Monarcas antigos tinham o hábito de eles próprios se disfarçarem para ouvir o que o povo deles dizia. Era um gesto de humildade em quem afinal tinha o poder em função de um direito inquestionável porque divino. Pois a República, na qual a opinião pública é peça fundamental, raramente nos dá exemplos como esse da lenda. E o nosso governador Jaime Lerner não escapa à regra até porque é protegido por uma verdadeira muralha de áulicos: para cada cabeça lúcida cem bajuladores, contadores de anedotas, aqueles que tornam as maiores aflições em amenidade.
No dia da votação da emenda da reeleição, o governador estava tão bem informado sobre o assunto que apostava, no helicóptero que o levava às áreas inundadas, que FHC iria ‘‘quebrar a cara’’. Uma heresia dessas não poderia ser dita perto de Aníbal Khury, que, mesmo com uma visão provinciana de processo, sabe que jamais o sistema jogaria tão pesado se não tivesse a mais absoluta segurança da vitória.
Essa falta de feeling, de um mínimo de intuição, decorre exatamente do fato de o governador viver no cipoal das tramas palacianas, anestesiado pelo cerco de pessoas que jamais seriam capazes de um exercício mínimo de crítica. O seu assessor político, o primeiro, deputado federal Fernando Ribas Carli, foi incapaz, por exemplo, de perceber que ia perder a eleição em Guarapuava.
Não bastasse isso, as subjetividades do governador em pleitos como o de Foz do Iguaçu, o de Paranaguá, o de Maringá (aí se mostrava dividido entre Sílvio Barros e Joel Coimbra) etc. revelam que não é do ramo, embora se trate de um mito não apenas regional, mas até internacional e que, diante dos quadros que aí estão, passa, no mínimo, a ser um mal menor.
Um governo ir mal e o governador não saber, acreditando na força persuasiva da sua própria propaganda, não é um tema para literatura do absurdo de Kafka, Beckett e Ionesco e, sim, expressão do nosso cotidiano. Aquilo que impressionou o pessoal da Renault vendo Lerner andar de ônibus no meio do povo (o que é ilusório, pois Curitiba é hoje barra pesadíssima) não acontece nem com ele disfarçado, até mesmo no Carnaval. A realidade de fora para dentro é desconsiderada pelos muros protetores do Palácio Iguaçu.
BIZARRICE - Antonio Belinati tem seus momentos de artista e ontem foi um deles. Dizia-se satisfeito e até emocionado com a notícia de que Lerner iria começar a visitar o interior. ‘‘Ele começa por Lion na França. Não deixa, no entanto, de ser um começo.’’
SPRAY - A polícia botou a mão, ontem, num dos cabeças da fraude do ICMS, o Francisco Gevaerd Júnior, que na campanha de 1985 era um dos assessores eleitorais de Lerner, ao lado do Ademar Costa, outro dos coordenadores do esquema das guias fajutadas do tributo. - Gevaerd foi apanhado naquela campanha em corrupção, segundo Lerner me esclareceu quando abordei o assunto na rádio CBN. Se todos que forem apanhados (as denúncias não são poucas) com a mão no jarro forem punidos, o governo irá cada vez melhor. - Anunciava-se outra vez a reforma do secretariado no Palácio Iguaçu. Para quem não tem o que fazer, especular é preciso. O Paraná está estagnado e a propaganda na televisão lembra aquela situação dos cenários em movimento nas trucagens de Hollywood. - Ligações de gente do governo no caso dos contratos com os cursos de reciclagem de Faxinal do Céu vão acabar em processo judicial. Se isso se der em todos os setores (educação, comunicação, empreitadas, prestação de serviços), a Justiça ficará, por certo, saturada. - Uma luz no fim do túnel do carnaval curitibano: o pessoal da Liga, que rompeu com as duas entidades (entidades demais para uma festa nanica), sob o comando do coronel Lúcio de Mattos, sugere um ajuste no perfil da promoção ao nosso jeito de ser, incluindo manifestações étnicas. Bom para todos: pelo menos cromaticamente a coisa melhora. Teríamosum mosaico de alemães com bandinhas, italianos, japoneses, polacos e ucranianos que poderiam também desfilar nos bairros onde há os respectivos portais. - Arthur Moreira Lima, considerado por muitos como o intérprete de Chopin ao piano, vem aí para a solenidade da posse do desembargador Henrique Lenz César como presidente do TJ. Anteontem ele testou o piano do tribunal e o achou legal. Vou repetir uma estorinha do pianista. Ao fazer um recital na então União Soviética e ao ser apresentado ao embaixador que declinou o nome Vasco Leitão da Cunha, ele repicou: ‘‘Fluminense Moreira Lima’’.
FOLCLORE - O governo vai assumir a construção dos 10 leitos da UTI no Hospital Universitário de Maringá. Só que não precisava hesitar tanto. Só falta agora um áulico palaciano dizer que Lerner é como Ademir da Guia e só aparenta lentidão. Mas Ademir defendia embaixo da trave e partia para fazer gol do outro lado. Essa movimentação o Lerner não tem, além do que, de vez em quando, faz gol contra.
CROMO - O agrimensor Coelho Júnior está à beira do Rio Piquiri pescando em noite de lua cheia. De repente, vê o astro fragmentar-se no reflexo das águas na hora em que retirou um peixe colorido. (Isso consta de um dos muitos escritos do Coelho, em ‘‘O Estado do Paranᒒ.)
AFORÍSTICO - Com quantos Chalaças se faz um Imperador como a história do Brasil o demonstra? Há mais fauna de áulico e puxa-saco do que naqueles tempos. O pior é que o bajulador se acha insubstituível. Por isso é que no Brasil há mais risco de um atentado (por excesso de generosidade) de um puxa-saco do que de um terrorista, ainda mais quando isso se dá ao pé da letra.

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