Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Fim de novela
Até esta terça-feira teremos que suportar ainda alguns capítulos da tediosa novela da sucessão. Há quem acredite que até amanhã tudo esteja resolvido, mas haverá ainda cenas grandiloquentes, chantagens, barganhas, shows, predomínio da especulação sobre o fato porque este, nessas ocasiões, lembra o azougue, o mercúrio solto no ambiente, fragmentando-se, atomizando-se.
Como o governador é refém de múltiplos fatores, mas especialmente de atores afirmativos como Aníbal Khury, ainda vai render um pouco esse espetáculo de mafuá, mambembe, que é a política paranaense. Pelos personagens e suas ações, dá para perceber porque o Paraná é tão desrespeitado em escala nacional. Desse jeito é difícil obter respeito e consideração, compatíveis com o elevado nível de contribuição regional ao conjunto do País, especialmente em divisas.
A melancolia desse processo vai se traduzir nas urnas no ceticismo daqueles que votam em branco ou anulam o voto. Pelos candidatos que foram colocados, temos a evidência de que, como no caso do Brasil, carecemos de quadros: as figuras se repetem e nada trazem de novo. Depois do represamento das liberdades e do restabelecimento do estado de direito democrático, era de confiar num sinal de renovação que não temos. Lamentável para dizer o mínimo.
Tenta-se um caminho, ainda no primeiro turno, tanto no Paraná quanto no País, de confronto plebiscitário. Não há empolgamento eleitoral, afora os circuitos estreitos dos vinculados aos grupos políticos e econômicos em confronto, e isso se dá justamente pela ausência do novo.
Dentro em pouco teremos a torrente das pesquisas e mais a baixaria dos ataques pesados para desgastar concorrentes. Aquelas serão menos frequentes do que estes, mas as primeiras serão fundamentais para posicionar os candidatos diante dos financiadores de campanha. Aí o governo leva vantagem por sua maior capacidade de mobilizar recursos, inteligência, a própria máquina que mesmo sob vigilância, tanto da Justiça Eleitoral como da oposição, é fator relevante para desequilibrar.
E as idéias, as propostas? Teremos um quadro sáfaro, desértico, retórico e, muitas vezes, primário, porque infelizmente entre nós as eleições mais deseducam do que formam o cidadão. E reacumulando essa energia negativa, a despeito dos milhões gastos, faremos crescer, o que é já latente na cultura das massas, a evasiva delinquente da fujimorização, nostalgia da dureza... em defesa da ordem, a pretexto de ofensiva contra excessos de liberdade. O pior é que esse autoritarismo é visível inclusive nos nossos autoproclamados
liberais e nos tidos como vanguardeiros da esquerda.
AFORÍSTICO
Cartão vermelho para a maioria dos políticos e amarelo para os demais. Até a minoria honesta já se sente advertida.
ENIGMA Álvaro Dias recebeu uma carta do presidente da República da qual se pode dizer, no mínimo, que é enigmática. É que nela o presidente o espera em Brasília o que pode significar a eleição para o Senado como uma escolha eventual para o ministério.
AXIOMA Muitas cidades médias e de grande porte fazem campanhas contra os chamados pára-quedistas eleitorais: Campo Mourão, Guarapuava, Paranaguá. Se essa onda crescesse, teríamos a solução no voto distrital misto, contra cuja adoção há bastante resistência.
GLOSA Estão chamando o Élcio Berti, prefeito de Bocaiúva do Sul, de Lerner que não deu certo porque usa o marketing para simular ação: a referência é às duas tentativas, uma com a proibição da camisinha e a outra com a distribuição do Viagra. Só que a cidade está começando a achar que o prefeito, em lugar de elevá-la com as promoções, acaba ridicularizando-a. Enquanto ele se perde nessas, os municípios da Grande Curitiba tiram partido da chegada das montadoras e conseguem beliscar indústrias de componentes. Até Quatro Barras tirou algo e o mesmo se dá com Campina Grande do Sul e Pinhais.
BIZARRICE Maluf está se perdendo: outro dia foi o vexame daquele trote em que pretendia desmoralizar a polícia de São Paulo e acabou tendo que reconhecer a sua eficiência. Agora pisou na bola para valer, ao recomendar que o pobre e o desempregado ataquem supermercados. É uma variante do estupra, mas não mata de anos passados. Nem com a ajuda do Naninho, Carlos Nasser, o cara melhora. Uma lufada de besteiras.
SPRAY Além do peso específico que haverá na folha de pagamento com a queda do redutor para advogados e delegados de polícia a partir de agosto, o governo vai pagar atrasados dos juízes em 80 prestações. - Como a situação financeira do Paraná é delicada e a arrecadação reage pouco, o desequilíbrio persistirá, além, é claro, dos transbordamentos de época eleitoral. - O governo não vai poder dar um tombo nos servidores, que se beneficiariam com a derrubada do redutor, sob a alegação de impedimento eleitoral porque essa questão foi decidida em acordo nos autos de um processo, com os interessados abrindo mão do seu direito (que não era pequeno) a atrasados. - Advogado público pode atuar contra o governo? Não. Esse impedimento vai a registro nos assentamentos de restruição (uma capitis diminutio dos romanos). Nessa questão rumorosa de terras, dos grilos Boa Esperança e Apertados, um advogado do Estado aparece publicando até editais na imprensa como autor da reivindicação. - É que o mau exemplo vem do sistema, com gente do governo e aparentados com ações pesadas contra o poder público. Um governo que protege seus parentes diretos perde moral para mediar essa barbárie. - Cascavel está furiosa com reportagem da revista Fatos, em que um detetive particular, especializado em áreas da infidelidade conjugal, diz que a cidade tem muito mais corno do que se imagina. Num saque meio terrorista, anuncia que pode haver escuta eletrônica na Câmara Municipal. - Em Curitiba houve um caso de grampo telefônico, explorado pelo então vereador Marcelo Almeida, que rendeu bronca até hoje tramitando na Justiça.
FOLCLORE Chicago Hope, série de medicina tanto na TV a cabo como na aberta (Record), apresentou, nesta semana, um episódio de cirurgia cardíaca em que o médico, por não ter recebido um coração para o transplante, anuncia que vai, na emergência, adotar o método Batista (Randas, aqui da terra) e tira um naco do coração da paciente com pleno sucesso. Paranistas ficaram com o coração fatiado de emoção pelo justo reconhecimento às habilidades do cirurgião paranaense.
CROMO Pode até ser bonita e fazer rendilhado na relva, no orvalho congelado, mas como a geada agride, especialmente o café, e aí as nossas esperanças.





