Quem cala consente?
No folclore político do Nordeste brasileiro há a história de um desses magos de comício que numa apresentação na Praça Marechal Floriano, em meio a um lance dramático, volta-se para a estátua e em tom de ladainha coloca a questão profunda (poderia ser até, mantidas as proporções, a tese da reeleição para os nossos dias): ‘‘Marechal de Ferro, vulto sobranceiro da pátria, homem que teve a coragem de dizer aos imperialistas que os receberia a fogo, se tentassem invadir o Brasil: como filho desta terra, gostaria de saber se Vossa Excelência apóia a minha candidatura’’ Segue-se, obviamente, o silêncio de chumbo e com a voz embargada pela emoção, trêmula, o orador continua quase aos prantos: ‘‘Obrigado, marechal, por mostrar afinidade tão profunda com o sentir do nosso povo. Afinal, quem cala consente.’’
Um governo que se comunica até demais, como o do Paraná, o que não é estilo apenas da atual administração, por essa circunstância, a de estar em permanente contato com o público, não pode ficar calado quando fazem alguma denúncia sobre deficiências e irregularidades ou quando pedem clareamento de situações como a dos estímulos oferecidos às montadoras. Quem está todo o dia no vídeo - e com isso merecendo a caricatura de gestão virtual, porque não tem obras concretas - se obrigaria à transparência para dar sentido a tanto gasto, que os interessados da área chamam de ‘‘investimento’’, o que nem sempre é verdadeiro.
O emperramento do programa ‘‘Paraná 12 Meses’’ não se deve apenas à birra do senador Requião e às suspeitas que suscitou de que o Estado não pode se dar ao desfrute da renúncia fiscal quando suas despesas de custeio engolem quase toda a receita. Agora, o senador Osmar Dias, que teve boa vontade com o pedido de empréstimo, está levantando uma questão: a de que o custo de um estrada rural de sua gestão para cá aumentou em 100%. Com a estabilidade da moeda e a baixa geral de custos, o que a Secretaria de Agricultura estaria pagando por quilômetro de estrada seria um abuso, que se tornaria mais grave ainda pelo fato de as empreiteiras estarem, no momento, ‘matando cachorro a grito’, dada a dificuldade de serviço.
Esse detalhe - o do custo da estrada -, que afinal é objeto também do empréstimo, acaba ‘contaminando’ o resto e respalda as restrições ranzinzas do Requião. Como o governo se acha, olimpicamente, acima das restrições e nem as responde fortalece a oposição e afasta a suspeição que naturalmente se formou em torno do bloqueio estabelecido aos interesses do Paraná no Senado, legitimando-o.
Esse tipo de burrice é próximo da sublimidade.
BIZARRICE - Num festival de etnias no ginásio de esportes do Tarumã, o diretor do Departamento de Cultura autorizou a Polícia Militar a fuzilar as corujas, que faziam tanto ruído que impediam que se ouvisse o coral. Hoje isso seria crime inafiançável: todos estariam enquadrados.
A estória parece folclore, mas é muito referida como outra, essa testemunhada por todos, da aposição de em cada agência do Banestado de uma gralha azul, ave-tótem e em extinção. Como ele se afinava com a logomarca do banco, os criativosos publicitários cometeram mais esse delito em nome da tradicional ‘‘liberdade poética’’.
SPRAY - O governo assumiu uma linha de compromisso na comunicação social que não terá como pagar. Segundo um ex-secretário da área, versado em orçamento, o dispêndio foi quadruplicado. - Uma inconfidência do senador Osmar Dias, no programa de Ogier Buck, na CNT, provocou mais do que um curto circuito nas relações entre Executivo e Legislativo: segundo o parlamentar, Lerner lhe teria confidenciado que as estradas rurais estariam custando o dobro por causa de pressões de Aníbal Khury junto a Hermas Brandão. - Motoqueiros fazem um forte movimento para derrubar a obrigatoriedade do uso do capacete. É mais uma prova de radicalismo, pois há de fato motoqueiros que usam capacete, embora seja difícil acreditar que tenham cabeça. Há uma forma infalível de provar a utilidade do capacete: derrubar um piloto da moto no meio da manifestação, que estão anunciando, e ver os resultados no próprio corpo da vítima. - O Brasil melhora e isso dá para ver nas estatísticas: até 1980 a proporção de domicílios por condição de ocupação mostrava que 63% eram próprios e em 1991 esse número se aproximava de 75%. Há, no entanto, coisas inaceitáveis, como a circunstância de haver, quanto a instalações sanitárias, 25,8% dos domicílios com fossa rudimentar, 17,1% com fossa séptica, 14,7% sem nenhuma solução e apenas 35,3% ligados à rede geral. - Quanto aos bens domésticos, o mais universalizado é o fogão, que aparece em 35 milhões de domicílios dos 37 milhões existentes. Foi aí que os petroleiros sofreram a derrota da greve: nem a esposa dos trabalhadores aceitou o sacrifício. - Uma pesquisa da Alvorada, em Londrina, mostra o seguinte com o quadro gerado pela reeleição se houvesse agora um pleito: Lerner faria 28,2%; Álvaro Dias, 26,5%; Requião, 9,5%; Greca, 4,2%, e Rubens Bueno, 2,2%. A consulta é estimulada e perfeitamente compatível com o quadro atual e a movimentação do ex-governador Álvaro Dias.
FOLCLORE - Um jornalista da revista ‘‘Veja’’ entrou em atrito com o senador Requião porque este haveria passado a outros veículos diários informação de cocheira daquela publicação semanal. Chamou o senador de moleque e ouviu de troco que se insistisse, ele o tiraria do recinto ‘‘a porrada’’. A confiança no sigilo é sempre um risco nas mãos de políticos: nem confissão de consultório é respeitada, como se viu no caso do psiquiatra Daniel Elsberg, numa das crises mais sérias dos Estados Unidos.

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