Luiz Geraldo Mazza
Banco de todos os nós
De ‘‘banco de todos nós’’, o Banestado se transformou em ‘‘banco de todos os nós’’. Nenhuma pessoa, com um mínimo de consciência, aceita a manobra que se está preparando para lançar a craca embaixo do tapete. Não é crível que o governo não se toque no absurdo que é deixar a sociedade sem informações e se agarre no decantado sigilo para tocar a operação que parece visar sanear os erros de agora e do passado do que efetivamente alavancá-lo para a venda.
O pior é que a oposição insiste em manter um foco primário e sindicalista em torno do banco público, quando os seus mais de 200 mil correntistas pesam mais do que o interesse estreito e corporativo dos empregados. Que em maioria, é óbvio, é pela privatização justamente para aspirar um futuro que não está apenas no emprego, mas no sentido de um organismo rentável e útil e não apenas voltado à picaretagem dos políticos e suas clientelas.
Os bancos estaduais vão acabar, todos estão sabendo. Tenta-se apenas fazer uma dramatização para obter rendimentos políticos com ameaças paranóicas de despedida até de 50% do quadro de servidores. A tática é fascista: usa-se o medo para condicionar as pessoas ao desespero.
O que a oposição deveria fazer era desmistificar a empulhação do processo: o crescimento desatinado do ‘‘rombo’’. Basta lembrar que os Estados Unidos da América do Norte botaram menos do que o valor estipulado para o Banestado na sua ação saneadora num dos maiores países do mundo, o Japão, a fim de evitar que o mal se aprofundasse capilarmente por toda a Ásia. Como a farsa já está montada, percebe-se que oposição e situação fingem estar em campos opostos porque no fundo se beneficiam da não revelação da roubalheira e do ato de empurrar a sujeira para baixo do tapete. Passa batido, como se fosse uma espécie de anistia contra os saqueadores do tesouro. É que as revelações teriam efeitos devastadores em ambos os lados e depois, passado o pleito e purgados os pecados, venderiam o banco e os seus nós na bacia das almas.


AFORÍSTICO
Há algo mais acanhado, pequeno, como a forma como se faz política no Paraná? Falta de quadros humanos, mas sobra de alguns quadrúmanos



ANEDOTA O cara chegou tarde em casa e derramou, descuidado, no quarto, boa quantidade de drágeas de Viagra. No meio da noite ouviu um ruído estranho: o sapato estava comendo a meia.
AXIOMA Depois de todo o circo armado em torno dos partidos nanicos, a fria da candidatura de Horácio Rodrigues (na hora do almoço estava ao lado de Requião) ao governo, percebe-se que tudo tem a marca do bruxo: basta de intermediários e chega de encenação ‘‘Aníbal para o governo e numa república unitária’’. Nada mais adequado para mostrar a mediocridade da nossa política regional.
GLOSA Se o Heinz Herwig, secretário dos Transportes, continuar falando, cai, ainda mais, a cotação do governo. Outro dia ele profetizou a cobrança de pedágio até no sistema de circulação metropolitano. Se for explicar o que tentou dizer, vai deixar a situação ainda pior.
BIZARRICE Cada vez que Lerner se aproxima de nisseis ou de japoneses mesmo, deve se lembrar de uma solenidade de que participou no Japão, em que o mestre de cerimônias o apresentou, com aquela entonação reticente, como Jaime Lero Lero. E, sem querer, como acertou!
SPRAY No dia em que o senador Requião negava importância à industrialização do Paraná, Lerner inaugurava a fábrica de chicotes elétricos em Irati. A língua é o chicote que bate nas costas. - Tudo o que está acontecendo na política é de traço fungível: no almoço Horácio Rodrigues estava ao lado de Requião e à tarde fazia parte do coral dos nanicos a favor de Lerner. Cada orquestra tem o Isaac Karabichewski que merece: o desta é o Aníbal Khury, cuja batuta está mais para o cacete do Ratinho. - Enquanto a oposição resmunga ou não sabe o rumo a tomar (caso Álvaro Dias), Lerner vai ocupando espaços: ontem, em Irati, na inauguração da unidade da Siemens, que vai gerar mil empregos quando estiver em plena atividade, hoje em Rolândia, junto com FHC na festa da imigração nipônica, e amanhã em Campo Mourão, no megaevento das 350 vilas rurais. Está fazendo num dia, politicamente, o que não fez em três anos. - Mas e a folhinha da logomarca, vetada pelo TRE, como é que fica? Ela estava para o governo Lerner como a folha de parreira para Eva, e dava sorte, quase um amuleto. Imaginar esse governo nu é impossível. Dá para percebê-lo nesse caso do Banestado. A crença da folhinha ajuda é de tal ordem que pode influir na decisão de recorrer ao TSE. - Milton Buabssi esteve, como delegado da terra, na reunião do diretório nacional do PMDB em que foi tentado, pelos governistas, o golpe para afastar Paes de Andrade. - Quem está com as cartas na mão é o senador José Sarney, mas que pode reverter tudo a favor de FHC na medida em que tem o caso da eleição da filha no Maranhão e a sua para resolver. Está valorizado com essa idéia de sair candidato, o suficiente para poder também negociar. Qual dos dois lados é pior no PMDB? Nenhum é bom. - Paulo Pimentel de vice na chapa de Lerner era a solução de ontem. Até quando?
CONCEITOS Além de crítico de costumes, Henry Louis Mencken era um refinado linguista e crítico de artes. Irritava-se com a tendência de os artistas não terem uma noção de conjunto, pluralista, das artes. E dizia: ‘‘A maioria dos romancistas, em minha experiência, não sabe nada de poesia, assim como pouquíssimos poetas têm qualquer interesse pelas belezas da prosa. Quanto aos teatrólogos, 3/4 deles ainda não foram informados da existência nem de uma e nem de outra.’’ Mais um pouco do gênio corrosivo: ‘‘O material produzido por 90% dos escritores, como deve parecer claro até aos cegos, tem tanto a ver com a iluminação do mundo quanto um rol de roupa.’’ Textos de 1926.
FOLCLORE O curitibano tem o hábito de ‘‘quebrar’’ as pessoas: chamá-las pelo nome, reproduzindo as duas sílabas finais, no interior do País ou no exterior, para deixá-las desconcertadas. Vinícius Coelho, em Nova York, atravessava uma avenida quando ouviu o grito maldito ‘‘Vinícius de Curitiba’’. O autor até hoje não foi identificado. Um dia o ministro Suplicy de Lacerda passeava, em carro oficial, por São Paulo e um curitibano não hesitou, gritando ‘‘Cerda’’ só para perturbá-lo e andando na contramão.
CROMO Não dá para comparar a Copa do Mundo, como colorido, com o lixo que vem aí da campanha eleitoral, porque, afinal, até o vômito pode ser colorizado.

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