Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Da chapa fria à quente
Depois de um suspense, que lembrou em tudo essas disputas com a morte súbita da Copa do Mundo, chegou-se finalmente à transformação da chapa fria, que unia na cabeça dois metropolitanos (Lerner e Pimentel), o que é a quebra da regra geopolítica que ajusta o interior e a metrópole, em chapa quente. Como a data fatal para o arranjo era o dia de hoje, havia ainda quem tentasse nos bastidores melar o processo.
Esses arranjos não chegam ao eleitor comum que, se os conhecesse em detalhes, teria motivos fortíssimos para votar em branco ou anular o voto, tal a regra de absoluto desprezo pelo sentido da vida partidária e a predominância das razões personalíssimas. O governo cometeu erros maiores do que os da Seleção Brasileira (as falhas do Júnior Baiano desde a primeira partida, a bola nas costas e o pênalti contra a Noruega, o primeiro gol de anteontem da Dinamarca, aquela cena de subdesenvolvido do Roberto Carlos errando a bicicleta, enfeite desnecessário e fatal) ao longo desse desgastante processo e mostrou-se sem determinação para contornar o jogo de pressões e de barganhas.
Como o público não toma conhecimento desses detalhes, o governo foge ao risco de um julgamento pesado e consegue fazer uma chapa equilibrada e com esforço para atender os desejos do presidente FHC no sentido de que Álvaro Dias tivesse o máximo de garantias para correr numa via desobstruída ao Senado. Nada disso, porém, garante a vitória do situacionismo, porque a capacidade dessa gente de surpreender com absurdos, non sense, trapalhadas é, de fato, inesgotável. E o senador Roberto Requião vai jogar precisamente nos erros do adversário, numa eleição polarizada e plebiscitária. Precisa fazê-lo porque é a única chance de o PMDB eleger deputados estaduais e federais, entre os quais o seu irmão, Maurício, extensiva ao PT, há muito um verdadeiro estepe dessa facção requianista.
Lula tem forte rejeição no Paraná, especialmente no interior, mas recuperou-se, de certa forma, na Região Metropolitana de Curitiba. O esforço de Requião vai ser no sentido de criar antígenos contra o contágio negativo. Aliás, ele estava querendo recriar o quadro de sua eleição ao admitir que poderia aceitar em seu palanque o Nedson Micheleti ao lado de Álvaro Dias. Confirma-se com tudo isso a tese que sempre defendi no sentido de que a eleição nacional condicionava a local.
AFORÍSTICO
Está faltando Engov nas farmácias.
Teme-se falsificações. Já as de
político não, porque eles são assim mesmo
AXIOMA O segundo melhor do mundo, Roberto Carlos, que continua agindo como se estivesse numa vitrine, complicou uma jogada simples para tentar uma de efeito com uma bicicleta e acabou criando condições para o segundo gol da Dinamarca.
Esse é um risco de origem cultural que afeta outros jogadores da Seleção, como o Júnior Baiano, por exemplo. Outro que cometeu deslize foi Cafu, ao demorar para movimentar a bola com o que levou o segundo cartão amarelo.
Há uma tendência dos puristas
do futebol em mostrar horror pelo estilo de jogo do Dunga. Pensam que por isso estão no Primeiro Mundo quando permanecem no Terceiro. Dunga não enfeita e até virou lançador de profundidade.
ANEDOTA O espermatozóide teve que ir ao psicanalista porque a sua vida era um saco, o pai vivia duro e seus vizinhos eram pentelhos.
GLOSAEstá aí: o prefeito Élcio Berti fez tanta onda com o negócio do Viagra distribuído gratuitamente que andaram mudando o nome do seu município para Brochaiúva do Sul.
BIZARRICE O ex-prefeito e candidato a deputado federal Rafael Greca, frasista de escol, disse que casa dividida não pára em pé. Pois a família Belinati é exatamente a prova contrária: o marido Antonio está no PDT e firme com Lula, a mulher Emília é petebista e concorre à reeleição de vice, e o filho Antonio Carlos disputa uma cadeira na Assembléia pelo PSB. A família que se acerta unida assim sempre há de permanecer.
AINDA O PEDÁGIO Curitiba recebe mensalmente mais 4 mil carros em sua frota, o sistema viário está próximo da saturação e a formação de comboios indica um próximo esgotamento do razoável sistema de transporte público. A idéia de tarifar carros que entram na malha central já foi colocada e o próprio Herwig, secretário de Transportes, fez uma referência ao assunto sem detalhá-lo, o que deu origem à interpretação equivocada de que o usuário tivesse que pagar, por exemplo, por obras de engenharia como viadutos, trevos e as passagens subterrâneas.
Um estudo recente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), sobre problemas de trânsito, mostrou que em São Paulo, em horas de pico, a velocidade média dos carros é de 17 km/h, o que obriga os usuários a permanecer no trânsito metade do tempo que gastam ao voltar para casa. A pesquisa abrangeu dez cidades e mostrou que são desperdiçadas 240 mil horas/ano em engarrafamentos. O consumo de gasolina aumenta 200 milhões de litros/ano e o de diesel, 4 milhões de litros/ano. Deseconomia de R$ 500 milhões/ano.
Nos anos 70, quando Lerner lançou sua mobília urbana, calçadões, ele dizia privilegiar o pedestre e que o ideal seria uma pílula anticoncepcional para o automóvel. E agora ele trouxe, de uma só tacada, três montadoras. Pessoas e coisas mudam. O artigo de Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, ontem referido, explica que o caminho é a tarifação eletrônica (e cita ainda, além da Noruega, Cingapura e o pedágio tradicional entre Buenos Aires e o aeroporto de Ezeiza) porque viadutos, túneis e novas estradas ou ainda o rodízio de placas não resolvem essa engenharia do caos.
Um dos exemplos a que recorro para mostrar a irracionalidade capitalista é o de imaginar cada família chinesa com um automóvel em casa. Não há engenharia possível, por mais criativa, que resolva o problema.
PARÁBOLA Até agora a evidência física mais consequente do Mercosul, no caso específico de Curitiba, é a presença dos conjuntos de música andina que se apresentam no Calçadão, e a corrida dos sacoleiros na Ponte da Amizade.
FOLCLORE Emílio de Menezes, por causa de sua condição de trocadilhista, volta e meia era desafiado, como se dá com os pistoleiros. Certa ocasião estava num depósito de cereais e entrou alguém apontando para ele: É milho. Antes que o cara se arrancasse, Emílio replicou: Não se evada (cevada) e fazendo-o acomodar-se numa cadeira, deu o golpe de misericórdia: Sente-io (centeio).
CROMO Morena-jambo: na análise lógica do teu corpo, o sol é o sujeito oculto da oração.





