Luiz Geraldo Mazza
Na aridez do governo estadual, sobressai-se alguém que não gosta de propaganda, que é sério de verdade e cuja categoria é de nível ministerial: Miguel Salomão, o homem que projetou, pelo Fundo Monetário Internacional, o Banco Central de Angola. Pois era a bola da vez em todas as especulações palacianas na tal reforma secretarial em andamento, e tudo em cima de uma sacanagem, repetida à exaustão: a de que era mau arrecadador, o que num governo gastador torna as coisas mais drásticas.
Além de ter aumentado nos dois anos a arrecadação estadual em mais de 50%, não levando em conta a deflação, agora neste mês de janeiro obteve crescimento de 19% em relação a igual período do ano passado. Deflacionado esse número, ele dá nada menos do que 11,55%, recorde absoluto, quando Minas, um dos que melhor opera nesse campo, mal se aproximou de 5%. Para o terrorismo dos que insistem, isso é insuficiente, e continuarão repetindo que é mau arrecadador.
Punir a eficiência e, mais do que isso, a austeridade é a regra moral dos mal-intencionados. Ainda anteontem, a prisão de mais um dos chefes da gangue que falsificava guias do ICMS no Clube dos 60, o Francisco Gevaerd Júnior, foi algo que coloca bem o conjunto do governo: Lerner que não quis saber sequer o nome dos que estavam envolvidos (embora houvesse entre os beneficiários da fraude pessoas de suas relações e até financiadores de campanha). A Secretaria da Segurança Pública agiu com firmeza e competência, e a da Fazenda, afinal, descobriu toda a armação. Se o poder público agisse orquestradamente como nesse caso, certamente haveria menos patologias internas.
Outra medida da atuação de Miguel Salomão: ele foi muito além do que visava a campanha cívica do Cidadão Nota 10, cuja eficácia na tradição paranaense é relativa (seu maior feito indireto até hoje foi a rebelião da Guerra do Pente, que decretou o estado de sítio, com as turbas nas ruas quebrando todas as casas de comerciantes árabes nos anos 50) na cobrança dos devedores e no apuro em sintonia fina das rotinas funcionais.
Num governo que faz concessões fiscais como o atual, no caso específico das montadoras e de toda a malha produtiva, é preciso manter a retaguarda da gestão financeira, ainda mais quando a sua operação foi profundamente modificada com o Plano Real, por não haver como fazer a toalete, via correção de fluxo de caixa pela inflação, do caixa.
Sabe-se por que um secretário com o perfil técnico de Miguel Salomão não interessa: os políticos de baixo padrão, corretores da esperança, ativistas do pior dos assistencialismos, querem no comando financeiro o homem do tapinha nas costas, aquele que facilita acertos no Banestado (por sinal que a situação não é lá muito boa, o que não conteria a cupidez dos corsários de sempre), que busca a contemporização no conflito (sonegação, fraudes, molecagens mil) e enfim se ajusta aos rituais conhecidos.
Com a devolução de atribuições que haviam sido delegadas, erradamente, mas por inspiração política, ao Planejamento (no tempo de Taniguchi), a pasta tende a ganhar ainda maior eficiência. Há setores que podem até desejar esse aumento da eficiência, mas no fundo querem transformar um setor estratégico em refém dos seus interesses nem sempre muito claros.
BIZARRICE - O político nordestino que só andava de terno branco começava com muita arte os seus discursos: Eu vim de branco para ser claro!. É um caso de redundância em metalinguagem.
SPRAY - Belmiro Valverde escrevendo um livro sobre administração pública. Tomara que desmistifique a falsa dicotomia do Estado ausente dos neoliberais com o Estado onipresente dos patrimonialistas como fez em recente palestra. - A herança de Rafael Greca é bem maior do que os R$ 160 milhões anunciados. Há muito empreiteiro e prestador de serviços que está desesperado na fila dos credores. Ademais manter todas as obras em andamento na crise atual não vai ser fácil. - R$ 3,3 milhões em Faxinal do Céu por 21 sessões de psicodrama é muito dinheiro. Prodigalidade para ninguém botar defeito, ainda que haja aspectos meritórios na iniciativa. Custo-benefício é medida de tudo e parece discutível o retorno esperado em termos de massa. - Tony Garcia versus José Carlos de Carvalho, por causa de ditos (excessos naturais) da campanha eleitoral para o Senado, vão se encontrar dia 19 na 177ª zona eleitoral para explicações ao juiz. - E os processos de inelegibilidade de Rafael Greca, Cássio Taniguchi e Algaci Túlio tramitam na 1ª zona e já deram margem às respectivas citações. - Campanhas eleitorais deixam sequelas: Rízio Wachowski, lá em Araucária, também enfrenta um processo desses, aquela estória do domicílio eleitoral. Depois que acertaram o caso do Lerner em 88, que tinha o seu título no Rio, nada deveria pegar.
FOLCLORE - Estávamos eu e o Anfrísio Siqueira na Boca Maldita, quando vimos o professor Marcelo Caetano, exilado português da Revolução dos Cravos como seu último premier, aproximar-se do Braz Hotel, o preferido aqueles tempos pelos prefeitos do interior. Resolvemos fazê-lo quebrar, hábito curitibano que consiste em chamar o nome de uma pessoa sem que aquela saiba de onde partiu. Fiquei num canto e gritei: Marcelo. E o Anfrísio, de outro, sacou, é claro: Caetano. O homem rodopiou na porta do hotel como se tivesse uma cabeça flexível capaz de atender, a um só tempo, os dois chamados.
CROMO - Didático-poético seria ensinar astronomia para crianças com as bolinhas de gude: transfixadas pelo olhar revelador e agudo, aquele que capta a sutileza das laranjas e detecta o olhar tenebroso das formigas, chegariam, por certo, ao primeiro dia da criação no improvisado calidoscópio.





