Luiz Geraldo Mazza
Rumo ao hexa!
Embora a prudência recomende festejar os feitos depois de consumados, já que o aleatório persegue qualquer tipo de jogo, os que pretendem ligar política ao futebol acham que se com FHC chegarmos ao pentacampeonato mundial poderemos na mesma trilha e sob o mesmo comando atingirmos o hexa em 2002. A essa altura, os gênios marqueteiros - que estão para o pleito como estavam os gestores financeiros para o tempo da inflação - devem manter-se atentos ao resultado do jogo de logo mais à tarde para ver que tipo de exploração possa render algum proselitismo. Se ganharmos, o que não é difícil, um slogan ‘‘Com FHC o penta, com ele o hexa’’.
Delirar é preciso porque o futebol mexe fundo com as virtualidades nacionais e daí o seu aproveitamento para marcar governos, como se deu com Juscelino Kubitschek em 1958, com Jango em 1962, Médici em 70 e Itamar em 94. Aliás, uma consultoria mostrou naquele ano o efeito-alavanca que a conquista da Copa proporcionou ao Plano Real.
Em sua estada em Curitiba, o candidato oposicionista fez questão de preservar a importância do Plano Real, que em 94 subestimou como já o fizera antes com o Plano Cruzado, sugerindo, porém, uma abertura para o desenvolvimento e a reativação, enfim, da economia. Há etapas de um plano de estabilização em que falar de retomada do crescimento é antinomia pura, e ao que parece não superamos ainda esse estágio, posto que essas medidas mexendo no IOF (redução de alíquotas de 15% para 6% ao ano) perseguem o ‘‘aquecimento’’ das vendas e, consequentemente, a recuperação do nível de emprego.
Lula condenou o caráter político e eleitoreiro da medida, sem lhe negar os méritos como fator de estímulo à demanda que estava severamente reprimida por causa especialmente dos juros delinquentes. Imaginem todos esses fatores, somados à possível conquista da Copa (ela, na França, melhorou os níveis de popularidade do presidente Chirac e o premier Jospin, que não é trouxa, não deixa de comparecer aos jogos para desfrutar dos efeitos benéficos) e dá para imaginar o quanto essa euforia nacional beneficiará o governo.
Mexendo em todos os brasileiros, motivando-os de uma forma que nem um ato de guerra (dá para lembrar o caso das Malvinas na Argentina que, a despeito de toda a farsa de Galtieri, Mussolini regressivo, não ‘‘aquece’’ o povo como nos feitos futebolísticos) o conseguiria é a visualização mais integradora que se tem da nacionalidade, a pátria de chuteiras, como queria Nelson Rodrigues. Andei por isolados próximos das rurbanas catarinenses e testemunhei o fato de que não havia uma só casa, fosse de descendentes italianos ou germânicos, que não contasse com o enfeite de símbolos nacionais em função do futebol.
Obviamente a oposição torce pelo Brasil como se deu com os torturados de 70, mas a partilha favorece mais a quem está no poder. É uma tolice falar em ‘‘alienação’’, entorpecimento, ópio, sob o fundamento de que isso é evasão. O fato é que somos mais abertos à fantasia do que à realidade porque esta inclui a provisoriedade da vida, a implacabilidade da morte. Falar em hexa é como contar com o ovo no fim da galinha e pode ‘‘gorar’’.

FÁBULA
Não há uma pessoa de bom senso que seja contra o pedágio. Mas só um imbecil completo concorda com os parâmetros adotados. Se forem detalhados os setores, um por um, que serão onerados, a asfixia política para o governo se tornará insuportável.


AXIOMA O Estadão fez uma análise curiosa do Ibope ao destacar que Lula é mais rejeitado do que o PT. Dos que declararam não votar no candidato populista, 27% recusam o voto por causa do próprio Lula, 18% em razão do partido e 19% em razão dos dois. Um detalhe: Lula é bem maior do que o partido, como se dá com FHC relativamente ao PSDB, Lerner ao PFL regional e Requião ao PMDB local.
GLOSA Se o Banco Real teve de ser absorvido pelo holandês ABN, como poderia o Banestado na situação em que estava, oprimido no interbancário, evitar a saída do saneamento e da privatização subsequente? Só os que não têm o mínimo de compromisso desfraldam bandeiras regressivas como a de mantê-lo estatal. Todos os bancos estaduais, mais cedo ou mais tarde, serão privatizados.
Nada disso anula a necessidade imperiosa de saber quem o levou à quebra. Disso o governo atual, todos sabem, não pode ser absolvido. Está atolado até o pescoço nas maracutaias tanto da Leasing como da Corretora no caso dos títulos estaduais. E para o bem de todos isso vai aparecer na campanha eleitoral.
BIZARRICE Uma nota que publiquei sobre o extravio da reivindicação da UEL (Universidade Estadual de Londrina), foi mal interpretada pela assessoria da pasta do esporte. Não disse que Osvaldo Santos tinha conhecimento do assunto, mas tão-somente que se ele tratasse o documento como fez com os valores da Leasing tudo redundaria num gesto equivalente a lançá-lo no lixo. Aliás, no lixo ainda é possível recuperar as coisas, o que não é o caso de perdas bancárias como as havidas em contratos sem garantias cadastrais.
PARANÓIA A Inepar é sócia (35%) da Cemat (Mato Grosso) e agora da Celpa (Pará), que são a Copel daqueles estados. Quando chegará a vez desta?
Os que estão na fila num momento de obstrução, como houve na quinta-feira, na BR-277, nem sempre se dispõem ao protesto e preferem pagar. Da mesma forma, buscar alternativas de risco previsível, como se deu com o caminhoneiro de Apucarana em Jataizinho, é também temerário. Para não pagar o pedágio, perdeu praticamente tudo ao tombar de uma ponte.
FOLCLORE O PSD, da coligação pró-FHC, quer suspender a minissérie ‘‘Hilda Furacão’’ porque faz referências ao PCB que integra a coligação de Lula. Esse tipo de ‘‘olhar’’ é o da Lei da Segurança Nacional e dos Dops, Doi-Codi, Cenimar e equivalentes. Quando houve a novela do Sassá Mutema, chatíssima por sinal, ‘‘O Salvador da Pátria’’, ora em reapresentação, também se especulou que visava a amparar determinado candidato. Só falta mostrar o filme ‘‘Mimi, o metalúrgico’’ e haver contestação de que exaltaria obliquamente o Lula. Que falta faz ao País o Stanislaw Ponte Preta!
CROMO Se a neve voltar, e há pré-condições para isso, volto a titular a matéria jornalística ‘‘a nave nívea da neve nova’’, como fiz em 1975.

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