Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Uma polícia refém
É da mais alta importância, notadamente agora, a realização desse curso na Escola de Polícia sobre gerenciamento de crises e negociações de delitos com reféns. Como os desvios de conduta no interior das duas corporações acabaram se transformando numa endemia, é indispensável tomar a cautela, no exame dos assuntos, de fixar com muita precisão a dinâmica entre teoria e prática. É que sob o ponto de vista da doutrina pura se chega a conclusões óbvias. Quando, no entanto, se examina a questão na perspectiva do comprometimento de faixas da baixa e média hierarquia e, em casos felizmente minoritários, da cúpula, mudam radicalmente os dados da questão, porque aí a polícia é refém também.
Desde o início da discussão sobre o descontrole da violência no Paraná, em especial na Grande Curitiba e em Londrina, insistimos que o problema chave era a falta de pulso do governador, ao não impor-se como autoridade, e ao permitir que a área fosse praticamente delegada aos políticos. Estes ficam com os bônus e não assumem os ônus, já que se recusam a monitorar o setor e dão como bom tudo o que os seus apadrinhados fazem ou deixam de fazer.
Episódios como o da gangue institucionalizada nas delegacias de Antitóxicos e de Furtos e Roubos de Veículos, e no caso específico de Almirante Tamandaré, todos devidamente flagrados e comprovados, mostra que ao lado da conspiração do silêncio há a do medo, o temor das represálias. Tanto que o Ministério Público insiste em que as fitas comprometedoras de várias dessas distorções já estavam, há muito tempo, sob custódia da Corregedoria. O atual titular, Renato Souza Lobo, nega a afirmação, pois só tomou conhecimento das gravações no meio do caso de sequestro e extorsão praticado por policiais de Almirante Tamandaré, em conjunto com gente vinculada ao crime organizado.
Essa inversão de valores, que levou o governador, num gesto de fraqueza, a abrir mão de prerrogativas indelegáveis, é a causa-matriz de tudo. E há ainda tempo para arrependimento eficaz. Houve melhoras no sistema, mas, de certa forma, insuficientes para a magnitude do problema e que pode ser o embaraço maior na campanha. Para os áulicos é claro que não. Até o dia em que a mãe, a tia, a avó, o filho de um deles for sequestrado. Nesse momento, não terão tempo de pensar nos efeitos eleitorais da omissão clamorosa do governador e que, se persistir, o porá a nocaute nas pesquisas e nas eleições.
AFORÍSTICO
Lerner e Requião se dizem satisfeitos com a pesquisa e Álvaro Dias, como sempre, discorrendo como suposto especialista, a recusa. Pesquisas como as bruxarias - às vezes muito parecidas - que existem, existem. Ninguém pode duvidar.
BIZARRICE Ontem, na CBN, nos meus comentários, fiz referências aos 40 anos da queda do avião da Cruzeiro do Sul, que matou os políticos catarinenses (Nereu Ramos, Leoberto Leal e o governador Jorge Lacerda, paranaense de Paranaguá) e detalhei alguns aspectos da Copa de 38, que ouvi à distância, já que tinha apenas sete anos e me recordo vagamente das patriotadas do narrador. Bastou isso para que um ouvinte mandasse um fax perguntando se eu havia testemunhado a Queda da Bastilha. Respondi que não, mas que assisti a ascensão da pílula, que mudou o comportamento da humanidade, e da pastilha do Viagra.
AXIOMA O Banestado vai ser, pelo jeito, uma anistia branca aos afanos de hoje e do passado, com o governo jogando a poeira sórdida pra baixo do tapete. Uma espécie de armistício e o povo, que paga as prodigalidades e os afanos, é passado para trás.
GLOSA Um anúncio do sindicato dos telefônicos contra a privatização é aberto com os acordes da Internacional. Esse hino, que já mobilizou povos, soa hoje como uma litania do socialismo real, traição de uma utopia. O pior é que a esquerda, setor vital para o equilíbrio numa fase de hegemonia capitalista, é tão jurássica que se liga em figuras como Brizola com seus cânticos ao Estado provedor e nacionalista, cujas exéquias se deram nos anos 50.
SPRAY Recentemente o Colégio Positivo fez duas pesquisas, em trabalhos extra-curriculares, sobre comportamento: uma acusou o hábito entre jovens da classe média alta da prostituição, e outra a circunstância de 70% dos curitibanos se mostrarem resistentes aos migrantes em quem enxergam a causa e não consequência de problemas sociais e, especialmente, da violência.- É possível que ironicamente migrantes, de mais tempo, se incluam entre os que hoje se mostram hostís aos adventícios.- Dá para prever, em pouco tempo, o surgimento de um posicionamento ideológico, por mais racista e xenófobo que pareça, como o de Le Pen na França.- O curioso é que em Curitiba foi a burguesia demagógica que defendia e patrocinava invasões de terrenos como forma de proteção aos migrantes. - Cassio Taniguchi, felizmente para todos nós, deu um breque no oba-oba lernerista e rafaelista que estimula, via propaganda burra, o agravamento do caos social. Na raiz dos nossos problemas está em grande parte o fato de termos, na periferia inflada (400 mil em cinco anos e cerca de mais 100 mil, só agora depois do anúncio das montadoras), o cenário visado pelo narcotráfico na exploração do trabalho informal. - O frei Miguel, que durante anos serviu como pároco e organizador comunitário na Vila Nossa Senhora da Luz, vivia sob tensão diante dessa escalada. - Numa série de reportagens que Hora H está publicando, produzidas por Vania Mara Welte (prêmio Esso, ano passado, com textos sobre as bruxarias de Guaratuba), indica os pontos de viagem da Capital, o lado rico e o pobre: shoppings Mueller, Omar, Curitiba, Rua 24 Horas, esquinas Alameda Cabral com Cruz Machado, 13 de Maio com Presidente Farias, Vila Nossa Senhora da Luz, Cidade Industrial, favelas de Vila Pinto, Parolin e Trindade. - Conforme o delegado Adauto Abreu de Oliveira, há 1.300 pontos de venda de drogas em Curitiba. A cidade é uma drogaria, o que nada tem a ver com o cartão postal (e boçal) que se eregiu. É o lado anverso e inevitável da chamada qualidade de vida, se é que a temos.
FOLCLORE Segundo os pontagrossenses, a alegria de Irati é que carroça não paga pedágio. E é, ainda segundo os princesinos, o veículo mais frequente da região. Em compensação Adrianópolis, Cerro Azul e Bocaiúva gostariam da adoção do pedágio. O problema seria ter carros em escala suficiente para dar renda.
Quando você não tem como enfrentar uma adversidade, parte para a piada. Seja no caso do pedágio ou no daquele carioca que, com uma faca transfixando o seu corpo, esclarece que só dói quando ele ri.
CROMO Teus olhos azulejantes guardam o fogo do inferno e a serenidade do céu.





