Luiz Geraldo Mazza
Trapalhões até o fim
Se Lerner está efetivamente transformando a economia do Paraná e detém a máquina em suas mãos, a troco de quê vai encontrar dificuldades para vencer uma eleição com características plebiscitárias? Porque a maior arma da oposição está justamente no governo e nas suas artes, que levam o Renato Aragão ao psicanalista ao descobrir-se um trapalhão desqualificado, perto dos gênios da especialidade, que vão do chefe aos secretários, passando pela horda dos puxa-sacos e áulicos.
Não apenas os trapalhões brasileiros, como também alguns clássicos como os Três Patetas, devem entrar em crise das mais profundas ao se descobrirem tão infantís diante de uma fauna tão refinada nessas celebrações. A demora, por exemplo, em torno do fechamento da chapa, já que se tentava alterá-la na base do desespero, para deixar Álvaro Dias com a raia livre para ganhar o pleito senatorial e facilitar tudo para Fernando Henrique, é uma dessas obras que só inspirados engenheiros do absurdo conseguem erigir. Esqueceram de consultar os escolhidos, no caso o ex-governador Paulo Pimentel (que não soma coisa alguma) como vice, e Emília Belinati como postulante à Câmara Alta, previamente para que na sequência desistissem.
Se um comparecimento de Lerner no mesmo palanque com Álvaro Dias já é algo difícil de assimilar, tanto falaram mal um do outro, o pior ainda é assistir ao espetáculo circense das hesitações do governador, embasbacado com o domínio absoluto das ações pelo presidente do Legislativo, Aníbal Khury. O esforço que é feito, de forma voluntária ou não, para perder as eleições é comovente.
Como de grão em grão, a galinha enche o papo, de trapalhada em trapalhada, o Palácio Iguaçu pode chegar à suprema obra de arte de perder uma guerra que se dava como ganha.

AXIOMA
Vejam o poder de emulação das pessoas: os marginais que cobram taxa de proteção (para garantir a passagem de caminhões de gás e da Coca-Cola em certos bairros de Curitiba) chamam esse ritual de pedágio


GLOSA Em política, o governo opta pelo método confuso e, entre o caminho das pedras e do abismo prefere esse último por desejar maior grau de dificuldade.
BIZARRICE O técnico da Dinamarca, Bo Johansson, disse não conhecer Ronaldinho. Mas não foi nada original, pois o Papa João Paulo II, nesse particular, extrapolou ao perguntar que esporte o brasileiro praticava e ainda se a sua (dele) mãe, que estava presente ao encontro no Vaticano, era sua esposa.
O VEXAME Terminou melancolicamente a greve universitária e, como nas anteriores, o ganho obtido, mínimo, não valeu o desgaste perante a sociedade, que se irrita com a frequência dessas manifestações e o fato de a instituição jamais mudar para melhor.
Greves prolongadas têm mais riscos do que as fulminantes. A história o demonstra seguidamente. Vide a papagaiada dos petroleiros que foram bailados pelo governo, indisposto a concessões demagógicas. Vide a dos professores do 1º e do 2º graus daqui, que aprenderam, depois de algum êxito, que as greves jogam, em pouco tempo, os pais (inicialmente solidários) contra a categoria por não suportarem, entre outras coisas, os pentelhos dos filhos em casa ou, o que é pior, soltos nas ruas da cidade-modelo.
A arrogância sindical vai sugerir que a batalha foi ganha como se um jogo de palavras fosse um bálsamo. Uma instituição degradada por culpa do governo, mas também de funcionários e professores, ainda mais depois desse consulado de demagogia das eleições diretas - hoje tomada pelo baixo clero, inclusive devido à paranóia das novas regras previdenciárias - precisa ser reformada, sim.
Margareth Tatcher derrotou, na Inglaterra, uma greve de mineiros que durou um ano (voltaram humilhados ao trabalho, sem um centavo de ganho). E isso foi num país muito mais sério em termos de arregimentação sindical. Essa da nossa Universidade só matou apenas o primeiro semestre, que será ‘‘recuperado’’ no padrão costumeiro do 3º grau: difícil diferenciar o ruim, o mal feito, a desídia, da rotina didático-pedagógica. Por isso tudo fica na mesma.
SPRAY O roubo de 365 mil vales-transporte de um carro da URBS evidencia que a informação da existência de tal estoque só poderia vir de dentro para fora. - Inútil, embora bem intencionada, a tentativa de Euclides Rovani, diretor de Transportes, para que empresas e bancos não comprem o vale em locais não credenciados e que tudo seja feito com nota fiscal, pois nada disso impedirá a circulação de uma tonelada e meia de vales-transporte de forma gradual. - Aliás, há muita gente que conserva em seu poder quantidades astronômicas desse valor desde o tempo da inflação, quando já aparecia como ‘‘moeda’’ indexada. - Formas de especulação com essa moeda paralela existem há bastante tempo e nada têm de novidade. A polícia deve concentrar-se no problema da informação: como os três assaltantes poderiam saber que a viatura da URBS levava a preciosidade para desenvolverem com tanta eficiência a operação. - Ontem, o ex-ministro Mailson da Nóbrega abordou na ‘‘Folha de S.Paulo’’ o tema do pedágio urbano, que o Herwig tentou tratar e foi mal interpretado: na Noruega (cidades de Oslo, Bergen e Trondheim), o motorista paga pedágio para entrar na cidade. É um sistema eletrônico de leitura de cartões inteligentes acoplados no painel de instrumentos. - Aqui em Curitiba, o engenheiro e economista Eduardo José Daros, presidente da Sociedade Brasileira de Pedestres, foi a primeira pessoa a tratar do tema, mostrando que 80% dos carros viajam com um só passageiros e que isso é um ônus para o conjunto da sociedade.
FOLCLORE A comunidade dinamarquesa é pequena no Brasil e no Paraná, isso não foge à regra. Mas há muitos cães dinamarqueses que ficaram agitados com os foguetes, pouco lhes importando se saudavam o Brasil ou a Dinamarca.
CROMO Conjugar o verbo amar no presente do indicativo é um limite poético e verbal, admitido, com mais facilidade, na ficção ou no teatro. Na verdade, todas as confissões estão imbricadas desse conflito: o de que as palavras transmitam sentimentos e não se refugiem nas dissimulações.
AFORÍSTICO O Renato Aragão olha para o Paraná e seus políticos com inveja. Eles fazem com a máxima naturalidade o que ele não consegue com ‘‘script’’.

mockup