Luiz Geraldo Mazza
Um whisky end
Ao invés de um ‘‘week end’’, o governo teve um ‘‘whisky end’’. Todo o quadro indicava euforia: inaugurações no meio de semana, encontro com pastores da Assembléia de Deus, vinda de FHC nas comemorações dos 90 anos da imigração nipônica, mais o megaevento das 350 vilas rurais em Campo Mourão, com a maioria destes atos ocorrendo no interior.
Mas já no sábado o governador e seu ‘‘staff’’ tinham a informação de que mesmo sem Álvaro Dias, a eleição será penosamente disputada: segundo o ‘‘Vox Populi’’, Lerner está com 42% e Requião com 36%, o que evidencia um fato relevante - os votos alvaristas estão em maioria migrando para o candidato do PMDB. Isso criou um clima de euforia na oposição, mas não de depressão no oficialismo porque esse conta com a cortina sanitária dos áulicos com forte poder de persuasão nos círculos íntimos do sistema. Por isso de ‘‘week end’’, a sequência de acontecimentos terminou em ‘‘whisky end’’. Nada como um relaxante desse porte para uma esfriada de moringa.
A campanha, já iniciada, pega fogo no início de julho e o instrumental chapa-branca é obviamente mais forte do que o da oposição. Mas isso pode conferir-lhe aquela aura de perseguida, de ‘‘pobre’’ contra o rico, o que com Requião no comando das operações dá para imaginar o efeito. O governo vai ter alguns problemas para explicitar o ‘‘rombo’’ do Banestado, assunto de editorial de ‘‘O Estadão’’, que lembrou singelamente que se fosse um banco privado, seria simplesmente fechado. Como não é, o ‘‘mico’’ vai ser pago pelo contribuinte. Nesse aspecto, a campanha vai ganhar dimensões sórdidas porque teremos documentos bancários circulando por aí ao lado de cartas anônimas.
Mesmo afastado da disputa, Álvaro Dias, além de ganhar o Senado facilmente, pode, com a migração dos votos, enunciada na pesquisa, decidir a parada sem ferir qualquer princípio ético na sua fidelidade a FHC que, todos sabem, será combatido por Requião. Temos uma semana para fechar os acordos e mais alguns meses para descumprí-los, conforme a nossa tradição macunaímica.


AFORÍSTICO
Está duro, hoje, em política até achar o ‘‘menos ruim’’



AXIOMA Quem tem Brizola como aliado não precisa de oposição: em 64 foi o mais articulado nutriente do golpe; agora ajuda a derrubar Lula. Quando passou a apoiar Collor, acelerou a sua queda. Pelo menos aí prestou um bom serviço.
GLOSA ‘‘Pergunta: qual é a semelhança entre petista em pesquisa e ejaculação precoce na cama? Resposta: Sobem rápido e se acabam antes do tempo. Essa é do Eduardo Schneider, que diz mais sobre Lula e Brizola, o primeiro como jurássico e o segundo cretáceo.
Mas em eleição, corre-se sempre o risco da comemoração precoce, seja no caso da ascensão de Lula, seja no da recuperação de FHC em função de brizolagens.
BIZARRICE O senador Roberto Requião acha que a solução para a sociedade em que vivemos, notoriamente uma ordem totalitária e hegemônica, sob o ponto de vista financeiro e militar, deve ser buscada na ‘‘Rerum Novarum’’. Se forçasse um pouquinho mais a memória, chegaria à Carta do Rei João Sem-Terra de 1215, primeiro esboço de Constituição inglesa, e antes, ao Levítico e Pentateuco.
SPRAY Uma reunião no Tourist Hotel, de propriedade do presidente da Associação Comercial do Paraná, em que Aníbal Khury, uma vez mais foi o maestro, ficou decidido que Paulo Pimentel seria o vice da chapa oficial, mas que isso só deveria ser divulgado no meio da semana. - Presentes na reunião, além de Pimentel, o seu ex-adverso Saul Raiz, o coordenador das ações políticas do governo, e Cândido Martins de Oliveira, que faz dobradinha permanente com Aníbal. Um deles fez ‘‘vazar’’ para os meios de comunicação o que foi decidido. - Com esse tipo de aliados, mais os áulicos, Lerner consegue fortalecer, cada vez mais, a oposição. - Se com tanto assunto para faturar - vilas rurais, vinda de FHC, inauguração da fábrica da Siemens de chicotes elétricos, possibilidade de uma segunda fábrica da Renault, bem como a saída do primeiro carro da Audi-Volks - o governador aparece com apenas 6 pontos à frente de Requião, dá para imaginar que dentro em pouco escasseiam motivações. - Por falar em Renault, em agosto começam a sair da linha de montagem de São José dos Pinhais as primeiras unidades (pré-série) do Scénic. No fim de 99 será a vez do Clio 2 e a produção do utilitário Kangoo. - O governo tem coisas no varejo para faturar como suas ações no interior: programas habitacionais e criação de um clima de auto-superação como o que está permitindo que o município de São Tomé, no Noroeste, encontre perspectivas no café adensado e no palmito pupunha. Essas ações podem ajudar a criar um painel favorável. - Em março de 97, FHC prometeu em Joinville que até aquele final do ano estariam em operação 100 quilômetros da BR-101. Espera-se que a promessa da passagem do gasoduto por Londrina não tenha igual destino. - Valdir Córdova, o Bicudo, está em quarto lugar no horário de fim de tarde, com seu programa esportivo na Rádio Capital. - Forte repercussão nos meios culturais da contratação de três instrumentistas (violinista, violoncelista e pianista) ao custo de R$ 450 mil, pela Secretaria da Cultura junto à Antares Promoções. - Hoje ou amanhã a polícia apresenta uma gangue de ladrões de bancos e farmácias. - Por sinal, o coronel Justino Sampaio, do CPC, teve reunião ontem com donos de farmácias para dificultar as ações dos ladrões. - 84 fitas gravadas pelo Ministério Público de envolvimento da polícia com o crime foram mostrados ontem no ‘‘Bom Dia, Paranᒒ.
FOLCLORE Publicitário Hiran Pessoa de Mello, que atuou na campanha de Álvaro Dias, é quem vai cuidar da propaganda eleitoral de Enéas, o homem do PRONA. Há quem diga que essa história de defender que as Forças Armadas tenham a bomba atômica, que é polêmica e acentua o traço autoritário e nacionalista do candidato, já parece contribuição do publicitário. Se ao fazer Itaipu o Brasil foi acusado pela Argentina de estar produzindo uma ‘‘bomba hidráulica’’, imagine-se o que pensar agora dessa proposta. Muito interessante tocar na idéia no dia do 90º aniversário da imigração japonesa, vítima de Hiroshima e Nagasaki.
CROMO Há previsão de possível nevasca, em razão de ‘‘La Ni¤a’’, atingindo o Sul do País e - quem sabe? - o Paraná. Em 75, Curitiba viveu experiência que liberou em seu povo o amor ao lúdico, à alegria, como em momento algum. Nada como a alvura da neve e sua força solidária para extinguir esse tom penosamente cinza da cidade. Só não vão dizer que deveremos mais isso a Lerner.

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