Luiz Geraldo Mazza
Atrás do biombo
Ridículo, para dizer o mínimo, o conceito das convenções partidárias: desde a nacional do PMDB às regionais dos partidos grandes aos nanicos, prova exuberante de que não temos democracia e que as nossas lideranças têm vocação fortíssima para a ditadura, incapacitadas que estão desse gesto elementar que é o reconhecimento do ‘‘outro’’, o seu diferencial, o seu contraste.
Tanto no PPB como no PSDB fingia-se, no ‘‘decor’’ da convenção, que havia uma acirrada disputa quanto a objetivos doutrinários e estratégicos. Na verdade, a decisão era tomada em ‘‘petit comit钒, numa salinha, onde apenas os inspirados tinham acesso. Enquanto isso, as negociações com o governo e, ao mesmo tempo, com a oposição, se desenrolavam na maior tranquilidade.
O assustado governador, destituído daquele mínimo de energia para decidir, alimentava toda a encenação: qualquer informe que chegava ao Palácio Iguaçu provocava taquicardia, primeiro nos áulicos, é claro, porque esses são como aqueles experimentadores de veneno na corte dos Bórgia: morriam, roxos, mas com um riso nos lábios, na consciência do dever cumprido.
A democracia não exclui a existência de figuras fortes que comandam. Isso se dá também no Primeiro Mundo. Por aqui, no entanto, qualquer dirigente de zonal se acredita um inspirado, um estadista. Não espanta, pois, que os fortes como Aníbal Khury submetam tanto os demais. Há quem o compare a ACM. Isso não tem o menor sentido: Aníbal tem um raio menor de influência, porém dotado de aguda capilaridade entre os poderes de Estado e os municípios. É um Antonio Carlos Magalhães rurbano, como diria o Lerner para impressionar Alvin Toffler.
Quem se torna pequeno, nanico nesse processo todo, é o governador Jaime Lerner, que nesse constrangimento expõe a sua incapacidade para a política. Tanto que ao invés de dar prioridade ao saneamento do Banestado se ocupava o dia todo da cloaca das acomodações partidárias, buscando soluções finais e sem risco para a sucessão, o que sabidamente é uma tolice. Essa garantia não há, como mostrava Fellini em ‘‘Oito e Meio’’, ao espírita que só ingressa no credo se tiver a certeza de que reencarna como ‘‘espírito de luz’’, e ao católico que deseja garantir-se da posse de uma cadeira cativa na mansão celestial.

FOLCLORE
Diante do inevitável, apela-se para o gestual: na hora em que você estiver na bilheteria do pedágio, pode perfeitamente erguer os braços como se estivesse sendo assaltado. Legítimo, pedagógico e verdadeiro


AXIOMA Onaireves Moura, presidente da Federação Paranaense de Futebol, frisa que basta o Lerner convocar que ele vai à TV e aos palanques para apoiá-lo. É mais um saque, meio espirituoso, do Rubinho Ferreira.
GLOSA Cássio Taniguchi está fazendo marola contra a poluição sonora e mandou fechar vários botecos e discotecas, segundo o noticiário. Só que tem um de corpo fechado, o tal de El Rancho, que tanto a Delegacia de Ordem Social como a Secretaria do Meio Ambiente já pediram a sua interdição.
BIZARRICE Quem está de volta é o Santinho Furtado, que já se elegeu deputado federal pelo Norte Pioneiro. No tempo em que militava no PMDB, reclamava que a sua ‘‘área’’ estava sendo invadida por pára-quedistas, isto é, candidatos de outras regiões. E o Fruet (Maurício) fez um trocadilho lembrando que nesse tipo de luta até ‘‘santinho’’ (material de campanha) é furtado, quanto mais candidato.
IMUNIDADE Para ampliar a extensão das imunidades parlamentares às ações cíveis, já aprovada no Senado, Roberto Requião argumentou que muitas vezes juízes da primeira instância acolhem equivocadamente ações contra membros do Congresso em função de suas opiniões. Há sentenças contra o senador, como a do processo do juiz Sérgio Arenhardt, e dezenas de outras ações populares desde o tempo em que era prefeito (recebimento do 13º) e gastos abusivos com propaganda, bem como a das diárias frias, já no Judiciário.
Fica mantido, como foro privilegiado, o Supremo Tribunal Federal. Há situações em que o processo precede a investidura parlamentar como os havidos durante o mandato de prefeito e de governador.
SPRAY Cenas de histeria explícita ontem nas convenções. Apenas provam aquilo que estamos cansados de saber: o Paraná não é levado a sério justamente em função da classe política que tem. - Ratinho tentou viabilizar o ‘‘boteco’’ na França e pretendia fazê-lo com matérias polêmicas, como mostrar aspectos negativos daquele país, seus marginais, seus pobres, e encontrou resistência do próprio povo. - Num determinado dia, os ‘‘sem documentos’’ (africanos e outras minorias étnicas que lá vivem há anos e não estão regularizados) provocaram um incêndio perto da Renault e tanto a polícia, como populares não permitiram que a equipe da Record fizesse as filmagens. - Bastou, porém, o retorno de Ratinho ao seu ecossistema no Brasil e foi o suficiente para voltar a liderar a audiência, batendo, inclusive, a Globo, até mesmo no horário da novela (‘‘Torre de Babel’’) que usa muito o mundo cão para aproximar-se dos valores do programa da Record. - Incidentes ontem nas praças de pedágio indicam que a resistência aos abusos nas tarifas persistirá e vai ao Judiciário.
REENCONTRO A partir de amanhã teremos em Curitiba o 2º Encontro Internacional de Registro de Empresas Mercantís, que traz autoridades do Brasil, Estados Unidos e de países da Europa. Objetivo é uniformizar procedimentos no Mercosul, examinar aspectos do direito registral e arbitragens em contratos societários.
Como diretor da Junta Comercial do Rio Grande do Norte, Airton Soares, deve participar, oportunidade em que tentarei retribuir-lhe as gentilezas que dele recebi quando estive em Natal com esposa, filha e genro. Com ele reaprendi o óbvio de que o turismo tem a sua melhor dimensão no conhecimento das pessoas: elas é que dão sentido à geografia (a beleza das falésias e dunas das praias inesquecíveis) e à história. Fiquei surpreendido com o standard de vida potiguar, a densidade do seu comércio e do seu turismo, a qualidade dos restaurantes como ‘‘Camarões’’ e a ‘‘Peixada da Comadre’’, tudo sob os cuidados de um cicerone que projeta bem a fidalguia do seu povo.
EPIGRAMA Anteontem, São Pedro, políticos, especialmente, pensavam menos na chave do santo-porteiro para a entrada no Céu do que na chave do cofre.
CROMO Clara Rosa, ontem, no fim da tarde, no rubor do horizonte tudo estava, como nunca, rosa-claro.

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