Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Alegria suspeita
e masoquista
O mal dos governantes é não saberem se livrar dos áulicos. A maioria não tem nenhum talento a não ser o da arte da bajulação, necessidade de todos para a sustentação que deve ser submetida a algum tempero. Isso se dá com FHC e com Lerner. Tratam os críticos como na antiguidade se fazia com os mensageiros da má notícia: levá-los à forca ou à guilhotina.
Por que Lerner sorri diante da má notícia? Porque os intérpretes saem à frente para mitigar os seus efeitos, servindo-lhe doses de otimismo cavalares. Era assim que estava diante da pesquisa Brasmarket que o coloca à frente tanto de Álvaro Dias quanto de Requião: quase eufórico, não percebendo que entre a mais recente sondagem e a anterior havia perdido mais de 10 pontos e que seus concorrentes haviam subido.
Do áulico se pode dizer que ele lembra o guri otimista, panglossiano, da anedota: enquanto o pessimista reclamava que havia encontrado no Natal um brinquedo importado no sapatinho, alegando que poderia não haver peças de reposição, o outro, otimista, pulava de alegria ao ver um monte de esterco no seu, gritando, entusiasmado, que havia ganho um cavalo. Um punhado de bosta para um otimista inconsequente pode transformar-se num ícone mais importante do que a Taça Jules Rimet e, vejam bem, num pentacampeonato.
Outra coisa: essa equipe é que orienta Lerner nas decisões mais ousadas e já o convenceu que Álvaro Dias está fora da disputa, que a propaganda do governo não é enganosa, enfim tudo alesblau. Ainda ontem o marginal Chuvisco, que veio do Pará, repetiu que quadrilhas como a dele vieram atraídas pelo excesso de propaganda. Isso aparece em contraponto à ideologia da última série de anúncios em que brasileiros de outras regiões gostariam de importar o Paraná como cenário de felicidade, quando importamos, de fato, a Baixada Fluminense para a Região Metropolitana.
Agora só falta um dos gênios do staff, querendo exibir fleugma de inglês, fazer um trocadilho (o que leva Lerner a sorrir e ficar com aquela cara de japonês e perder o raciocínio), sugerindo que essas coisas do Chuvisco são uma tempestade num copo dágua. Para alegres, que perderam o senso de autocrítica e se julgam acima dos comuns, é a lição cabível. O riso, para Moliere, corrigia os costumes. É que ele morreu antes de surgir esse pessoal que só aceita o humor a favor. E não se percebem o quanto são ridículos. Preciosos ridículos, como sugeria o gênio francês.
CROMO
Há respostas poéticas aos problemas fatais do mercado: o copo de leite, flor-vegetal, jamais será visado pela Parmalat.
AXIOMA Jornais brasileiros contam hoje que Álvaro Dias mostrou a FHC pesquisa em que ele aparecia à frente de Lerner. O presidente trucou, exibindo outra com um resultado completamente ao contrário. Em tempo de Internet e fax, a dissimulação precisa ser melhor operada.
ANALOGIA Comemoração de Lerner na pesquisa Brasmarket em que ele aparece perdendo pontos importantes para Álvaro e Requião equivaleria ao goleiro Régis, que perdeu a penalidade máxima contra o Atlético, festejar o seu feito.
GLOSA Se Lula estivesse na oposição paranaense, diria que os R$ 4 bilhões para o Banestado alimentariam o caixa dois de Lerner? No caso da Telebrás, Lula tem parte de razão na desconfiança: o preço cair de R$ 40 bi para R$ 13 bi é, no mínimo, chocante. Nada o autorizaria a afirmar que tal aconteceria, mas que é duro engolir, é. Até o Zagallo dá para engolir; essa, não.
BIZARRICE Álvaro Dias disse que Euclides Scalco não tem prestígio eleitoral. Sérgio Motta também não tinha e até o estimulava a ser candidato. Outra coisa: nas últimas eleições, a de governador e prefeitos, Álvaro não foi lá essas coisas e isso até explica o desejo de retaliação e vingança. Como o Scalco é sabidamente todo ouvidos a observação, não o ofende.
SPRAY Mais de 40 ônibus e três estações-tubo depredados após o Atletiba. Há alguma dúvida sobre a necessidade de acabar com as torcidas organizadas? Ou vamos esperar que matem, além dos dois já registrados, outras pessoas? - Em ano eleitoral, um governo frouxo como o nosso, que chega ao cúmulo de associar-se a Onaireves Moura por causa de um minuto na televisão, jamais teria coragem de adotar medida tão radical, pois tudo o que diz respeito à segurança ele submete ao juízo dos políticos e uma cambiante conveniência.- Por falar em Moura, chegou ontem, via Internet, parte do dossiê sobre o futebol paranaense junto à RBS, que havia sido sondada para patrocinar o torneio Mercosul. - Outra do aliado de Lerner: à entrada do Pinheirão, anteontem, tentou agredir o vereador e radialista Mário Celso Cunha, sugerindo que os meios de comunicação conspiram contra a sua pessoa.- A propósito da RBS, ela começou a gravar depoimentos e chamadas para o lançamento da programação que desenvolverá sobre Curitiba em dois canais da TV a cabo. Foi o suficiente para que se temesse pelo ingresso, cauteloso, do grupo no mercado, por parte de alguns empresários locais, o que mais cedo ou mais tarde fatalmente ocorrerá. - Agora está em moda essa discussão sobre a legitimidade do ato de um psicólogo tirar da cabeça de um homossexual as suas preferências. Eis um assunto que move não só especialistas, como o povão com seus preconceitos e certezas. - Há axiomas como de que quem é ou foi homossexual não vira hétero: vira e desvira. Outro teste curioso é o que se faz com os homens: a maioria esmagadora admite ter feito, pelo menos na infância, jogos como o do troca-troca, mas aduzem que o fizeram no papel ativo, o que, convenhamos, é impossibilidade matemática.-
FOLCLORE Em 27 de março, segundo a Brasmarket, Lerner venceria o pleito no primeiro turno, já que fazia 41,2 contra 16,1 de Álvaro e 12,6 de Requião. Na coleta de junho, Lerner aparece com 34,8, Álvaro com 25,9 e Requião com 20,3.
Quer dizer: perdeu 6,4, Álvaro subiu 9,8 e Requião 7,7. Se há governista, após essa, sorrindo, é preciso olhar para ver se não se trata de um rictus facial provocado por uma derrame. É a única explicação: a glória da queda. Igual a do cara da anedota, que despencou do 20º andar e ao passar pelo oitavo comentou britanicamente: até aqui tudo bem.
AFORÍSTICO Cada vez aumenta mais a impressão de que o saneamento do Banestado poderá resumir-se a uma operação de lançar a poeira para baixo do tapete, uma espécie de anistia para o governo (Leasing e Corretora com a farra dos títulos estaduais) e que abrange também os anteriores. E tudo em sigilo.





