Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Eclipse da democracia
Vamos engolir como boa, verdadeira, essa estória do rombo do Banestado e deixar que o governo, com a cumplicidade do Legislativo, ponha o lixo da corrupção e da má gestão, deste e dos governos anteriores, para baixo do tapete, uma espécie de indulgência plenária a todos os pecadores, veniais e mortais, dos mal intencionados aos incompetentes?
Essa deserção é inaceitável. Transformar um furo, que era estimado em menos de R$ 1 bilhão e que vira rapidamente em R$ 1,7 bi, R$ 2,5 bi, R$ 3,5 bi e R$ 4,1 bilhões, e isso num ano eleitoral, sem qualquer investigação ou explicação, bem no estilo da planilha do pedágio, não dá para aceitar. A sociedade exige esclarecimento, basta de caixa preta, posto que exista representação de 25 notícias-crime na questão da Leasing em tramitação judicial e mais essa vergonheira que foi a picaretagem com títulos estaduais e que o faro do senador Requião foi bem insuficiente para detectar na CPI dos Precatórios, embora fizesse de tudo para descobrir a manobra, prejudicada pelo açodamento e pela falta de tranquilidade.
Se a operação saneadora passar como o governo Lerner deseja é porque tenta negociar o que oculta do seu período, em troca do que sabe do passado. Não é justo que o manobrismo político impeça a sociedade de ser devidamente informada, pois é ela quem paga esse corsarismo.
Outra coisa: não venham com a idiotice de sustentar campanhas em defesa do banco estatal; não há como fazê-lo, e a partir dessa constatação, que impedirá que continuem os saques de políticos e seus protegidos ao dinheiro público, dá para descobrir quem verdadeiramente quebrou o Banestado. Que o governo atual está entre eles não há como contestar e, o que é pior, comprometido por ação e omissão especialmente no caso da Leasing, cujo dirigente, depois do estrago feito, que deve ter sido com sua autorização, foi promovido. Não se pode presumir outra coisa que não seja o comprometimento pessoal.
AFORÍSTICO
Lerner já tem apoio da Assembléia de Deus. Como conta com o apoio da outra, aquela do mundo terreno, vai acabar entronizado.
AXIOMA Horácio Rodrigues, candidato a governador. Só falta o Teolino Mendonça para o Senado. Por trás de tudo isso dá impressão que há um bruxo. Não se trata de laranjada, mas um caso de limonada purgativa.
CORREÇÃO Pisei na bola de novo ontem: o nome verdadeiro do assistente de Sartre é Benni Levy e não Bernard. A mulher de Sartre, a escritora Simone de Beauvoir, contesta os registros feitos por Levy como subjetivos, pessoais.
GLOSA Político radical quando tenta se tornar palatável perde os anteriores e não ganha os novos que deseja com as concessões. Justiça poética.
BIZARRICE Há jornalistas que mudam de opinião quase todo o dia: ora a favor do governo de forma radical e no outro momento na crítica pesada. Sugere-se que se trata de uma espécie de diarista da profissão.
PASTORAL Lerner recebeu ontem um apoio importante em Arapongas de 350 pastores da Assembléia de Deus, que contam no Paraná com 850 mil seguidores. Se Lerner é de outra confissão religiosa, o que nada tem a ver com o assunto, já que se trata de apoio ao que denominam ação social do governo, o presidente da convenção, pastor em Foz do Iguaçu, se chama Israel Sodré, o que lembra a raiz comum do judaísmo e do cristianismo.
Será por isso que o José Felinto, ex-deputado, seguidor da religião, teria feito a carta aberta ao seu amigo íntimo, Álvaro Dias, pedindo-lhe que desista de concorrer ao governo e que dispute o Senado?
FILOSOFIA A monogamia mata a paixão - e a paixão é o mais perigoso de todos os inimigos da suposta civilização, segundo o cínico-cético H.L. Mencken.
SPRAY O número de empregos para a indústria automotiva cresce mais rápido que o rombo do Banestado: a Volks-Audi diz que criará 13 mil empregos, 10 mil indiretos. Levantamento do Ipardes dava bem menos do que isso. - Sou o iceberg que vai afundar o Titanic, disse ontem o deputado Horácio Rodrigues, reafirmando que sai candidato ao governo. Piada do terceiro andar do Palácio Iguaçu: Ele é a parte inculta do iceberg. - Laércio Faustino Cardoso, o Frangovo, não mais suporta atender ao telefone para explicar que não é candidato ao governo. É muita quirera pro meu galinheiro. Não afasta a hipótese de sair a deputado estadual. Acha que pode dar uma bicadinha e ter o seu lugar no poleiro. - No domingo, 12 horas, Memorial de Curitiba, abre-se a mostra Paranaguá - 350 anos, Civitas Mater do Paraná. Promoção conjunta da Prefeitura de Curitiba e a de Paranaguá e a Fundação Cultural. Há aí o toque da Margarita Sansone. Como hoje há mais parnanguaras em Curitiba do que no litoral, espera-se a presença em peso da colônia. - O pique do governo é de campanha eleitoral: ontem, contato com evangélicos em Arapongas, e de Dona Fani em Toledo inaugurando o Centro Único de Atendimento à Criança e ao Adolescente para 24 internos, e mais tarde em Cascavel, assinando protocolos beneficiando 28 municípios do Oeste para programas como o Da Rua para a Escola. É a corrida contra as pesquisas em queda, prova de que o governo finge comemorar, mas age para corrigir. Urge saber se vai dar tempo. - Um bancário aposentado comentava a história do rombo de R$ 4,1 bilhões: O esforço contínuo para quebrar o banco, depois de tanta programação, foi alcançado. - Vou repetir aqui uma história que testemunhei no início do segundo Governo Lupion: o industrial Ivo Leão, secretário da Fazenda, abre uma reunião secretarial e declara que o Banestado está quebrado. Percebendo que havia jornalistas no recinto (eu e o Gauchinho, Carlos Alberto Marques, que Curitiba e Londrina conheceram bem), pediram que o fato ficasse em off. Depois de tanto off, chegamos ao puff. Cada governo que entrava dizia que o banco tinha adernado.
FOLCLORE Ricardo Prefeito, o Eduardo Schneider, recebeu um release do sistema paralelo do governo, o de proselitismo eleitoral, contando a reunião de Lerner com os pastores da Assembléia de Deus. E ao saber que o presidente do encontro era o pastor de Foz do Iguaçu, Israel Sodré, não teve dúvidas e titulou a matéria: Israel apóia Lerner. Retumbante e redundante.
CROMO Ângelo Antonio, meu neto mais novo, com pouco mais de 1 ano, sorrindo com um ar maroto, equilibrando-se no skate do irmão maior no meio da sala, me lembra um beija-flor adejando no espaço.





