Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Uma questão de chutes
Não é apenas a Copa do Mundo que se resume a uma questão de chutes. Ocorre que o secretário dos Transportes, Heinz Herwig, ao pronunciar-se na Câmara Municipal em Curitiba (dia 9 mês passado) sobre o impacto das isenções nas tarifas, e consequentemente na rentabilidade dos consórcios, admitiu que seria preciso buscar mecanismos para cumprir os contratos - e usou a expressão nós temos chutes.
Não é novidade que o chute é apropriado em países de estatísticas sempre sob dúvida. Chuta-se no diagnóstico e no projeto e essa versatilidade é que levou muitos críticos a considerarem nossos estudos de viabilidade econômica e técnica no nível das peças de ficção de Vargas Llosa e Garcia Marquez, com o realismo fantástico.
Prova de que se chuta está em primeiro lugar na concessão feita ao transporte de cargas agrícolas, colher de chá que não haverá no ano que vem. O número, portanto, foi extraordinariamente engordado para acidentes de percurso. Outro caso evidente de que os parâmetros adotados não podem ser decodificados em econometria e ciência atuarial está no recuo quanto à cobrança a menos para os semi-reboques que conduzam material esportivo como barcos e jet sky. É visível que não se quantificou o quanto isso representaria.
Empiricamente há a noção de que se trata de um abuso. Não há uma pessoa de bom senso, que conhecendo o sistema em São Paulo e na free way (aí se paga R$ 1,00 em rodovia de primeira, com seis pistas) de Porto Alegre aceite os valores escorchantes do pedágio no Paraná. Agora as ações judiciais vão tentar reduzir essa opressão sobre o usuário. O Ministério Público Federal tem argumento fortíssimo para reverter a cobrança: uma jurisprudência do STJ que exige a existência de estrada alternativa para cobrar o pedágio, o que acabaria implicando na proibição no caso da BR-277 no Oeste entre Cascavel e Foz do Iguaçu.
As coisas não param aí: entidades civis prometem demonstrações e com bloqueio das rodovias em todo o Paraná. Cada buraco novo, como aconteceu em São Luís do Purunã, vai determinar a obstrução. O argumento de que agora pelo menos há para quem reclamar, o que é verdade, não tira a legitimidade das manifestações que prometem ser tão duras quanto a adversidade artificiosa do pedágio.
Intensificadas as manifestações, se o governo não ceder ou não explicitar essa planilha bem mais esotérica do que a dos transportes urbanos da Capital, o fato terá uma tradução política adequada ao andamento da campanha eleitoral. Uma questão de chute, sim. Só que nas partes baixas da população.
AFORÍSTICO
A campanha eleitoral, pelas primeiras impugnações, demonstra que será como um jogo de futebol em que há interrupção frequente com a marcação de faltas. E começa com a oposição pretendendo um cartão vermelho contra o governo
AXIOMA Ontem, no Bar do Maneco, perto da Praça Osório, quem pintou no recinto foi o cabeleireiro José Trindade, tido como o homem que faz a cabeça de Jaime Lerner. E ele apareceu acompanhando o governador num ritual parecido com aquele de FHC na padaria de Brasília: bateu um papo rápido, cumprimentou todo mundo e tomou um chope. Zé Trindade corta o cabelo de Lerner há quase 40 anos. Atende igualmente Pimentel, de quem cortaram a cabeça recentemente na montagem da chapa dos desastrados.
GLOSA Colete à prova de pedágio já está sendo feito nas gráficas: é um aparato publicitário pregando o voto na oposição.
BIZARRICE Verificando a variação patrimonial de Lula, a Folha de S.Paulo descobriu uma evolução de 120% nos últimos quatro anos, o que não deixa de ser uma propaganda do Plano Real. É um feito inegável, pois não consta que Lula, além das funções de político profissional (como Álvaro Dias, Requião etc) e de aposentado, exerça qualquer atuação especulativa. Se conseguir transferir o seu projeto pessoal para os brasileiros de origem trabalhadora, ganha na certa.
SPRAY Como era esperado, vivemos sob o signo das impugnações. A chapa oficial está sendo impugnada por causa das trapalhadas, substituição de nomes, o que infringiria, substancialmente, a lei. - É a primeira dor de cabeça dentre as muitas que irão marcar o andamento da campanha eleitoral. Outra impugnação é em cima de gastos publicitários, tidos como anormais e com objetivo de manipular eleitoralmente a população. - Segundo o contrato das estradas pedagiadas, a taxa de retorno do investimento é de 18% ao ano. O governo diz que a planilha está à disposição de todos, mas até agora nenhum dos grupos de pressão, que contestam os valores da tarifa, teve acesso à caixa preta. - Reproduz-se a suspeita que sempre se levantou em torno da planilha do transporte coletivo urbano e que em cima desse mistério financiava campanhas eleitorais ao ponto de ganhar parada com o próprio governo estadual acoplado ao municipal. - A turbulência havida no pleito da Câmara que deu vitória a Íris Simões foi prova disso, revelando que o grupo Pró-Cidade ficou acima das conveniências e até exigências de Lerner e Rafael Greca, isto é, os governos estadual e municipal. - Esse é um dos aspectos mais profundos da questão do pedágio e das relações contratuais, de longo prazo, entre as consorciadas e o poder concedente e que ficam fora de controles, pois até agora não se definiu que agência governamental fará esse papel de fiscalização, bem como não se conhece como o Tribunal de Contas auditará os procedimentos da área. - Norte Pioneiro, abalado com a concordata da família Setti, que alcança quase R$ 5 milhões, fica vulnerável às especulações e fala-se que a Ceval reduziria atividades na região, o que atingiria cerca de mil empregos entre diretos e indiretos. - Mercado informal de trabalho ganhou projeção nestes dias com as vendas de cornetas, bandeiras, camisas, faixas da Seleção Brasileira. Na sequência, esse mesmo exército de biscateiros vai se atirar nas atividades eleitorais. - Investimentos em obras públicas, via União e governo estadual, representam mais de R$ 500 por morador de Campo Mourão.
FOLCLORE 1 Heinz Herwig, no papo com os vereadores, sugeriu: Nós temos chutes para acomodar cálculos do pedágio. Exatamente: houve, de fato, um coice no usuário.
FOLCLORE 2 Promessa de político não lembra, de certa forma, o remédio falso? Não deixa de ser também um crime hediondo, mas estamos tão acostumados a isso que nem ligamos.
CROMO Na grama flui a esperança e o desespero: foi o que se viu ontem.





