Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O mito da vitória
Em 1950, o Brasil estava, em relação à final, por seu desempenho ao longo da Copa do Mundo, melhor do que agora: era superior ao adversário, o Uruguai, e detinha todas as condições para a conquista do título mundial. Mas perdeu. E essa perda, como já ocorrera na Copa de 38, quando nos apegamos no pênalti corretamente marcado contra o Brasil, no jogo com a Itália (Domingos da Guia agrediu Piola na área, ainda que a bola estivesse em outra parte do campo), ajudou a criar essa imposição de que só o primeiro lugar é que vale.
Tanto na Copa de 54, vencida pela Alemanha, como na de 74, também deles, poucos se lembram do time vencedor, mas ninguém esquece dos que perderam, no caso os húngaros e os holandeses, estes com a original Laranja Mecânica, da qual essa que vencemos anteontem é, apesar de excelente, uma caricatura.
Por isso é que o Brasil está preparado para vencer e não para perder, ainda que isso pudesse ter ocorrido com a maior naturalidade diante da Holanda. O curioso é que, fora do futebol, temos o hábito de cultuar, historicamente, o derrotado como se só ele reunisse méritos. É o caso da história do oprimido, a narrativa do perdedor, transformada em epopéia.
Claro que quando há mártires essa circunstância se enriquece, caso dos quilombos, especialmente de Zumbi, e ainda o de Antonio Conselheiro. O que se repete com Tiradentes, Beckman e tantos outros, ou ainda com essa nostalgia ardente que envolve as vítimas de 64 ou as reflexões demoradas sobre 68. Na verdade, idealiza-se esse passado que é cercado de uma aura de pureza como se não tivesse, na verdade, fortalecido o lado mais duro do regime e às vezes se mostrasse infantilmente voluntarista.
Guevara é um mito mundial, todavia um derrotado e, cá entre nós, de uma forma quase infantil porque sem um mínimo de respaldo logístico. O carniceiro de Lion, Klaus Barbie (não é parente da boneca famosa), que foi preso na Bolívia, como militar e assassino profissional dos campos de concentração, só poderia, no ângulo técnico, dizer que o romântico revolucionário não chegaria a cabo no Exército alemão.
Tudo depende, pois, do olhar do observador: um amante do futebol não acha a campanha de 94 importante, ainda que vitoriosa, por ter sido a consagração do antijogo. Na campanha atual, o dramatismo da desclassificação do Paraguai, da Inglaterra, da Argentina e agora da Holanda conferiu densidade à disputa. Se ficarmos com o segundo lugar, embora o anseio da maioria seja outro, o público não teria a postura de dignidade que paraguaios e chilenos mostraram por seus jogadores no retorno da competição, como vitoriosos. É que isso se aprende com o fracasso, com a noção de quanto a sorte interfere nos acontecimentos e não com uma cultura, introjetada pela mídia e o público - a de vencer a qualquer custo. E como o Brasil já levou quatro títulos, não quer nem lembrar que foi vice em 1950, na tragédia do Maracanã.
AFORÍSTICO
No vestibular é bem possível que, ao interpretar a frase de Guevara no sentido de que é preciso endurecer-se sem perder a ternura jamais, alguém a atribua a um texto publicitário do Viagra. Função da propaganda é essa: a de dessacralizar, e nesse impulso nada se respeita
AXIOMA Por que nós em maioria torcemos pela França? Mais do que a latinidade comum, nossa herança cultural anterior, um fato indiscutível: Savoir faire fica bem mais próximo do nosso jeito de ser do que o know how. Claro que isso nada tem a ver com a Croácia, que poderia contar com o bônus de ser um país mais fraco e uma nação que ganha identidade com seu feito esportivo.
GLOSA No meio das comemorações na França, na vitória do Brasil, uma camisa do Coritiba em destaque foi o suficiente para irritar os atleticanos. Por sinal que há alguns deles por lá e que farão tudo agora para dar uma de papagaio de pirata como faziam o José Felinto em relação a Álvaro Dias e o Valmor Giavarina quando perto do Doutor Diretas, Ulysses Guimarães, e tantos outros diante de Lerner.
BIZARRICE O vereador Jorge Bernardi tinha um programa na Rádio Colombo de Curitiba que foi tirado do ar por pedido da Comunicação Social do Palácio Iguaçu. É, pelo menos, a alegação do político, que é candidato a deputado estadual e teria divulgado pesquisas com 79 ouvintes com a maioria dizendo que vota em Lula e Requião. Coincidentemente, está na mesma faixa por ser do PDT. Dou pau diário no governador e no governo em rádio de maior audiência e até hoje não soube de qualquer intervenção nesse sentido. Isso cheira à autocensura, coisa do dono da emissora, na verdade o menos interessado em conflitos com a clientela.
SPRAY A economia paranaense muda de perfil no governo Lerner, mas vai demorar muito para alterar a posição dos sete principais produtos de exportação, a saber: a soja, 47% (conforme números de 96); máquinas e instrumentos mecânicos, 7,56%; madeira, 6,22%; carnes, 5,86%; café, 5,38%; cigarro e fumo, 5,15%; papel e celulose, 4,24%. - Como o Porto de Paranaguá está sendo preparado para importar e exportar carros e há possibilidades de incremento sério no café com a técnica de plantio adensado, é de se esperar que dentro de alguns anos as mudanças se reflitam na pauta comercial. - Uma das linhas de desenvolvimento, acentuada agora com a decisão de Lerner de fazer incentivos apenas no interior, é o de evitar a concentração. Atividades que geram mais mão-de-obra como as do setor agroindustrial se fixam predominantemente no interior. - Projetos agroindustriais das cooperativas nos últimos dois anos (97-98) devem gerar mais de 17 mil empregos diretos. - Esse investimento, R$ 312 milhões, por 16 cooperativas, se aproximam do montante aplicado na Chrysler, em Campo Largo, e geram mais empregos: 17 mil diretos e 100 mil, se incluídos os indiretos.
FOLCLORE Afinal, a reivindicação da Universidade de Londrina estava ou não no lixo do Hotel Bourbon? Como era para ser dirigida ao secretário de Esportes, não é de estranhar que tenha acabado no lixo, como aconteceu com as denúncias contra Osvaldo Santos, o secretário, ao tempo em que comandou a bagunça na Leasing. E apesar das 25 notícias-crime, o governador o promoveu, o equivalente a jogar fora o peso das denúncias. Revestimento sintético da pista da UEL é o fundamento do pedido extraviado e que apareceu no lixo do hotel, prometido desde 96.
CROMO O mendigo dormindo feliz em praça pública com uma vistosa camisa do Ronaldinho, tal qual os ricos lá na Europa. Essa, a igualdade possível?





