Luiz Geraldo Mazza
De olho na Copa
Hoje é dia de morte súbita para o jogo Brasil x Dinamarca. Um sobra de qualquer jeito. Não é como na política, em que o cara que não disputa às vezes leva até mais ‘‘grana’’ do que os candidatos.
Oposicionistas acham que uma derrota do Brasil hoje atingiria mais o governo do que uma convulsão na Bolsa da Ásia. Um raciocínio parecido com as besteiras de 1970, quando alguns esquerdistas achavam necessária a perda da Copa para que o povo ‘‘se desalienasse’’, expressão que mais aparecia no glossário de então.
Lula sugere que FHC trabalha apenas com a fantasia e que ele, petista, tem o dever de mostrar a realidade. A pior das realidades para setores amplos da burguesia seria a hipótese de uma vitória do barbudo, daí a necessidade de o glamour e o imaginário levarem vantagem. As pessoas não gostam da realidade e o Lula não aprendeu isso: entre o janota com cara de mocinho de cinema e um ex-operário, a escolha é óbvia. Herói de faroeste ou romance não pode ser feio, embora a ‘‘nouvelle vague’’ tenha feito de Jean Paul Belmondo, uma negação de tipo de beleza, artista principal naqueles filmes que só eram assistidos por cineastas e críticos de cinema.
Ligou-se, por uma tradição cultural que remonta ao fastígio greco-romano, a ‘‘virtude’’ ao belo. Até Sócrates, o da cicuta e não o da caipirinha, embarcou nessa com aquele conceito ‘‘monstrum in animo, monstrum in fronte’’ - feio na alma, feio no rosto - o que pegava mal para o filósofo que era bem feioso. O Lula (e esclareça-se que votei nele no segundo turno contra Collor) perdeu os votos, de forma quase massacrante, junto aos pobres, aqueles que pretendia redimir e representar. O sujeito que está numa pior tem identificação heróica não com um igual ou supostamente assemelhado, mas sim com aquele que vive bem e é rico. Como também trabalhador não vota em trabalhador e mulher também não vota em mulher: ambos são maioria, mas têm representação minoritária.
Sêneca, num dos seus textos, explicitava essa procura maluca pelo imaginário, oposta abertamente à realidade. Lula faz o convite para que as pessoas caiam na real e essas insistem em persistir na fantasia. Tanto que o Brasil inteiro se posta diante da TV entronizada na sala ou nos lugares públicos, em busca da continuidade de uma fantasia só satisfeita com o pentacampeonato. Convocar essas pessoas para a realidade é pior que fantasia: é loucura varrida.

GLOSA
O engenheiro da operação política de Lerner é Aníbal Khury, que não gosta de ser contestado e de saída garante que a edificação que está montando nada tem a ver com as artes de Sérgio Naya. Lerner quer mexer na chapa: se puser a mão não queima, porque a chapa é fria


AXIOMA Curitiba morre de sede, mas tenta preservar o ‘‘macuquinho da várzea’’.
Logo aparece um biólogo estrangeiro para defender a lesma ameaçada de extinção no Vale do Barigui. Tudo ali está ameaçado, incluindo as pessoas.
PERGUNTA que não ofende: montar uma chapa é mais caro do que atrair montadora?
BIZARRICE Bastou o ToniRamos fazer o papel de garoto propaganda do Banestado para que a Globo o escalasse para interpretar um marginal em ‘Torre de Babel’.
SPRAY Onde há mais trapalhões no governo: na área política ou na cultural? O filme ‘‘Oriundi’’ está sob ameaça de não ter recursos oficiais porque, mais uma vez, a caitituagem em favor de protegidos da terra estaria operando. - Dá para imaginar a frustração que teríamos, depois da vinda de Anthony Quinn, se o projeto falhasse. - Vexame, no entanto, foi a inauguração do Canal da Música em cenário incompleto e sujo e com o povo, boa parte composta de mal educados, falando em voz alta e interrompendo o concerto dos três artistas americanos. A ânsia de inaugurar feitos antes da proibição legal leva a esses absurdos. O pior é que as convenções passaram e Lerner não conseguiu inaugurar a chapa. - Uma campanha contra o pedágio está no disparo: vai mostrar os efeitos perversos da medida em termos de impacto na atividade econômica (desemprego, aumento de custos operacionais, perda de competitividade) e sugerir ações para desgastar o governo e obrigá-lo a rever as tarifas. - Caso da Leasing Banestado vai dar matéria-prima para a oposição não apenas no Paraná, mas também em Sergipe e será, por certo, utilizado na campanha eleitoral. Se o Paraná se mostrou um Estado aberto para a atividade do crime organizado, também exibiu sua vulnerabilidade no banco público ao conceder milhões de empréstimos sem qualquer garantia cadastral. - O que tornou o caso em Sergipe ainda mais excitante foi o fato de a Justiça ter concedido medida cautelar em favor do ex-governador João Alves, proibindo o semanário Cinform de noticiar o furo sofrido pelo Banestado. O ato de censura é incompreensível porque o jornal apenas divulgou notícias das providências que o Banestado havia tomado ante os trambiqueiros, na Procuradoria Geral da República. - Ontem, dezenas de cópias de um dossiê das operações feitas em Sergipe circulavam entre jornalistas. - Um dos dados mais caricaturais é a operação fraudulenta do genro de João Alves que teria, segundo auditagem do Banestado, transferido a Rápido Laser para um motorista, após ficar com os R$ 5,2 milhões. - Como Jaime Lerner promoveu o causador desses estragos, irrecuperáveis, na Leasing, Osvaldo dos Santos Filho, a secretário de Esportes, o envolvimento é visível porque o próprio presidente do Banestado, Neco Garcia, acusa o ex-diretor de responsável maior pelas gravíssimas irregularidades que neste momento abastecem o dossiê das denúncias do senador Requião e que trarão efeitos eleitorais.
FOLCLORE Requião desafiou Lerner para um debate e o governador não aceitou. Ele já explicou 100 vezes que enquanto num debate com Greca o senador ouviria a resposta na hora, ele, Lerner, só a daria no mínimo 24 horas depois. Seria assim como o tempo que está levando para acertar a chapa e aquele usado para decidir o seu ingresso no PFL.
CROMO ‘‘A cidade se descobre// sai de trás dos seus tapumes//reinventada sobre o asfalto// cimentada à eternidade.// A cidade está nas nuvens// presa à sua intimidade’’. Poemas oníricos de Colombo de Souza em ‘‘Estágio’’.
AFORÍSTICO O sujeito oculto da análise lógica é o Aníbal Khury. E o inculto, afinal de contas, quem é?

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