Luiz Geraldo Mazza
Tempo de passeatas
Na esquerda populista sempre houve a ilusão, ligada à utopia voluntarista de que todo manifestante é um vetor da história e que vai mudá-la, de que jamais perderia a batalha das ruas. Em 64 levamos um banho daquilo que chamávamos de direita nas marchas com Deus pela Família e a Liberdade, trama em que se envolveram até pastores norte-americanos (Padre Peyton entre eles), devidamente monitorada pela CIA e congêneres. No entanto, se ouvíssemos um participante dos comícios da Central e dos demais de nível equivalente, teríamos o depoimento emocionado semelhante ao de John Reed como testemunha do golpe bolchevista.
Pois ontem tivemos passeatas: em Curitiba e Londrina, a de Lula-Brizola mais Requião com as mesmas figuras carimbadas de sempre (a CUT no meio se acreditando a arma da mobilização, a catapulta da história, embora não tenha resposta além do agito para os problemas dos trabalhadores, desemprego inclusive, já que não adianta execrá-lo apenas no discurso) e lá em Cornélio Procópio o mais tímido passeio de Lerner junto a populares. Qual deles rende mais é uma questão que só o tempo desvendará. Desconfio que o menos barulhento é mais eficaz.
Se mobilização da massa na rua não tivesse um lado negativo, a de Brasília dos sem-terra teria certamente neutralizado os efeitos que redundaram no surgimento de facções concorrentes. Aliás, o MST já se colocou a favor de Lula e este hesita em defender tudo que aquela sigla, organizadíssima, faz porque aí perde mais do que ganha, como o processo atual o está demonstrando. Fixe-se bem esse ponto: especialmente aqui no Paraná, recordista de invasões, isso aumenta a taxa de rejeição a Lula, ainda mais potencializado por essa outra fantasmagoria que é o Brizola, repudiado, seguidas vezes, na região.
O fato é que o primeiro passo da campanha oposicionista foi dado em Curitiba e Londrina. Como largada, ainda sem aquecimento, até que não foi mal. Mas não justifica esse ar na oposição de Brasil à véspera da final da Copa.

AFORÍSTICO
Não há qualquer expressão de futuro nos candidatos presidenciais: Fernando Henrique é o presente, Lula também puxado para o passado com Brizola.


AXIOMA Como antecipei, o PSDB resolveu impugnar o registro da candidatura de Lerner porque ele participou do ato inaugural da Chrysler. O argumento é que mesmo se tratando de empresa privada e até multinacional, o governo, tanto estadual como municipal, dela participa. A ação visa sugerir que não há pacto nenhum com Lerner, o que é estimulado por Olivir Gabardo, já que com isso poupa Álvaro Dias de fazê-lo. E nós somos obrigados a suportar essas encenações.
Se houvesse esse caráter mesmo, Álvaro sairia candidato a governador e não arrumaria essa via sem pedágio para sua aventura senatorial.
GLOSA Educadores impressionados com o fato de a torcida européia nos campos de futebol entoar trechos de ópera, como ‘‘Nabuco’’ e ‘‘Aída’’, achavam que dava para tirar um teipe, a fim de orientar as organizadas de Atlético e Coritiba. Como é que eles iriam adequar o ‘‘filha da gruta’’ com os acordes é que não se sabe. Há quem tenha ouvido a torcida alemã solfejar ‘‘A Pastoral’’ de Beethoven. Os nossos preferem seguir os neonazistas e os ‘‘hooligans’’.
BIZARRICE Diz o narrador de futebol: ‘‘Bate o pênalti Cocu e Tafarel defende’’. Um desatento, às minúcias do futebol, fez a observação singela:‘‘E queria o quê com essa invencionice?’’
AINDA PEDÁGIO Se Lerner não fizer a revisão urgente da planilha esotérica do pedágio, corre o risco de transformar esse tema na maior bandeira de oposição, aí generalizada, inclusive de muita gente que hoje está a seu favor. Não há como justificar, sob o ponto de vista econométrico, o parâmetro adotado pelo menos em aproximações analógicas com São Paulo (estradas incomparavelmente melhores) e Rio Grande do Sul.
Houve muita demagogia na manifestação na BR-277, anteontem, com um dos dirigentes da manifestação afirmando que navios estavam deixando Paranaguá por causa do pedágio. O engenheiro Osíres Guimarães, do Porto, deu uma explicação detalhada em números do movimento do terminal para mostrar que o pedágio não está interferindo em nada. Mostrou, por exemplo, que até ontem pela manhã havia um movimento de 127.200 caminhões contra 153.900 do ano passado, o que se deve à lentidão da comercialização da safra. Mostrou que na parte de contêineres houve aumento agora de 78 mil e poucos contra 73 mil de 1997.
Pois bem: essa é uma explicação racional. O que não se dá com o parâmetro fixado para as cobranças. E isso tanto é verdade que houve recuos no caso dos mini-reboques, sem que se tivesse dimensionado o tamanho da frota, e ainda na isenção para os produtos primários.
O discurso dos manifestantes precisa ser unificado: um dirigente prometeu que os bloqueios se dariam uma vez por semana e um outro, ligado aos postos de combustíveis de Paranaguá (que estão desempregando frentistas), indicou que haveria um por dia, o que é sabidamente impossível e de fácil desarticulação.
FILOSOFIA ‘‘Um metafísico é alguém que, quando você lhe diz que dois vezes dois são quatro, ele quer saber o que você entende ‘‘por vezes’’, o que significa ‘‘dois’’, e o que quer dizer ‘‘são’’ e por que isso dá ‘‘quatro’’. Por fazerem tais perguntas, os metafísicos desfrutam um luxo oriental nas universidades e são respeitados como homens educados e inteligentes.’’ É a ironia cáustica de Mencken. Pessoalmente, acho que uma das deficiências do nosso tempo é a ausência de pressuposto filosófico. Ocupamo-nos de metas físicas sem considerar a metafísica ou mais propriamente os valores.
FOLCLORE Cada vez que um Ibope (e ele está substantivado como a Brahma entre as cervejas, tanto que se diz o Ibope do Datafolha como uma Brahma da Kaiser) mostra grande diferença como a do último (42 a 25) de FHC sobre Lula, o lado que perde chia sob o argumento genérico de que não houve fato novo que o justificasse. Isso se repete em todo pleito eleitoral, culminando com a frase ridícula, dita com a máxima ênfase e em tom oratorial, de que a pesquisa verdadeira será a 4 de outubro. Normalmente é papo de derrotado que pode até provocar emoção nos mais próximos naquele momento, mas que não resolve.
CROMO E quando a lâmina de água do Iraí tremeluzir, por onde andará o macuquinho-da-várzea que aflorou de um tratado de ornitologia diante dos nossos olhos para mexer com velhas culpas?

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