito, afinal estávamos ali com os três poderes e dois cochilavam.
SPRAY - Vidal Vanhoni, ex-presidente da Assembléia, ex-deputado, meu professor de Geografia no Ginásio Paranaense, faleceu ontem. Uma figura admirável, que lembrava fisicamente o Abrahan Lincoln. Pai do Ângelo, deputado, que deve seguir a mesma trilha do homem estudioso e sério. - Paranaguá está perdendo os seus vultos principais e hoje já não tem o fastígio do passado com lideranças como as de Munhoz da Rocha e Accioly Filho. Era preciso mexer nos brios dos filhos da terra. - Governo se debruça sobre a pesquisa da Alvorada e a cada momento descobre coisas desagradáveis. Por exemplo: 7,7% consideram-no ótimo, 39,8% bom, 26,2% regular, 8,2% ruim e 4,8% péssimo. Efeito residual das cutucadas de Belinati e também da pregação eleitoral anticapital e contra o abandono do interior, o que, convenhamos, é verdadeiro. Não está com essa bola toda. - Belinati em Londrina está melhor do que Lerner: 61,8% de aprovação e 17,6% de reprovação. Mais: 59% o reelegeriam. Já Lerner, se a eleição fosse agora, ficaria menos de dois pontos à frente de Álvaro Dias. - Um desembargador de Goiás pediu ao STF o bloqueio de verbas ao governo por não pagar os servidores do Judiciário. Aqui, os barnabés ganharam uma reposição superior a 60% no STF e o TJ não cumpriu.
FOLCLORE - Mário Celso Petraglia, presidente do Atlético, tratou seus co-irmãos Coritiba e Paraná, num debate na Bandeirantes, como se fossem clubes menores. O Edu Basseti, ao vê-lo ironizar o dirigente do Paraná, que lembrava a circunstância de o clube estar liderando as preferências nas faixas jovens por causa do tetracampeonato, dizendo que já dava para encher duas kombis de torcedores, argumentou: Quando chegarmos à terceira kombi, teremos acumulado o heptacampeonato.





