Luiz Geraldo Mazza
Mortalidade dos mitos
No culto doloroso à morte de Leandro repete-se a liturgia antes observada nos casos de Tim Maia e, especialmente, de Airton Senna, o que não ocorreu sequer com o desaparecimento do senador Darci Ribeiro, do educador Paulo Freire e, mais recentemente, do urbanista Lúcio Costa. Há quem veja nisso uma triagem de paradigmas feita pelo povo, na qual pesa o ‘‘showbiz’’, a imanência da mídia e da sociedade do espetáculo. De fato é mais fácil a identificação heróica com os cantores e esportistas do que com políticos e cientistas. É uma questão da cultura de valores do brasileiro e que não o diminuiu em relação a outros povos porque o ritual em torno da morte de Sinatra ainda está vivo na memória de todos.
Descontados os exageros da Globo e das outras TVs, que se esmeram na exploração de eventos de alta escala de morbidez, e o exercício sadomasoquista na sustentação de um quadro emocional dirigido, há de compreender-se que o público, já por natureza melodramático e prenhe de carências de ordem afetiva (o presidente FHC não disse outro dia que ele quer carinho, antes de tudo?) faça essa eleição por aqueles com quem mais se identifica até na medida da auto-superação do chamado inconsciente coletivo. Senna, por exemplo, mais do que Fittipaldi e Piquet, encarna algo próximo do super-herói porque projeta no circuito a virtualidade de um país ainda mergulhado no subdesenvolvimento, o que funciona como um contraponto em termos de tecnologia acoplada à coragem e à maestria.
Cada mito é uma extensão das pessoas, no campo do seu imaginário. Em relação a isso, de pouco vale a advertência cartesiana de Galileu Galilei discorrendo sobre a fragilidade dos povos que precisam de heróis. Essa radicalidade de lucidez não é compatível com a fragilidade do homem que precisa de um Deus, feito à sua imagem e semelhança, portanto megaextensão de si próprio, como ensinariam os manuais de antropologia.
Dá para imaginar se ao tempo da morte de um Francisco Alves e de um Vicente Celestino, tivéssemos a metade da parafernália dos ‘‘mass media’’ de hoje, o ritual por certo mais prolongado seria. A analogia é impossível até porque havia maior durabilidade da música, que naqueles tempos não estava enlatada e massificada como hoje. Mas se os políticos tivessem consciência do nível de marginalização em que se encontram, junto à massa, fariam no mínimo um ato de contrição e de purgação de culpas, entendendo que não fazem parte dessa devoção, ainda que sejamos um povo pobre e inculto e por isso mesmo dependente desses simulacros de patriarcas que são os com e sem mandatos que nos atropelam com seu olhar de ‘‘pedir pão’’ a essa época pré-eleitoral.

AFORÍSTICO
Como Al Cap, o criador de Ferdinando Buscapé, bolou o Dia de Maria Cebola, em que as mulheres de Brejo Seco corriam atrás dos homens e se apossavam dos que apanhassem, por quê não criamos também o Dia do Pontapé na Sambiquira dos políticos que traem, subtraem e mentem?


AXIOMA Consta que o fascínio de Lerner em relação ao ‘‘image-maker’’ Wianey Pinheiro é proporcional ao de Toni Garcia relativamente a Jamil Snege. Nem sempre o assessorado merece o assessor e vice versa.
GLOSA Depois das falas do Herwig sobre pedágio, e do Gionédis sobre o mistério do rombo do Banestado (que vai esconder sujeiras passadas e futuras), qualquer dossiê da oposição é fichinha, mesmo os bombásticos que Requião teria montado.
BIZARRICE Ontem bloqueio na estrada Curitiba-Ponta Grossa por causa do pedágio e do ‘‘panelaço’’ no Centro Cívico das viúvas atrás do dinheiro do IPE que o governo se recusa a pagar por método; e na Assembléia, a novela mal contada dos chunchos do Banestado. Depois disso tudo ainda é preciso oposição? Pode ter sido obra de antecessores, mas o Estado quebrou nas mãos de Lerner.
SPRAY Camburão e polícia na porta da Assembléia para impor a aprovação do ‘‘saneamento’’ do Banestado. Seria bom um saneamento no Legislativo, pois isso aí ficava bem no regime militar. Quantos mais bilhões forem despendidos na eleição, pior será a representação parlamentar. - Quinta-feira passada o procurador de Justiça, Dartagnan Abilhoa, esteve reunido com toda a cúpula da Segurança e ficou de entregar as fitas que comprovam as relações incestuosas com o crime e até ontem no início da tarde não o havia feito. - De qualquer forma, é estranho que a série de gravações tenha caído nas mãos do deputado-radialista Ricardo Chab, que se dispõe a degravá-las nos seus programas de rádio e TV, posto que pretenda fazê-lo depois da Copa. - Há tanto ‘‘mico’’ no Banestado que o melhor seria transferí-los para o Zoológico. Especialmente os da Corretora e da picaretagem com títulos estaduais: há suspeita de que parte disso aí tenha servido para lastro de campanha eleitoral, dada a obviedade de que algumas daquelas unidades federativas, como Alagoas, não teriam mínimas condições de honrá-los. As relações entre corretoras - notadamente aquelas que tinham velhos frequentadores da mesa de ‘‘open’’ do Banestado no comando - com a política é assunto para ser examinado seriamente. - Deplorável o oportunismo da CUT ao tentar fazer ‘‘surf’’ na questão do pedágio. Objetivo apenas de traço eleitoreiro para desgastar o governador, pois a eles interessa exatamente que as coisas permaneçam assim para que haja um foco permanente de tensão. Não está, pois, interessada em revisão das planilhas. - Outra demagogia intolerável foi a invasão da praça de pedágio pelo MST, incluindo na pauta de reivindicações a resistência à privatização do Banestado. - Amanhã a Polícia Federal, através do seu superintendente regional, por ordem do ministro da Justiça, aproveita o Dia do Combate ao Narcotráfico para doar 40 sub-metralhadoras (40 tiros cada vez), 20 delas a policiais civis e 20 a PMs. - Uma ofensiva tecnológica do governo neste fim de mês no Tecpar terá a dupla inauguração da planta de produção de vacina tríplice e das instalações que abrigarão entidades ligadas à área. - Jornalista Fernanda Rocha, âncora da CBN, acertadamente chamada de ‘‘a bela da tarde’’, convocada para a campanha de FHC no rádio em Brasília. Enquanto os de fora enxergam talentos locais, nossos basbaques se rendem, por espírito de colonialismo, a supostos gênios externos. Por trás dessa cultura reflexa, existe algo mais prosaico do que filosofia.
FOLCLORE Conta o meu primo-irmão, Raul Mazza do Nascimento, que quando alguém o procura para pendências familiares pergunta de cara se o cliente deseja se desquitar de homem ou de mulher. O que era insólito, virou coisa comum.
CROMO O pinhão palpita na pinha como a amêndoa na polpa do fruto, o amendoim no interior da casca, a pérola no ventre obscuro da ostra, a bateria no âmago do relógio. Tudo bem: e o que tudo isso tem a ver com um coração cansado e sangrando para falar de amor?

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