Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Ao braço de ferro!
O governador desafiou a sociedade a um braço de ferro: acha que pode subjugá-la com a tradicional manipulação dos meios de comunicação, a motoniveladora do Legislativo estadual, que com ele se perfila, como se ao povo não restasse outro destino que não o da obediência bovina. Ao inaugurar a duplicação da Rodovia do Café, jogada feita com o propósito de dissuadir as resistências ao absurdo das tarifas do pedágio, espoliativas, delinquentes, jamais clareadas em termos econométricos e atuariais, sugere que esses consórcios fazem algo mais do que a maquiagem até agora evidenciada.
Vamos ao braço de ferro, aceitando o desafio de um governante que esconde tudo se valendo do mundo virtual dos anúncios coloridos como é o caso escabroso do Banestado, que com o saneamento gasta o dobro do que os ianques tiveram que aplicar na compra de yenes para segurar a crise japonesa? Essa questão do pedágio é um bom campo para o exercício da democracia. Não há uma só pessoa de bom senso que não concorde com a cobrança, mas só um desatinado aceita os valores fixados. Desobediência civil é a saída.
A batalha não está perdida porque o governo acredita que a resistência passa, mesmo a exercida nos tribunais (há jurisprudência do STJ impondo a exigência da via alternativa, num julgado de Minas Gerais, para cobrar pedágio, com o que se complementa o direito substancial de ir e vir, consagrado no texto constitucional) e que virá logo, ainda mais com notícias como essa de Mauá da Serra, e os cromáticos recados da televisão, a acomodação. É afinal o que fizeram, com engenho e arte, em Curitiba, com a ideologia da cidade-modelo, uma empulhação que conta com a farsa de reuniões internacionais de urbanistas que vêm aqui beber da mais pura fonte, desde que não seja a água dos rios Belém, Ivo e do Barigui, todos pesteados, inclusive os da captação do Iguaçu que abastece a cidade à custa de cargas ciclópicas de produtos químicos.
Diante do governo que tolera invasões de terras - e não o faz por espírito democrático, mas por não querer desgastes eleitorais - é indispensável que novos atos se façam nas rodovias enquanto o governador não rever as tarifas que tornam a vida dos caminhoneiros, dos produtores e usuários em geral, um inferno. Ele só age sob pressão. No momento, a eleitoral é a dominante. As duplicações, como essa da Rodovia do Café, são tão verdadeiras como a história do Banestado: há um prazo longo, contratual, para executá-la e os donos das estradas, os tais consórcios, fixarão os cronogramas convenientes, enganando-se o público, de um modo geral, com placas, movimento de terra, enfim mais simulação. A cidadania resistente, preceito que vem de Thoreau, é a única arma disponível contra essa forma de despotismo nada esclarecido.
AFORÍSTICO
Como tornar pedagógico o pedágio
com os adágios oficiais?
AXIOMA De onde sairão os recursos financeiros para sustentar as campanhas eleitorais? Das empresas que não pagam sequer impostos e que estão quebrando, dos bancos que esfolam os correntistas com o abuso das taxas, ou seria de áreas com folga e dinheiro rápido? O PPB, não alinhado, acha que é por essa via, em triplicata, que se chega ao nó da questão.
GLOSA A Copa só começa agora, segundo Zagallo. E pra nós, se continuar como está jogando a Seleção, pode acabar amanhã.
BIZARRICE A euforia tem antígenos contra o senso do ridículo: Lerner, muito gordo, assumia o comando de uma motoniveladora na encenação da duplicação da Rodovia do Café. Aí alguém, ao lado, se for possível a máquina se movimentar com tamanho peso, já dá para acreditar que a inauguração é para valer.
PIADA Todos sabem que o Caio Soares é um bom contador de anedotas e um dos preferidos do Palácio Iguaçu e da turma lerneriana. Atribuíram-lhe uma, cuja autoria nega, em que teria declarado: Meu Deus, será o Requião, mais uma vez, a nossa Noruega? Mesmo que o tivesse dito, haveria uma saída: a de que a piada valeria, quando muito, para o primeiro turno. Aliás, se houvesse dois turnos naquela eleição de 85, Lerner ganharia? Dificilmente porque o governo (José Richa, Álvaro Dias, mais o prefeito Maurício Fruet) estariam com o ganhador. Depois dessa piada, só faltava um bolinho de bacalhau.
SPRAY Aliança informal com Álvaro Dias era a hipótese mais cogitada para o chapão do Senado na área oficial. - Para dar veracidade à cena, já pela manhã, o ex-prefeito Rafael Greca pulava fora e decidia disputar a Câmara Federal e fazia uma frase: Político sem povo é galinha sem ovo. - Todavia, não dá para contar com o ovo enquanto este permanecer no interior da galinha, e a propalada aliança informal até o fim da tarde não estava confirmada porque não se conhecia o resultado da audiência de Álvaro Dias com FHC. - Tudo, no momento, não passa de um ovo sem galinha, conforme a antiga reflexão metafísica: quem nasceu antes? - Ontem Álvaro, hoje Lerner com FHC. Se houver acerto, como estão sugerindo os áulicos, dá para colocar a música sertaneja somos dois sem vergonhas em coisas de amor como fundo da aliança. - Corria algumas redações, ontem, uma xerox do jornal do Senado, na qual aparecia em primeira página uma emenda do senador Roberto Requião ao projeto sobre as imunidades parlamentares, incluindo as ações cíveis. A primeira interpretação, ligeira e sem aprofundamento, era a de que os deputados estaduais, por exemplo, inadimplentes do Banestado, enquanto tivessem mandato, não poderiam ser executados. A publicação era do dia 4 e parecia muito confusa e conflitante com o estilo do senador. - Lerner falou ontem em pedágio oculto, referindo-se às mortes nas estradas. Só que elas continuam nas pedagiadas e não se sabe quando os consórcios pagarão os seguros. - A hipótese de algumas empresas utilizarem o Porto de Santos para evitar o ônus não é desprezível.
FOLCLORE Rosinha é uma rosa pequena, o que não assenta bem no Florisvaldo Fier, combativo deputado do PT, dotado, como se sabe, de um gume de vespa. Ele não gostou, ontem, de ser usado como laranja do governo num release eleitoral do Palácio em que faz restrições ao apoio a Requião por seu partido. O deputado não tolerou a safadeza e esperneou com razão. A impressão, quando se vê esse tipo de açodamento, é a de que o governo está numa UTI e não em plena ofensiva, nem sempre virtuosa, o mais das vezes virtual, como o simulacro da duplicação da Rodovia do Café. A burrice contagia.
CROMO Atmosfera com umidade absoluta, temperatura próxima ou abaixo de zero no solo: insumos da neve. Resta saber se, vertida em flocos, repõe o clima de 1975 de happening lúdico do curitibano. Como nem a poesia é respeitada, teme-se o indevido aproveitamento eleitoral, inevitável e de mau gosto.





