Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Lerner, o não político
De todos os arranjos havidos para a montagem da chapa sem riscos do governo, os maiores constrangimentos sobraram para Jaime Lerner. Como um jejuno em política é presa fácil de todas as seduções, especialmente dos mais hábeis, com Aníbal Khury no comando acoplado ao seu regra três, Cândido Martins de Oliveira, vamos ter que suportar ainda mais assédios, enquanto houver tempo para esses rituais que não terminaram com as convenções.
Quem tem voto é Lerner e não Aníbal Khury que já teve, na penúltima eleição, dura dificuldade para não ficar na segunda época. Seus adversários, naturalmente exagerando seus poderes demiúrgicos, chegaram a sugerir que ele brincava de videogame com os resultados eleitorais, o que obviamente é folclore e dos mais maldosos, para tentar subestimá-lo. Mas Lerner é refém, notoriamente, de uma esquema de forças, tanto políticas como empresariais, razão pela qual ele se mostra assustado e perplexo, permeável às pressões, mesmo que sob os fundamentos mais absurdos. Numa situação dessas, o bruxo deita e rola, valendo-se do nutriente básico: a fragilidade do governador.
Até a 25ª hora vão tentar convencer Emília Belinati a trocar de posição para a vice e Paulo Pimentel tira o time de campo, com excelentes serviços prestados à coligação e recebendo naturalmente um diploma honorário porque é um combatente das boas causas. Aliás, já disse aqui e repito que Pimentel na vice é uma contradição em termos: o ajuste na chapa é de caráter geopolítico e não teria sentido dois metropolitanos no pedaço, o que daria até para Álvaro Dias insistir naquele slogan de lutar por um Paraná por inteiro.
Insista-se num ponto: a despeito do potencial de Lerner, o maior dos últimos cinquenta anos dos paranaenses em termos nacionais, superior, em muitos aspectos, ao próprio Ney Braga, até pela modernidade, ele é de uma mediocridade rasteira em personalidade, afirmação. Perde longe de Álvaro Dias e de Requião nesse particular e resta-lhe comer pela mão de Aníbal Khury, já que os empresários, que investem na aventura eleitoral, não dão palpites, apenas ouvem para exigir depois a contraprestação óbvia.
Em favor de Lerner, em quem muitos enxergam um indeciso, pesa a idéia de que é também um não político e alguns dos seus assessores acham isso muito bom, aliás a maioria não passa de áulicos, e um fator favorável. Para a mediocridade do raciocínio ou do comportamento não há limites.
AXIOMA
Entregue o dinheiro do pedágio em atitude de mãos ao alto. É o jeito de agir na ida. Na volta, puxe o forro do bolso para mostrar que te levaram tudo
GLOSA De cada R$ 10 investidos no País em 97, R$ 1 foi para o Paraná, segundo o BNDES. E quantos reais tivemos que abrir mão em renúncia fiscal?
BIZARRICE O senador Roberto Requião disse ontem que o palanque do PMDB está aberto para Álvaro Dias e isso diante do Nedson Micheletti, o ungido do PT. Enfim a repetição da história de 1990: o PMDB criou um candidato laranja no PDT, que era o Tadeu França, enquanto cristianizavam o Valdir Pugliesi para o Senado. Se Álvaro Dias aparecer em palanque de Lerner pega mal, dá para imaginá-lo, em situação mais constrangedora ainda, com Requião. Dá paracalcular a torrente de votos em branco e nulos que virá depois dessas e principalmente dos acertos das últimas convenções se o povo for informado dos detalhes das composições ainda não concluídas.
SPRAY Políticos de Sergipe estão no Paraná coligindo dados sobre os trambiques da Leasing Banestado e que teriam beneficiado parentes do ex-governador João Alves. - O dossiê não é pequeno, mas em Aracaju a imposição do sigilo impediu que a imprensa oposicionista abordasse o assunto. - Duas dessas empresas que tomaram empréstimos, sem qualquer garantia cadastral, já desapareceram, como entidades voláteis que eram. Uma delas é a Rápido Laser. - Afora as 25 notícias-crime providenciadas pela direção do Banestado, baseadas num trabalho de detetive profissional (o mesmo que ajudou a desvendar a patifaria do Clube dos 60 com ICMS na Dívida Ativa), um relatório de Aracaju deve, a essas horas, estar na mesa da Procuradoria da República. - Uma das peças de resistência do plano de politização do caso Banestado é justamente esse, ao lado de outro, o da vergonheira com a negociação de títulos estaduais, picaretagem de altíssima voltagem. - O governo se esforça para transformar isso numa caixa preta, mas não o conseguirá porque há abundante documentação não apenas na justiça como também na posse de políticos de oposição e líderes sindicais. - Já há prisão preventiva contra o delegado Paulo Padilha, de Almirante Tamandaré, em cuja área se desenvolvia uma rede de apoio ao crime organizado em roubo de automóveis, tráfico de drogas e extorsão. O policial se mandou e não se sabe se fará sua apresentação voluntária. - O prefeito Hélio Queiroz, de Pontal do Paraná, acaba de criar o Dia do Evangélico a ser comemorado em 30 de setembro. Ele fez a proposição e o Legislativo a aprovou por unanimidade. - Paulo Pimentel pode dar um apoio excepcional a Lerner com seus dois aviões a jato, um dos quais só aterrissa em Curitiba, Londrina e Foz do Iguaçu por se tratar de aeronave de grande porte. A outra se presta a vôos domésticos.
FOLCLORE Álvaro Dias se arrancou para a França para fugir do assédio, tanto dos bem quanto dos mal intencionados em cooptá-lo eleitoralmente, para comentar jogos do Mundial para uma rádio do interior. Álvaro entende do riscado, é um goleador exímio em peladas (não como Richa que recebia bola dos áulicos na banheira), mas não é pé quente. Corintiano de convicção, foi ao Morumbi assistir a final com o São Paulo e levou na cabeça, decepcionando também o filho, o Alvinho, que o acompanhou. Tomara que dê sorte e aí merecerá o ministério que lhe vão oferecer, se FHC se reeleger. Na verdade, sua eleição está mais garantida do que a de FHC e a do Brasil.
CROMO A italiana não tem balangandãs// a italiana não tem acarajé// Pois é: tem ravióli// tem talharini, tem espaguéti// e tem polenta para quem quiser.// Era a marchinha de Carnaval dos anos 40, mostrando a italiana como se fosse a baiana com seus tabuleiro de acepipes. No tabuleiro da baiana tem// vatapá, ôi, caruru, mungunzá, ôi, penambu.// Bons tempos aqueles em que era possível memorizar cantigas de Carnaval. Quem sacar um samba-enredo de hoje pode decorar a táboa de logarítmos e a lista telefônica.





