Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
As caixas pretas
Para o governo as caixas pretas precisam ser mantidas porque as acompanha a maldição equivalente à da bolsa de Pandora: que aberta pode liberar, a um só tempo, os bens, mas também os males, altamente contagiosos, do mundo. O ato de governar é liturgicamente uma sequência de obscuridades, pois informar-se pelo Diário Oficial é tão claro aos mortais como decifrar a pedra da roseta, as letras cuneiformes ou os hieróglifos. O oficialês tem um código inacessível para o homem comum quando deveria ser precisamente o contrário em concisão e clareza.
Até hoje, por exemplo - isso para citar um episódio traumático da história paranaense - não se conhece em que condições efetivas se deu o flagrante de corrupção do governo Haroldo Leon Perez e que determinou a sua renúncia, por ordem do comando do golpe de 64, ao qual dera enorme contribuição. Mas não precisamos recuar no tempo. Fatos cotidianos do governo Lerner, como os desvios do Banestado e da área de segurança, ficam sem esclarecimento. E o pior é que ninguém pressiona. Nem mesmo a imprensa, que deveria ser a maior e a mais interessada com a suposta delegação que detém da sociedade, toma qualquer providência nessa direção.
Não bastasse o peso do oficialismo na informação, velha deformação cultural, há ainda essa apatia militante, esse conformismo doentio, que sustentam esse clima de forma interativa. O rolo compressor vai operar no Legislativo nesta história mal contada do saneamento do Banestado, como se estivéssemos numa operação de queima de arquivo ao vivo. Os delinquentes, quando o fazem, tomam a prudência de se ocultarem.
Roberto Requião, na batalha para bloquear os empréstimos na CAE do Senado, denunciou que o governo havia despendido R$ 160 milhões em propaganda. Até hoje, nem o senador o comprovou e muito menos as contestações do governo foram claras como se exigiria em qualquer país medianamente civilizado.
Dá para imaginar as acrobacias que serão feitas para driblar a curiosidade dos que tentarem saber por que o valor da Telebrás caiu, em poucos meses, de R$ 40 bilhões para R$ 13 bilhões. Tudo à luz do dia e sem explicação! A ordem é essa: a da ocultação e como o Paraná segue o modelo federal, pode-se ver aí o grau de sincronia de estilos. Faz-se o saneamento do Banestado, mas nunca o da democracia, que exige transparência e informação clara porque o regime, ao menos teoricamente, é de opinião pública.
AFORÍSTICO
Quem cala, nesse
escândalo do Banestado,
consente.
AXIOMA A música do Chico Buarque cabe como uma luva para caricaturar o drama de nossa polícia, ambivalente e minada pelo crime organizado, principalmente no trecho em que diz chame o ladrão, quando se pressente que há alguém invadindo a casa.
IRONIA Mencken fala do seu convívio com o escritor Ambrose Bierce. Ele contou que mantinha as cinzas de seu filho em sua escrivaninha. Comentei - diz Mencken - que a urna devia ser uma bela peça de ornamento. Urna o cacete!, ele respondeu. Guardo as cinzas numa caixa de charutos. Haja sutileza.
GLOSA Se Lula pode intervir no Rio para garantir um candidato do PDT, Maluf pode fazê-lo aqui para ser leal ao PFL, que o apoiou em São Paulo, e o PMDB agir contra Requião se a tese da reeleição for aprovada. Se não há lógica nisso tudo, não é de impressionar porque a política dispensa, antes de tudo, qualquer sinal de coerência, e, ao fim da próxima eleição, os partidos terão que ser reciclados. O PT, por exemplo, racha em facções: o PMDB, idem.
BIZARRICE Se o Golbery era da Dow Chemical, o Higino Corsetti, ex-ministro das Comunicações, virou dirigente da NEC, por que não pode o Paulo Cordeiro vir a atuar numa dessas multinacionais que operam na área? Afinal, há muito perdemos a timidez: o Karlos Rischbieter é dirigente da Volvo, conselheiro da Racimec, que contratava serviços da Caixa Econômica que dirigiu, enfim tudo é normal. E ainda há quem se escandalize com a história do Lula morar em casa cedida, o que é de um moralismo idiota.
MEMÓRIA O Reservatório do Alto São Francisco de Curitiba, inaugurado em 24 de agosto de 1908, como relata Zair Lorival Schuster, teve naquele dia momentos de requintes: a água foi servida em copos, especialmente bordados, para quem desejasse experimentá-la, mas, serviu também, para que o então presidente do Estado, Xavier da Silva, aspergisse as pessoas que estavam presentes. Logo que a água chegou ao reservatório - diz o irreverente Olho da Rua - vimos o doutor Xavier com um copo cheio da cuja na mão. Quando julgamos que S.Excia ia saborear o fresco líquido da serra, virou-se ele para os presentes e metendo os dedos no copo, delicadamente fez uma chuvinha pela cabeça do pessoal. Isto é: aspergiu-os.
RICHA Em depoimento ao projeto de Memória da Fundação Inepar e que foi ao ar ontem e anteontem, na CBN, José Richa, ex-governador, conta que teria feito um acordo não cumprido por Álvaro Dias na questão do ingresso de Lerner no PSDB: quem estivesse melhor na época pré-eleitoral seria o candidato. Mas Richa se queixa de que criou ou ajudou a desenvolver figuras como Álvaro e Requião e que depois foi por eles traído. Richa foi lançado na política por Ney Braga e depois se colocou contra ele, como de resto Ney havia feito o mesmo com Bento Munhoz da Rocha, o que afinal, faz parte, do processo, antiético, dessa atividade nefanda e que cada vez mais afasta o povo.
PIQUE Surpreendente nos últimos dias o pique de Lerner para recuperar terreno na campanha eleitoral. Para Requião, no entanto, isso é interpretado como prova de que continua caindo nas pesquisas e que está consciente de que votos de Álvaro Dias migrarão, de preferência, para o PMDB.
FOLCLORE Emílio de Menezes, poeta neoparnasiano, está se acomodando num assento no teatro no Rio de Janeiro quando uma atriz fogueteira dele se aproxima, tentando sentar ao seu lado. O gordo olha para trás e faz a indicação: Atriz atroz atrás há três e apontava para poltronas vazias.
CROMO Nos sons da cidade, que se tornam cristalinos com o frio, a prova de que tudo muda: não se ouve mais o rugido do leão do Passeio Público, hoje no Zoo do Iguaçu, e muito menos sequer o sino da igreja. Canto de galo só na periferia. Um corte epistemológico na madrugada: a buzina forte do trem.





